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Racismo ou legítima defesa? O polêmico caso Bernhard Goetz

Em 1984, um civil disparou contra quatro homens negros que teriam tentado assaltá-lo, mas apesar de fugir do local, ele pegou uma pena branda e foi tratado como herói

Fabio Previdelli Publicado em 07/06/2020, às 11h00

Foto de Bernhard Goetz (centro)
Foto de Bernhard Goetz (centro) - Divulgação

O nome de Bernhard Goetz ficou marcado depois que ele atirou em quatro homens negros que o cercaram em uma estação de metrô, em Nova York. Segundo seus relatos, o grupo tentou roubá-lo e ele somente se protegeu.

Após o episódio, vários grupos sociais iniciaram um debate nacional sobre racismo, violência, os limites legais de autodefesa e até que ponto os cidadãos poderiam contar com a polícia para garantir sua segurança. Apesar de tudo isso, Goetz cumpriu uma pena branda e foi tratado por muitos como herói.

O caso Bernhard Goetz

No início da tarde de sábado, 22 de dezembro de 1984, quatro homens negros do Bronx — Barry Allen, Troy Canty e Darrell Cabey, todos com 19 anos; e James Ramseur, de 18 — embarcaram em um trem no centro da cidade. Tratava-se de um expresso da Broadway com a Seventh Avenue.

Barry Allen, Darrell Cabey, Troy Canty e James Ramseur / Crédito: Divulgação

 

Os adolescentes, cada um dos quais já haviam sido presos e condenados pelo menos uma vez, declararam que estavam a caminho de roubar uma galeria de vídeo em Manhattan. Porém, quando o trem chegou à estação da 14th Street, em Manhattan, entre 15 e 20 outros passageiros permaneceram com eles no sétimo entre os dez vagões daquele trem.

Naquela estação, Goetz entrou no carro pela porta traseira, atravessou o corredor e sentou-se no banco comprido em frente à saída. De acordo com sua declaração à polícia, Aproximadamente dez segundos depois, Canty perguntou: "Como você está?". Ele respondeu: “Estou bem”.

Depois, seguindo seu relato, os quatro jovens supostamente deram sinais uns aos outros, e, logo depois, Canty e Allen se levantaram de seus assentos e foram para a sua esquerda, impedindo-o de sair. Canty então disse: "Me dê cinco dólares".

Depois de atirar contra três homens desarmados, Goetz apontou a arma para Darrel, que não estava ferido, mas estava completamente aterrorizado no vagão. “Você mão me parece tão ruim”, disse antes de atirar no jovem pelas costas, o que atingiu sua medula espinha e o deixou paraplégico.

Capa do Daily News com declaração de Goetz: "Me desculpe, mas tinha que ser feito". / Crédito: Divulgação

 

Após o tiroteio, Bernhard Goetz fugiu após ser questionado se ele era um policial e se tinha ou não permissão para portar uma arma. Quando um condutor pediu para apresentar seus documentos, Goetz pulou nos trilhos e correu pelos túneis do metrô até a estação de Chambers Street.

De lá, foi momentaneamente para sua casa, alugou um carro e fugiu para Vermont. Por vários dias, ele viajou pela Nova Inglaterra, se hospedando em motéis e pagando suas despesas com dinheiro, para evitar ser rastreado.

Em uma dessas paradas, ele foi identificado e uma caçada humana se iniciou. No nono dia de fuga, Bernhard se entregou em uma delegacia em Concord, New Hampshire, afirmando simplesmente: "Eu sou a pessoa que eles estão procurando em Nova York".

O julgamento

Após sua prisão, Bernhard Goetz deu depoimento em vídeo de duas horas para a polícia, onde descreveu que o ato aconteceu devido a um assalto que sofrera no passado —o que lhe teria causado um certo trauma, pois não foi ajudado por policiais. Também descreveu com detalhes os eventos que o levaram à sua rendição.

A parte mais impressionante de seu depoimento foi sua demonstração insaciável de vingança contra aqueles que o haviam “prejudicado”. Na gravação, que foi mostrada no julgamento, ainda há uma parte em que ele diz querer arrancar os olhos de Canty com um jogo de chaves.

Bernhard Goetz durante entrevista / Crédito: Divulgação

 

Além do mais, Canty e Ramseur testemunharam no julgamento que só pediram dinheiro a Goetz, afirmando que não o assaltaram — Cabey decidiu não testemunhar e Allen aceitou a Quinta Emenda. Mesmo assim, Bernhard Goetz acabou inocentado das acusações de assassinato e agressão, mas foi condenado por porte ilegal de armas — cumprindo apenas 250 dias de prisão.

Polêmicas posteriores

O julgamento trouxe a Goetz o status de celebridade, quando começou a ser visto como um herói por enfrentar seus agressores e se defender em um ambiente em que a polícia era cada vez mais vista como ineficaz no combate ao crime.

O rosto do “Vigilante do Metrô”, como foi rotulado pela mídia americana, estava em todas as partes e as pessoas o elogiavam por se posicionar contra a cidade cheia de crimes. Ainda mais chocante do que o apoio, foi o fato de que, a partir de 1990, a taxa de criminalidade em Nova York diminuiu rapidamente. Logo, uma das cidades mais perigosas do país se tornou uma das mais seguras, e os apoiadores de Goetz não puderam deixar de atribuir isso ao “vingador de todos nós".

Darrell Cabey / Crédito: Divulgação

 

Em 1996, Cabey, que havia sido deixado paraplégico e com lesão cerebral como resultado de seus ferimentos, obteve uma vitória na justiça para ser indenizado por Goetz em uma quantia de 43 milhões de dólares, entretanto, não está claro quanto dessa parcela ele recebeu.


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