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Renegada pelos pais, adotada pelos cães: a triste saga de Oxana Malaya, a menina "selvagem"

Vivendo durante três anos em negligência, foi com os cachorros de sua vila que a ucraniana encontrou um pouco de paz

Caio Tortamano Publicado em 16/06/2020, às 09h42

Oxana Malaya foi criada por cães até seus cinco anos
Oxana Malaya foi criada por cães até seus cinco anos - Divulgação

Nascida em 1983, na Ucrânia ainda sob controle da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a garota Oxana Malaya teve o azar de ser fruto de dois pais alcóolatras e negligentes. Aos três anos, a menina foi deixada para fora de casa, e se abrigou sozinha numa pequena casa onde ficavam alguns cachorros.

Ao lado de seus pais, ela se sentia esquecida e renegada. Vítima de constantes agressões acabava urinando de tanto medo. Ela não estava, em termos de distância, longe da família, mas socialmente era completamente renegada por aqueles que a tinham concebido.

Logo, restou a família que nunca negou criá-la: os cachorros. Como não tinha interações com humanos, a falta de contato fez com que esquecesse que era humana; todos os seus gestos eram copiados dos animais.

Hábitos

Uma vez que os cachorros não respondiam com palavras, ela foi deixando de lado a sintaxe humana, e a substituiu por latidos. Malaya andava de quatro na grama da fazenda onde morava, arqueada, correndo desse jeito e com a língua de fora. Quando sentia algo pinicando sua orelha, fazia como todos os outros membros de sua família canina, e usava o pé para aliviar o coçar.

A alimentação da pequena vila onde morava já não era aquelas coisas; com poucos recursos, os cachorros que por lá viviam (maioria de natureza selvagem) comiam carne crua e tomavam água que ficava ao redor de torneiras, esses eram os banquetes da menina.

Denúncia

Essa foi sua vida até os seus oito anos de idade, quando, depois da denúncia de um vizinho, que a flagrou vivendo com cães selvagens. A sua realidade mudaria novamente. 

Existem poucos documentos que descrevessem os estados físicos e psicológicos exatos  de Oxana, dando a entender que as autoridades tinham receio em reconhecer o caso, ou medo em documentar, uma vez que uma denúncia sobre negligência no ponto que a menina tinha sido deixada seria extremamente vergonhoso.

A história rapidamente ganhou notoriedade, e pouco tempo depois da denúncia a criança selvagem passou a ser estudada e viver sob cuidados de pessoas especializadas em portadores de deficiências mentais. 

Vida em sociedade

A atenção da mídia foi resgatada em 2006. Uma equipe britânica de documentários, liderada pela especialista em crianças selvagens Lyn Fry, foi até a Ucrânia para ver como era a vida de Oxana, que passou a viver numa clínica para cuidados mentais. O que teria ocorrido cinco anos depois que um grupo do Discovery Channel gravou a entrada dela em uma dessas clínicas.

Malaya já em sociedade durante documentário / Crédito: Divulgação

 

O objetivo de Fry era verificar se a moça teria se adaptado a vida em sociedade com humanos, e como esse tempo selvagem teria danificado sua cabeça. Para surpresa dela e da equipe, encontraram uma pessoa diferente do que era imaginado.

A impressão da britânica foi a de que: "a linguagem dela é estranha. Ela fala de maneira direta como se fosse uma ordem. Não há cadência, ritmo ou música na fala dela, nenhuma inflexão ou tom. Mas ela tem senso de humor. Ela gosta de ser o centro das atenções, de fazer as pessoas rirem. Se mostrar é uma habilidade surpreendente quando você considera as origens dela".

Toda vez que era presenteada com algo, o primeiro instinto de Malaya era esconder, assim como um cachorro que ganha uma recompensa. Seus dentes eram um tanto deformados, — muito por conta do uso excessivo deles para atividades não naturais dos seres humanos —, andava de maneira não tão natural, com os ombros oscilando: ela não estava acostumada com o balanço necessário para andar como gente.

Cognição

A sua idade mental era a de uma criança de seis anos, que se entediava facilmente com atividades mundanas. Isso é uma informação curiosa, uma vez que a jovem trabalhou em uma fazenda depois de resgatada para retomar o convívio com pessoas. Suas capacidades matemáticas se limitavam a somente contar, sem também saber soletrar o próprio nome e muito menos ler.

Diferente do que era especulado para muitas crianças criadas fora da sociedade, ela não apresentava um espectro autista. As experiências realizadas com a garota comprovam uma tese de especialistas, que dizem ser impossível para uma criança aprender uma língua se nada for ensinado a ela até seus cinco anos de idade — Mayala só conseguiria aprender graças a pequena bagagem que acumulou em seus primeiros três anos de vida.

Reencontro com o pai

Em 2006, o pai da garota decidiu reencontrar a filha que havia renegado. Enquanto isso, Oxana trabalhava em uma fazenda, cercada de pessoas pacientes que a respeitavam, embora faltasse um profissional terapêutico.

O pai estava acompanhado da meia-irmã mais nova da garota, Nina, a quem nunca tinha conhecido. O primeiro contato entre eles foi desajeitado, um pouco tímido. Ela quase não se lembrava do homem.

A conversa acabou desenrolando, muito formalmente, com Oxana contando de sua rotina na fazenda, e convidando o pai e irmã conhecerem um pouco mais do seu dia a dia. Em dado momento, Nina começa a chorar, e é a própria garota renegada que a consola.

Especialistas acreditam que ela não irá se desenvolver intelectualmente diante dos anos perdidos enquanto vivia com os cachorros. Porém, tendo em mente outros casos de crianças selvagens, o saldo da vida da ucraniana pode ser considerado positivo. Aos 36 anos de idade, ela ainda cuida de vacas e da fazenda que a acolheu de verdade.


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