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Matérias / Ditadura brasileira

O filme que foi visto como uma 'aula de comunismo' pela ditadura brasileira

Em documento, censora elogia obra como "cinema dos mais perfeitos", mas ressalta: "porém sua causa é nos totalmente prejudicial"

Fabio Previdelli

por Fabio Previdelli

fprevidelli_colab@caras.com.br

Publicado em 04/02/2024, às 14h00 - Atualizado em 07/02/2024, às 18h06

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'A Chinesa' de Jean-Luc Godard - Divulgação
'A Chinesa' de Jean-Luc Godard - Divulgação

"Cinema dos mais perfeitos, porém sua causa é nos totalmente prejudicial". Foi essa uma das frases que a censora Jacira G. Figueiredo de Oliveira, chefe da Seção de Censura, usou para impedir a exibição do longa 'A Chinesa', de Jean-Luc Godard, no Brasil, em 1968. 

Depois de quatro anos do golpe de 1964, a ditadura militar brasileira não só impediu a população de ser livre, como também tornou a expressão artística um enorme desafio. A repressão militar perseguiu artistas, livros, canções e diversas outras obras que estariam na contramão do regime. 

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Grandes nomes da classe artística brasileira sofreram, mas produções internacionais também foram barradas no país. Foi o caso de 'A Chinesa'. Através de um documento repercutido em 2022 pelo cineasta Kleber Mendonça Filho, a censora Jacira Oliveira tece inúmeros elogios ao filme, no entanto, o considerou "uma verdadeira aula de comunismo".

Apesar de sua excelência, e de ter adorado a obra, ela decreta: "NÃO LIBERADO por contrariar as normas legais vigentes em nosso país, dentro do que dispõe o Decreto nº 20.493, art. 41 (D e G)". 

Arte censurada

Uma adaptação do romance 'Os Demônios', de Fiódor Dostoiévski, 'A Chinesa' narra a história de cinco estudantes franceses que, indignados, conspiram para derrubar o Império Russo por meio de uma campanha de violência revolucionária. 

As ações dos estudantes, que representam diferentes correntes ideológicas, são baseadas no 'Livro Vermelho', de Mao Tsé-Tung. Abordando o interesse político da Nova Esquerda dos anos 1960, o longa gira em torno de eventos históricos e contemporâneos como, além da Revolução Russa, a intervenção militar norte-americana no sudeste asiático (Guerra do Vietnã) e a Revolução Cultural Chinesa. 

Assim, como recorda o portal Tenho Mais Discos que Amigos, quando o filme chegou ao Brasil, ele passou pelo crivo dos militares através do Serviço de Censura de Diversões Públicas, ligado ao Ministério da Justiça. 

Filme liberado

Em artigo publicado na Revista Sures, Luiz Octavio Gracini Ancona, Mestre em História Social pela Universidade de São Paulo, conta que a censura do filme gerou enorme polêmica na época. 

Em 10 de fevereiro de 1968, o Jornal do Brasil publicou uma nota sobre a proibição de 'A Chinesa'; enquanto o diretor da Companhia Franco-Brasileira, três dias depois, declarou sua indignação pela forma "incorreta" e "absurda" que o filme foi impedido. 

A proibição causou um embate entre o ministro da Justiça Luís Antônio da Gama e Silva e o coronel Florimar Campello, então diretor do Departamento de Polícia Federal — que apontava que o filme retratava "atos visando à subversão da ordem, bem como debates no sentido de doutrinação política, o que a fez plausível de interpretações distorcidas, tornando-se contrária aos interesses nacionais". 

Assim, em 6 de março, a distribuidora do filme enviou uma carta à Gama e Silva junto de seis críticas publicadas sobre o filme, por veículos como o Le Monde (considerado de direita). Afirmando que, na França, o filme foi um "enorme sucesso" e exibido "sem quaisquer restrições de autoridades governamentais". 

A distribuidora ainda enfatizou o caráter satírico de 'A Chinesa', alegando que não o enquadrava como uma "propaganda comunista"; muito pelo contrário, o longa denunciava a "quebra de unidade" entre comunistas russos e chineses e, sendo assim, "desgostou os comunistas, do Brasil e do mundo". 

'A Chinesa' de Jean-Luc Godard - Divulgação

Dois dias depois, ao mesmo Jornal do Brasil, o ministro relatou que estava com uma cópia do filme e avaliaria sua censura — que só foi derrubada em 21 de março. Em seu texto, Luís Antônio concluiu que os apontamentos feitos por Campello eram inválidos. 

Em sua visão, 'A Chinesa' era uma "obra satírica e destituída de mensagem positiva a favor do marxismo-leninismo"; além de denunciar a "divergência irremediável" do mundo comunista, assim como a "inutilidade dos debates dos temas político-ideológicos por jovens utópicos". 

Por fim, o ministro concluiu que o filme de Jean-Luc Godard não representava "qualquer risco à Segurança Nacional e à formação política de nossa mocidade", liberando a obra em todo o Brasil com uma classificação etária máxima de 18 anos.

Uma Ficha de Censura de 1968 detalha os motivos da proibição do filme no Brasil. Leia na íntegra o documento assinado por Jacira G. Figueiredo de Oliveira!

"A vida de jovens estudantes universitários de Nanterre, integrantes de uma célula comunista, é retratada de forma crua. O relato de seu dia a dia, suas dúvidas entre a linha moscovita e a linha chinesa, são revelados ao espectador de modo a impressioná-lo. O problema do Vietnã, que parece obcecar Godard, novamente nos é apresentado. As divergências filosóficas e de ação torpedeiam o espectador menos avisado.

Uma verdadeira aula de comunismo nos dá Godard com esta obra. Cinema dos mais perfeitos, porém sua causa é nos totalmente prejudicial. Inconveniente sobre todos os aspectos a exibição deste filme em nosso país, pois, quando mais não seja, ficará na mente do público assistente as mensagens visuais, as frases lançadas a esmo, todas formas de propaganda do regime comunista, que conforme é sobejamente conhecido prega a IGUALDADE SOCIAL, mas em seus governos o que se vê é exatamente o contrário, típico: "FAZE O QUE DIGO, MAS NÃO FAZE O QUE FAÇO".

A montagem é de primeira, a técnica de Godard é indiscutivelmente das mais perfeitas. Mixagem e som dentro da classe do mestre do Cinema Novo francês.

NÃO LIBERADO por contrarias as normas legais vigentes em nosso país, dentro do que dispõe o Decreto nº 20.493, art. 41 (D e G).

Brasília, 24 de janeiro de 1968".

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