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Quando a União Soviética presentou os EUA com um Cavalo de Troia

Os Estados Unidos não imaginavam que uma amigável visita de escoteiros soviéticos poderia resultar em uma espionagem de anos

Isabela Barreiros Publicado em 13/10/2019, às 09h00

Uma réplica do Grande Selo
Uma réplica do Grande Selo - Wikimedia Commons

Ao final da Segunda Guerra Mundial, um grupo formado por crianças russas visitou o embaixador dos EUA em sua residência em Moscou. Funcionando como uma espécie de grupo de escoteiros, a Organização Pioneira Lênin de Toda a União levava um peculiar presente: uma grande réplica de madeira do Grande Selo dos Estados Unidos.

A homenagem foi prestada com o objetivo de constituir um gesto de amizade entre os dois países que nunca tiveram tanta afinidade. 

O embaixador Averell Harriman aceitou o presente e pendurou a placa em seu escritório na Spaso House. No entanto, ele não imaginaria que o presente estava mais para um cavalo de Tróia do que um gesto de amizade.

O dispositivo de escuta de alta tecnologia ficou invisível para os Estados Unidos por muito tempo — durante sete anos, até 1952, os russos conseguiram escutar informações importantes do que estava acontecendo na residência do embaixador sem que o país em questão soubesse do que estava sendo armado.

Conhecido como “a Coisa”, o equipamento foi desenvolvido pelo russo Léon Theremin durante seus anos de prisão num gulag siberiano. Em um laboratório secreto, o cientista pôde desenvolver um sistema de alta tecnologia para espionar os Estados Unidos.

O Grande Selo dos Estados Unidos / Crédito: Wikimedia Commons

 

A escuta secreta não precisava de nenhum tipo de fonte de alimentação, funcionando a partir de uma frequência específica transmitida por um transmissor externo. Para isso, os russos deixavam uma van estacionada nas proximidades da casa. 

Foi apenas em 1952 que eles descobriram o inteligente plano. Não se sabe exatamente como isso aconteceu, mas um norte-americano, ao ouvir o tráfego de rádio militar, conseguiu identificar conversas com o sotaque estadunidense de dentro da Spaso House. A partir disso, os cientistas passaram a investigar o que poderia ter acontecido.

Joseph Bezjian e John Ford, técnicos de segurança do Departamento de Estado dos Estados Unidos, pediram para que o embaixador George F. Kennan, que atualmente morava na residência, se sentasse à mesa e falasse, enquanto os dois especialistas rastreavam a sala com instrumentos de rádio. Eles perceberam que algo na parede estava transmitindo a voz: era o mimo dado pelos escoteiros russos.

"É difícil tornar plausível a estranheza da atmosfera naquela sala, enquanto essa cena estranha estava em andamento. Nesse momento em particular, estávamos profundamente conscientes da presença invisível no quarto de uma terceira pessoa. Todos estavam cientes de que drama sinistro estava em andamento”, escreveu Kennan em um livro que conta suas memórias, publicado em 1967.

Mesmo que tivessem descoberto o truque russo, os Estados Unidos não confrontaram o país imediatamente. Isso aconteceu apenas em 1960, quando os soviéticos derrubaram um avião americano e alegaram espionagem. Com o objetivo de se defender, os americanos trouxeram “a coisa” para afirmar que o ato acontecia por ambos os lados — e por muito tempo.