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Clube das Mães: O maior movimento feminino contra a Ditadura Militar

Com origem em um grupo de custura da Igreja, o Movimento Custo de Vida uniu as mães periféricas contra as políticas econômicas do governo

André Nogueira Publicado em 15/05/2019, às 20h00

Protesto na Praça da Sé
Protesto na Praça da Sé - Crédito: Reprodução

Em 1972, grupos de bordado que se reuniam nas paróquias da Zona Sul de São Paulo, formaram os Clubes das Mães, unidades concentradas nas Comunidades Eclesiais de Base da Igreja Católica e que tinham como objetivo articular demandas de mães periféricas, historicamente marginalizadas.

Essas unidades se multiplicaram rapidamente pela cidade, se conectando com diversas mulheres em situações parecidas e que clamavam pelo aumento de creches, saneamento básico e diminuição dos preços dos produtos básicos, como comida e fralda.

Protesto na Praça da Sé / Crédito: Reprodução

 

No ano seguinte, a força do movimento era tamanha que foi possível entrecruzar as unidades dos Clubes numa articulação unificada, dando origem ao Movimento Custo de Vida, um dos principais grupos de oposição contra a Ditadura Militar em São Paulo.

Em 1978, o Movimento, que se converteu também ao nome Moviemento Contra a Caristia, ganhou destaque ao levar mais de 20 mil mulheres e filhos num protesto contra as políticas econômicas do governo, realizado na Praça da Sé, em uma época marcada pelo boicote do regime militar, que impedia e controlava os fluxos nas vias da cidade e rodovias, a ponto de impedir passagem de ônibus para dentro da cidade.

Com alto capital político, o Movimento chegou a criar um abaixo-assinado que foi entregue ao então presidente Ernesto Geisel reivindicando o congelamento dos preços dos produtos básicos que afetavam diretamente as economias domésticas dessas mães da periferia, durante a crise do “milagre econômico” e a recessão.

Ana Dias no enterro do marido, operário morto por policial em protesto / Crédito: Reprodução

 

As Mães reuniram mais de 1 milhão de assinaturas, mas foram acusadas de falsificação e duplicação de assinaturas. Um dos motivos foi o fato de muitos integrantes do movimento serem analfabetos – resultando em uma cooperação entre as assinaturas, a ponto de poderem ser acusadas de “falsificações” com uma manobra do governo.

Integrantes do movimento relataram o peso que foi uma articulação de mães de periferia na sociedade brasileira dos anos 1970. Muitas foram xingadas, rebaixadas, agredidas e subjugadas, mas descobriram o poder de se unir em grandes grupos que reivindicavam uma pauta comum.

Hoje as mães relatam o peso do Movimento / Crédito: Reprodução

 

O MCV foi um importante agente social num espaço marcado pelos Anos de Chumbo. Hoje se coloca que o Movimento foi um dos principais responsáveis pela retomada do debate público sobre o poder do Estado e a situação econômica, consequência de um considerável aperto causado pela crise inflacionária que encarecia diariamente o preço dos produtos.