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Quando o fantasma de Maria Antonieta atormentou duas acadêmicas inglesas

Em livro de 1911, Charlotte Anne Moberly e Eleanor Jourdain alegaram terem sido teletransportadas de volta ao século 18

Fabio Previdelli Publicado em 08/06/2020, às 15h09

Retrato de Maria Antonieta
Retrato de Maria Antonieta - Wikimedia Commons

Em outubro de 1789, Maria Antonieta usava um vestido casual decotado e um chapéu de abas largas enquanto passeava pelo gramado de seu palácio: o Petit Trianon, em Versalhes. Lá, ela armou um pequeno banquinho e se sentou para desenhar algumas árvores. Seu silencioso repouso foi interrompido quando ela foi atingida por uma página de jornal que trazia a notícia de que uma multidão enfurecida estava a caminho de Paris.

Assim seria o último dia da rainha francesa em seu amado Trianon e o começo do fim da monarquia francesa. Pelo menos esses detalhes foram descritos assim por Charlotte Anne Moberly e Eleanor Jourdain no livro An Adventure, publicado em 1911.

Mas como mulheres que visitaram o local mais de um século depois desse evento podem ter tantos detalhes assim do que realmente aconteceu? Elas alegaram que durante o passeio no local, em 1901, algo extraordinário ocorreu: foram teletransportadas ao século 18.

Capa do livro An Adventure / Crédito: Reprodução


A ideia pode até parecer maluca e irracional, mas veio de duas mulheres que tinham uma excelente reputação acadêmica. Charlotte e Eleanor eram, respectivamente, diretora e vice-diretora do colégio St. Hugh, em Oxford, na Inglaterra. Além do mais, Moberly era filha do Bispo de Salisbury — um homem muito respeitado dentro da Igreja anglicana.

Mas como começou essa toda essa história?

Antes de Eleanor ser nomeada como vice-diretora, ficou estabelecido que ela e Charlotte deveriam se conhecer melhor. Como Jourdain possuía um apartamento em Paris, Moberly viajaria para a França e se hospedaria lá por alguns dias. Além do mais, elas fariam uma série de passeios, o que ajudaria nesse processo.

Em uma dessas viagens, elas decidiram conhecer o Palácio de Versalhes. Depois da visitação guiada, as duas se encontravam sentadas na Galeria de Espelhos quando decidiram caminhar no Petit Trianon.

Durante o passeio, elas acabaram se perdendo do curso para a avenida principal. Ao pedirem informações, se depararam com dois homens que usavam uma jaqueta esverdeada e um chapéu de três pontas. A dupla seguiu as instruções em direção ao Grand Trianon, mas a coisas estavam prestes a mudar, conforme Eleanor descreveu anos depois no livro.

Fotos de Charlotte Anne Moberly e Eleanor Jourdain / Crédito: Reprodução


"Comecei a sentir como se estivesse caminhando durante o sono; o pesaroso sonho era opressivo. Finalmente, chegamos a um caminho que cruzava o nosso e vimos diante de nós um edifício composto por algumas colunas cobertas e recuadas. Sentado nos degraus estava um homem com uma capa preta pesada em volta dos ombros e usando um chapéu desleixado. Naquele momento, a sensação estranha que começara no jardim culminou em uma impressão definitiva de algo estranho e inspirador de medo. O homem lentamente virou o rosto, marcado por varíola: sua pele era muito escura. A expressão era muito má e, no entanto, invisível... senti uma repugnância ao ver ele”.

A dupla também alegou que algumas dessas pessoas também interagiram com elas, como um homem de sotaque estranho que surgiu detrás delas e informou um caminho alternativo até o Grand Trianon que evitaria passar pelo homem de capa preta.

O trajeto realmente as levaria ao castelo. De longe, Moberly observou uma mulher bonita com cabelos loiros e macios que eram parcialmente cobertos com um chapéu sombrio. Ela aparentava estar muito calma e desenhava alguma coisa em um caderno.

"Eu pensei que ela era uma turista", escreveu Eleanor, "mas o vestido dela era antiquado e bastante incomum... então, eu olhei diretamente para ela; mas um sentimento indescritível me fez virar as costas, irritada por ela estar lá". Moberly e Jourdain chegaram até o terraço com a ajuda de um garoto. Foi nesse momento que a incursão no passado terminou.

Semanas se passaram até que elas finalmente decidiram conversar sobre os eventos incomuns que vivenciaram naquele dia. A princípio, elas concordaram que o Petit Trianon deveria ser assombrado. Mas por fim, acabaram entrando em consenso de aquilo que aquele episódio não se tratava de aparições comuns.

Imagem aérea do Petit Trianon / Crédito: Wikimedia Commons


Entretanto, uma década depois elas publicaram o Na Adventure. Devido a imensa reputação que tinham à época, Charlotte Anne Moberly e Eleanor Jourdain deram espaço aos pseudônimos de Elizabeth Morison e Frances Lamont. O anonimato se deu pelo medo de sofrerem retaliações no trabalho e se tornarem alvo de pessoas mal intencionadas.

Além dos relatos vividos naquele dia, elas reforçaram suas experiências sobrenaturais com pesquisas acadêmicas. Vasculhando os Arquivos Nacionais Frances e pesquisando extensivamente a história da França, elas acabaram comparando mapas dos terrenos de Versalhes — de 1789 e 1901 — e analisaram as roupas que as pessoas da visão usavam. Além disso, elas também revisitaram o lugar inúmeras vezes na tentativa de provar que elas vivenciaram uma Versalhes do século 18, e não do século 20.

Com base nos anos de pesquisa, elas concluíram que os dois senhores de jaqueta verde seriam membros da Guarda Suíça; o homem assustador seria o conde de Vaudreuil (que desempenhou um papel na traição da rainha); a mulher bonita de chapéu sombrio seria a própria Maria Antonieta e o homem correndo seria a representação da página que a informou da multidão enfurecida.

O livro foi um sucesso imediato. Dois anos depois ele já havia vendido mais de 11 mil cópias e, ao todo, a obra passou por cinco edições. Mas, junto com sua popularidade, vieram muitas críticas. Alguns alegaram que o relato de Elizabeth e Francis era excessivamente embelezado e não representava uma verdadeira experiência paranormal.

A figura que Moberly viu perto do Petit Trianon tinha uma semelhança com a rainha, conforme retratado nesta pintura / Crédito: Wikimedia Commons


Somente após a morte de Charlotte e Eleanor, é que as duas foram creditadas oficialmente como as verdadeiras escritoras do livro. Embora, todos os que as conheceram afirmarem de que elas passariam o resto de suas vidas confirmando a veracidade dos acontecimentos.