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Tim Maia: A seita Racional sem álcool e sexo do ícone da MPB

Morto há 22 anos, relembre a fase mística do cantor. Na qual ele passou a seguir os ensinamentos de um guru para alcançar a “imunização racional”

Isabela Barreiros Publicado em 15/05/2020, às 10h00

Tim Maia vestido de branco durante sua fase racional
Tim Maia vestido de branco durante sua fase racional - Divulgação

Em 1974, a vida de Tim Maia estava prestes a mudar — mesmo que não por muito tempo. O cantor já havia lançado três grandes álbuns, que fizeram com que seu sucesso aumentasse drasticamente nas paradas brasileiras e alcançasse uma certa relevância internacional. Depois de todo esse êxito, Tim foi visitar Tibério Gaspar, violonista, compositor, e seu amigo.

Durante esse encontro, utilizou o alucinógeno mescalina e folheou o livro Universo em Desencanto. Caso esteja familiarizado com o disco Tim Maia Racional, esse nome não vai parecer estranho. O artista estava rapidamente sendo convertido à Cultura Racional, uma estranha seita de conceitos ainda mais confusos.

Tudo aquilo havia maravilhado o carioca, que começou a tomar as palavras do autor da obra, o guru Manoel Jacintho Coelho, como verdades absolutas. É aí que as mudanças começaram na vida do cantor.

Naquela época, ele já estava com seu novo disco quase pronto. Ao converter-se à seita, no entanto, mudou as letras, acrescentou palavras e frases dos livros racionais e ainda rompeu com a gravadora que esteve com ele ao longo de todo o seu sucesso, pois eles não estavam comprando a ideia de um álbum quase inteiramente místico.

Crédito: Divulgação

 

As ideias do culto foram passadas a ele tanto por meio dos livros quanto pelas palavras do próprio líder da doutrina, que na época vivia em Belford Roxo, no Rio de Janeiro. No livro, Vale Tudo - O Som e a Fúria de Tim Maia, o produtor cultural e jornalista Nelson Motta narrou a experiência do artista em sua nova ideologia.

Motta explica a principal tese do Universo Racional da seguinte maneira: “nós somos originários de um planeta distante e perfeito e estamos na Terra exilados. Aqui, nós vivemos na animalidade, sujos e magnetizados, sofrendo nesse vale de lágrimas. A única salvação é a imunização racional, que se conquista lendo o livro e seguindo seus ensinamentos. Só assim podemos nos purificar e ser resgatados pelos discos voadores de volta ao nosso planeta de origem: o Racional Superior”.

Depois disso, parou de usar as drogas que frequentemente consumia, deixou de beber, passou a usar somente branco e a não comer carne vermelha, livrou-se de seus bens materiais e considerou que faria sexo apenas com o intuito da reprodução. Isso tudo acompanhado com a leitura de todos os livros escritos pelo guru Coelho — eram mais de mil.

A lei da racionalização foi aplicada a todos os membros da banda do cantor: a Seroma. Os artistas teriam que aderir a todas as regras impostas pelo movimento racional, ou seriam expulsos e demitidos. Deveriam ler o livro, — coisa que provavelmente apenas alguns fizeram —, vestir branco e pintar todos os seus instrumentos de amarelo.

Crédito: Divulgação

 

Tudo isso no intuito de não contrariar o cantor, que estava cada vez mais embriagado no novo mundo de ideias que o culto lhe proporcionava. Serginho Trombone, um dos músicos que fazia parte da banda na época, disse ao Estadão: “Eu não sei se acreditávamos ou não, mas fazíamos o que ele queria. A gente estava tocando com o cara”.

“Os músicos bem que tentaram ler o livro, mas era uma doutrina muito louca até para o padrão Maia, um bestialógico absolutamente ininteligível, que de racional não tinha nada, muito pelo contrário”, escreve Motta na biografia sobre o cantor.

A vida de Tim Maia havia se tornado uma ferramenta para divulgar a Cultura Racional ao mundo, na tentativa de converter mais pessoas ao movimento peculiar do Rio de Janeiro. É aí que ele lança a trilogia “Tim Maia Racional”, divido em três volumes.

Nesse período, ao abandonar as drogas e começar a se alimentar bem, o artista emagreceu e “os reflexos em sua voz foram imediatos”, segundo Motta. “Um fôlego e uma potência, uma clareza e uma riqueza de timbres que saltavam aos ouvidos. Estava cantando como nunca”.

Um episódio bizarro narrado pelo jornalista em seu livro foi quando Maia ficou “horas olhando fixamente para uma folha de papel em branco, conforme instruções do mestre, para ver a Luz Racional”. Depois de muito tempo, ele gritava “estou vendo um pinguinho! Estou vendo a Luz Racional!”, totalmente extasiado com a ideologia mística.

Mas isso não iria durar muito. “No dia 25 de setembro de 1975, Tim acordou com uma vontade louca de comer uma carne sangrenta, tomar um goró e fumar um baseado. Teve uma desiluminação e abandonou a seita no seu velho estilo, quebrando tudo. Voltou para o apartamento da Figueiredo Magalhães, tirou e queimou a roupa branca e, nu e furioso, foi para a janela e começou a gritar para a rua, em volume máximo, que seu Manoel Jacintho era um pilantra, um ladrão e um tarado que comia todo mundo. E convocou a imprensa para dizer que tinha sido enganado e roubado pelo ex-guru”, escreve Motta.

Capa do disco Tim Maia Racional / Crédito: WIkimedia Commons

 

Quebrou quase todos os discos de sua fase racional, o que fez com que os lp’s se tornassem relíquias aos fãs do cantor, e voltou ao normal, “à devassidão, e não queria nem ouvir falar em nada que lembrasse o Racional Superior. Estava imunizado”.


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Tim Maia's Tim Maia Racional Vols. 1 & 2 (33 1/3 Brazil) (English Edition), Allen Thayer (2018) - https://amzn.to/38oyR1h

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