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Debate que atravessa os séculos: Qual era a verdadeira cor de Jesus?

Com exclusividade ao site da AH, o historiador e escritor Alex Fernandes Bohrer respondeu a misteriosa questão

Alana Sousa Publicado em 14/03/2021, às 08h00 - Atualizado em 20/08/2021, às 09h00

Imagem meramente ilustrativa de mosaico de Jesus Cristo
Imagem meramente ilustrativa de mosaico de Jesus Cristo - Divulgação/ Pixabay/ Didgeman

Tudo começa com uma face serena, cercada por cabelos loiros. Olhos azuis contrastam com uma pele branca, formando a suposta imagem de Jesus Cristo. Tendo vivido na Palestina há mais de dois séculos, o camponês foi recriado diversas vezes na história.

Considerado como um dos personagens mais importantes do mundo, além da figura principal do cristianismo, Jesus foi representado em filmes, séries e, por diversas vezes, na arte. Não há quem não tenha visto uma pintura ou ilustração do filho de Deus que, ao morrer, se tornou o próprio Deus. Enviesado em nossas mentes, é difícil imaginar um outro Cristo senão aquele das produções hollywoodianas e das telas renascentistas.

No entanto, cada vez mais é preciso entender o Jesushistórico e separá-lo do Messias, do Jesus escolhido. Para responder este debate antigo sobre a verdadeira cor de Cristo, a Aventuras na História conversou com Alex Fernandes Bohrer, professor de História, História da Arte e Iconografia do Instituto Federal de Minas Gerais, o estudioso também é autor do livro recém lançado ‘Jesus — um breve roteiro histórico para curiosos’, de 2021.

Reprodução de Jesus falando na sinagoga (Lucas 4; 14-30) / Crédito: Divulgação/Youtube

 

A verdadeira cor de Jesus

Como explica o escritor, o Jesus histórico, diferente do religioso, é um personagem “datável e localizável”, logo, compreender suas características físicas se tornam mais fáceis a partir do estudo do povo de sua região e o contexto cultural de sua jornada.

“Assim, podemos intuir sua aparência: um semita típico do Oriente Médio, com pele morena, cabelos crespos, olhos negros, barba espessa, fisicamente devia ser forte (acostumado a trabalhos duros e longas caminhadas)”, afirma Bohrer.

Ainda que o entendimento sobre a aparência dos semitas seja bem claro, quando se trata de Jesus, outros fatores foram importantes para realizar essa separação da herança original de Cristo. Entre eles está a arte e a nossa colonização europeia, assim como acontece em outras partes do mundo.

“Na Igreja Etíope se tornou um Cristo negro, no leste, um Cristo oriental, e, na Europa, o Cristo branco que estamos acostumados. Cada comunidade viu em Jesus uma imagem de si mesma. Como fomos colonizados por Portugal, esse Cristo europeu dos altares aportou aqui e assim se cristalizou no nosso imaginário: branco, muitas vezes loiro e de olhos claros. Mas isso é um erro histórico”, conta Alex.

A arte foi crucial para a disseminação da imagem errônea de Jesus. Um documento tardio mostrava, supostamente, a aparência do Messias. Ainda que fosse falso, ganhou bastante destaque entre as pessoas. “Tem os cabelos da cor da amêndoa bem madura, são distendidos até as orelhas, e das orelhas até as espáduas são da cor da terra, porém, mais reluzentes (...) seu olhar é muito especioso e grave; tem os olhos grandiosos e claros”, conforme citou o professor Bohrer.

Reconstituição facial forense de Jesus de Cícero Moraes / Crédito: Wikimedia Commons

 

Além das artes plásticas, os filmes influenciaram para perpetuar o rosto europeu de Jesus. “Quem nunca viu o Cristo “hollywoodiano” do filme Rei dos Reis, representado em 1961 pelo galã americano Jeffrey Hunter? Você pode não se lembrar, mas em algum lugar durante sua vida você viu ao menos um trecho desse filme. Ou seja, esse Cristo está em nosso imaginário”, indaga o historiador.

Uma desconstrução necessária

Apenas processos lentos podem romper a face de Cristo que já temos instaurada em nossas mentes. O debate em torno do tema é cada vez mais necessário, principalmente em um tempo em que o "embranquecimento” de nomes históricos se torna cada vez mais inaceitável.

Sobre a dificuldade de mudarmos como enxergamos o homem que se tornou um mito perante a religião, Alex Bohrer conta que “muitos têm dificuldade de aceitar a realidade histórica por trás da realidade religiosa e tradicional”.

Se o Cristo europeu da igreja de sua cidade é o Cristo que você tem na cabeça desde criança, torna-se difícil mudar essa concepção", narrou Alex. "Mas, mesmo tradições fortes precisam ceder ao escrutínio científico."

Embora muitos cristãos tenham certo receio se aceitar o Jesus palestino por conta de preconceitos profundamente arraigados, é preciso entender que o personagem foi homem, além de seus milagres e feitos que cabe apenas à fé explicar.

Mosaico de Jesus Cristo / Crédito: Getty Images

 

Utilizando uma teoria inusitada, o historiador busca separar duas realidades distintas: “Como uma cebola, Jesus tem muitas camadas de realidades que se sobrepõem. A cada camada que retiramos, nos aproximamos do personagem real que viveu na Palestina do primeiro século: um camponês pobre, um andarilho pregador. Quanto mais camadas deixamos, mais nos aproximamos do Jesus religioso: o Messias, o Filho de Deus ou o próprio Deus”. 

Tais camadas demonstram o erro comum, a cor. Questionando a imagem que nasceu há milhares de anos, a ciência é implacável e os documentos históricos apontam para um só fato: Jesus não era branco.


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