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O que é a Quaresma na Umbanda?

Embora sejam religiões cristãs, prática é genuinamente ligada ao catolicismo; mesmo assim, muitos umbandistas a seguem

Fabio Previdelli | @fabioprevidelli_ Publicado em 02/03/2022, às 00h00 - Atualizado às 13h46

Tânia Rêgo/Agência Brasil
Tânia Rêgo/Agência Brasil - Tenda Espírita Vovó Maria Conga de Aruanda, no Estácio

Prática genuinamente católica, a Quaresma inicia-se nesta quarta-feira, 2. Considerado um período de preparação para a Páscoa, onde os fiéis realizam o jejum e passam por abstinência, além de vivenciarem a oração e a penitência.

Nos últimos dias, os brasileiros tiveram dúvidas sobre o período religioso. O Google informou com exclusividade ao site Aventuras na História que 'o que é quaresma na umbanda', por exemplo, foi uma das dúvidas que mais cresceu sobre a quaresma nos últimos 7 dias no Brasil, com alta de +160% no período, enquanto “o que é quaresma para os evangélicos” subiu +140%.

Ainda pensando em Quaresma, as perguntas mais buscadas através do Google nos últimos 7 dias foram:

1. O que fazer na quaresma?

2. Pode batizar na quaresma?

3. O que acontece na quaresma?

4. Como se proteger na quaresma?

5. O que não pode fazer na quaresma?

6. O que não pode comer na quaresma?

7. Quais os dias que não pode comer carne na quaresma?

Pensando nisso, o site Aventuras na História conversou com pesquisadores para entender como ocorre a Quaresma em diferentes religiões. 

A Quaresma se consolidou no século 4 d.C., no ano de 325. Na ocasião aconteceu o Primeiro Concílio de Niceia, um encontro de bispos para debater questões ligadas à fé cristã, ainda no período inicial do catolicismo. 

Tradicionalmente, a Quaresma se estendia por 40 dias — daí o nome, que deriva do termo Quadragesima, que em latim significa “quarenta dias” —, começando na Quarta-Feira de Cinzas e terminando no Domingo de Ramos (uma semana antes do Domingo de Páscoa). 

Desde o século 20, porém, a Quaresma passou a ter 44 dias. Durante o papado de Paulo VI, o pontífice abriu um decreto, em 1969, estabelecendo que Quaresma deveria se estender até a Ceia do Senhor, o que representa a Quinta-Feira Santa. 

Papa Paulo VI/ Crédito: Domínio Público via Wikimedia Commons

Mas, peculiaridades à parte, como a Quaresma é vista e entendida por outras religiões? Dentro da Umbanda, por exemplo, uma religião brasileira com matriz africana e que sintetiza elementos do cristianismo, não existe um consenso em relação à prática, visto que a data está ligada ao catolicismo. 

Entretanto, conforme explica o Pai Rodrigo Queiroz, diretor da Umbanda EAD, alguns umbandistas, no que diz respeito à uma parte da Umbanda popular de forte influência do catolicismo, também adotam a observação da Quaresma. 

O significado é um pouco diferente. Acredita-se, para eles, que espíritos mal-intencionados estão livres, soltos, para poder perturbar e prejudicar as pessoas e que, talvez, esse recolhimento, a observância desse período em recolhimento das próprias atividades religiosas, seria uma maneira de se proteger”, diz. 

Para Caroline Arnold, médium umbandista há 7 anos (Umbanda Oriental e Nação Nagô) e sócia na Enxame de Comunicação, essa ‘mistura’ também tem um fator ligado ao preconceito que a religião sofre: “Alguns seguiram a questão de que era necessário acompanhar o calendário da Igreja Católica por conta dos tempos antigos, em que os umbandistas fingiam ser católicos para cultuar e precisavam cessar as atividades durante a Quaresma, prática embutida para enganar os católicos que faziam o recesso, sendo assim, não podiam cultuar nos dias e deveriam participar de todas as restrições”.

“Outros, já acreditam, de uma forma mais pragmática, que durante a festa pagã, da carne, as pessoas acabam se entregando aos excessos e atraem energias e espírito negativos, e um culto neste momento ou após a ele, pode gerar uma sessão de descarrego coletiva e pouco eficiente, ou mesmo os terreiros podem receber espíritos zombeteiros se passando por guias”, completa. 

Porém, tanto Caroline quanto Pai Rodrigo Queiroz ressaltam que a prática não é seguida por todos e que, mesmo dentro da Umbanda, os guias espirituais agem de acordo com a necessidade de cada casa e cada filho.

As diferentes Quaresmas

Dentro do catolicismo, a Quaresma é vista como um momento de extrema devoção, onde o fiel busca se conectar ainda mais com Deus, mudando sua vida através da Palavra, e também se arrependendo de seus pecados, durante um exercício de reflexão, oração e piedade. 

Pai Rodrigo Queiroz explica que os umbandistas que seguem a prática não realizam a mesma ritualística diária dos Católicos, embora o escopo seja o mesmo, de que “existe um momento de sofrimento, um momento de maldade espalhada pelo mundo espiritual, então a gente tem que se preservar, se recolher.”

“A umbanda é uma religião como se fosse uma colcha de retalhos”, diz Danilo Antoniolli, da Casa de Ogum Beira Mar. “Ela cruza com diversas outras religiões, religiões afro, ameríndias, e até mesmo religiões hinduístas, mas na casa que eu frequento a Quaresma é um período que nós evitamos entrar em contato com a energia do pós e pré-carnaval. Para nós, o momento do Carnaval, a festa da carne, é o momento em que o ser humano usa desculpa da festa para extravasar tudo aquilo que ele tem de pior; o mais profano, o mais devasso”. 

Antoniolli explica que isso acaba trazendo para o plano material uma energia muito densa, que vai desde o sexo sem proteção até o uso de drogas de forma descontrolada. “E isso acaba fazendo com que o plano físico fique com a energia mais pesada.” 

“Como nós somos seres encarnados, seres propícios a entrar em contato com a energia negativa, acabamos entrando em contato com essa atmosfera mais pesada. Mas, ao contrário do que alguns pensam, não é um período de caça às bruxas, pelo menos não na casa onde eu frequento. É um período que existe a libertinagem, existe o extravasamento dos seres humanos e isso faz com que a energia fique densa e nós temos que tomar cuidado com isso”, completa. 

É necessário um preparo de defesa bastante firme e a responsabilidade dos médiuns para que eles não se entreguem aos excessos durante a folia”, ressalta Caroline Arnold

A Quaresma, também, para os Católicos, é vista como um período de penitência, onde os fiéis costumam praticar jejuns e se abster do consumo de carne e de outros vícios, como o tabagismo. Os umbandistas, por sua vez, não se veem ‘obrigados’ a seguir com esses preceitos. “Na liturgia umbandista não há um decreto que peça essas práticas, apenas os de sempre, segundo nosso Mestre, é orar e vigiar sempre”, diz Caroline

“Isso é uma escolha bastante pessoal, trabalhando no terreiro ou não, há aqueles que se privam de bebidas alcoólicas, carne e fumo. Existem aqueles que seguem em oração e se entregam aos preceitos que são necessários antes de uma gira, como não beber, não praticar relações sexuais, não comer carne e tomar seus banhos de defesas. E também há aqueles que seguem seu calendário normal”, explica. 

“Então cada casa tem o seu modus operandi”, destaca Danilo Antoniolli. “Na casa a qual eu frequento, fazemos a utilização de banhos de erva, de materiais mágicos de proteção, materiais de afastamento e também nos vigiamos, porque não adianta sair de casa cheio de penduricalhos e ser uma péssima pessoa; ela vai entrar em contato com baixas energias da mesma forma.”

O representante da Casa de Ogum Beira Mar conta que os umbandistas atuam como vigilantes para não entrar em contato com espíritos negativos. “O umbandista, na sua curtição de Carnaval, tem que saber o seu limite, já que no carnaval as pessoas extravasam. O umbandista pode curtir e deve curtir sabendo o seu limite e o que ele pode e o que não pode fazer; essas são as principais proteções que nós temos.”  

Intolerância religiosa

Embora apenas uma parte dos umbandistas ainda sigam preceitos católicos, durante a Quaresma é recorrente que alguns terreiros interrompam suas atividades, como uma forma de resguardo espiritual ou até mesmo de ‘respeito’ ao catolicismo. 

O fato, de certa forma, representa um pouco de desinformação em relação à religião, explica Pai Rodrigo Queiroz. “Uma coisa é o ato de fé, e que deve ser respeitado, e outra coisa é o efeito manada, o movimento que se mantém porque um dia foi assim e viu que era assim, se reproduzindo sem ter muita consciência de como as coisas são.”

O religioso revela que em uma interação recente com seu público nas redes sociais da Umbanda EAD, chegou a questioná-los se sabiam o que realmente significava a Quaresma.  “Uma grande parte não faz ideia” revela, “afinal, por um outro lado, ela não significa nada, é só uma ideia de fé de uma outra religião.” 

“Deveria mesmo ser vista com estranhamento por um umbandista, porque são outros valores. Para a Umbanda, são outras coisas que a gente está preocupado, são outras crenças que nos cercam. Então, é confuso, de fato, isso mesmo”, reconhece.   

Caroline complementa e diz, que embora as duas religiões sejam Cristãs (que acreditam em Cristo, ou em Oxalá, no caso da Umbanda), a confusão se dá pelo fato de que os umbandistas escondiam as suas imagens por baixo de imagens católicas para poder cultuá-las em uma época que era a religião era proibida. “Isso deu origem ao que chamamos de sincretismo. No entanto, a Umbanda nunca foi proveniente da religião Católica, mas sim do Candomblé — uma matriz africana.”

Danilo Antoniolli explica que essas práticas serviam como “manobra” para uma aceitação da comunidade. “Se hoje já é difícil, se hoje ainda falamos sobre intolerância religiosa, se é difícil ter o nosso espaço, imagina nos anos 30, anos 40, anos 50? Então os terreiros se ‘fantasiavam’, vamos dizer assim, de Igreja Católica.” 

“Eram colocadas diversas imagens no seu Congá, que é o nosso altar, inseriam diversas imagens católicas, para que visualmente fosse aceito para aqueles que fossem ali. Quando algumas pessoas visitavam um terreiro, como o da nossa religião irmã, o Candomblé, por exemplo, e não enxergavam nenhuma representação da fé cristã, elas ficavam com medo. Quando eles se dirigiam até um terreiro de umbanda e encontravam diversas imagens católicas, pessoas cantando músicas católicas nas cantigas, por exemplo, também falava-se de Jesus, enfim, havia uma representação cristã”, completa. 

Antoniolli conta que isso fazia com que a sociedade, mesmo que fosse local, aceitasse — como houve uma aceitação muito maior e ainda há — a umbanda. “Tanto para o leigo, para aquele que não tem contato, a umbanda é do bem e o candomblé é do mal, e isso está totalmente errado; foi colocado em nossa cabeça que tudo aquilo que é do negro está relacionado ao negativo, está relacionado ao que é ruim e isso não tem nada a ver.”

O que exemplifica isso, em sua visão, é que a “magia negra” é relacionada a algo negativo, e a “magia branca” relacionada a coisa boa; ou então a galinha preta é coisa de macumba e o pombo branco é da paz. “São exemplos de coisas que são socialmente colocadas e acabam tendo comparação daquilo que é bom e daquilo que é ruim. Na nossa visão o Candomblé é de extrema importância para nós umbandistas; e tem muito mais força dentro do nosso culto do que a Igreja Católica em si, que serviu apenas de fachada.”  

Umbanda em tempos de quaresma

Com o período pós-Carnaval, onde entende-se a Quaresma, muitos umbandistas acreditam que espíritos Zombeteiros e Kiumbas aproveitam da fragilidade das pessoas para atormentá-las e prejudicá-las.

Caroline Arnold entende que, assim como no ano inteiro, um templo de caridade umbandista deve estar aberto para instruir e curar as mazelas de seus filhos e visitantes. “Esses espíritos que chamamos de zombeteiros e kiumbas são mal encaminhados, precisam encontrar a luz para a evolução, portanto, em sua dor, se apoiam nas pessoas fragilizadas por bebidas e outros vícios para alimentar-se e encontrar um pouco de alívio, ou seja, prato cheio na festa pagã.” 

“Portanto, de um ponto de vista bastante prático, é estritamente necessário que na Quaresma, os templos estejam prontos para receber as pessoas que necessitam de ajuda. Afinal, sempre haverá alguém necessitando de apoio espiritual e, dentro da caridade, ele deve encontrar”, continua. 

Já o Pai Rodrigo Queiroz, por sua vez, entende a questão de uma maneira mais ampla: que os espíritos mal-intencionados estão entre nós o tempo todo. “Isso não muda porque é Carnaval e não aumenta na Quaresma, já que isso é só uma particularidade de crença de uma religião. Se você pôr na cabeça que você está mais vulnerável por causa desse período, de certa forma você fica, porque você abre uma neurose.”

“O que eu entendo, na minha posição sacerdotal, é que o terreiro funciona normalmente, sem observar essa particularidade de outra religião. É só uma característica de outra religião que está entre nós por um efeito cultural, todos os anos eu tenho que voltar a falar disso, mas o terreiro que eu dirijo funciona normalmente. Nada muda, não aumenta nada. O único tipo de preocupação é que você deve continuar sendo seu melhor a todo instante, porque é isso que vai te colocar num lugar cada vez melhor em sentido da sua própria espiritualidade”, conclui.


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