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De funcionário a paciente: a saga de Walter Farias dentro do manicômio Juquery

Em entrevista exclusiva ao site Aventuras na História, o jornalista Daniel Navarro Sonim, revelou os horrores vividos por Farias dentro da instituição

Victória Gearini | @victoriagearini Publicado em 03/07/2021, às 09h00 - Atualizado em 10/10/2021, às 09h30

Complexo Hospitalar Juquery (à esq.) e ficha técnica de Walter Farias (à dir.)
Complexo Hospitalar Juquery (à esq.) e ficha técnica de Walter Farias (à dir.) - RonanW Humberto do Lago Müller, via Wikimedia Commons / Arquivo Pessoal, via Daniel Navarro

A história do Complexo Hospitalar do Juquery é regada de episódios tétricos. Localizado em Franco da Rocha, na região metropolitana de São Paulo, o local foi fundado em 18 de maio de 1898 e abrigou milhares de pessoas, desde indivíduos com transtornos mentais até criminosos. 

Contudo, devido a localização afastada, o local também abrigou pessoas que eram consideradas a “escória” da sociedade. Numa política higienista, a instituição psiquiátrica recebeu mães solos, pessoas LGBTQIA+, presos políticos e qualquer outro indivíduo que ia contra os padrões da sociedade. 

O complexo hospitalar funcionou até o começo deste ano, restando apenas o Manicômio Judiciário que foi renomeado de Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico Professor André Teixeira Lima.

Em entrevista exclusiva ao site Aventuras na História, o jornalista Daniel Navarro Sonim, um dos autores da obra “O Capa-Branca”, contou detalhes sobre a vida de Walter Farias — também autor do livro — que foi funcionário do Juquery e mais tarde tornou-se paciente do local. 

O árduo trabalho nas colônias 

Ainda na infância, Walter Farias mudou-se para Franco da Rocha, onde teve contato com o Juquery. Por volta da década de 1970, o então jovem soube que tinha aberto concurso público para ser atendente de enfermagem. Tentado com o salário e com a oportunidade, o rapaz decidiu participar do processo seletivo, sendo direcionado para trabalhar no complexo hospitalar.

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Manuscritos de Walter Farias / Crédito: Divulgação / Arquivo Pessoal, via Daniel Navarro

Em um primeiro momento, o funcionário teve um estágio para aprender sobre técnicas de enfermagem, sendo enviado para uma colônia afastada, onde se deparou com situações degradantes, de superlotação, pacientes abandonados, ambiente insalubre e muito mais. 

“O Walter disse que por conta da falta de mobilidade, as escaras na pele dos pacientes provocavam feridas. Nessas feridas dava para ver bichos. Então o primeiro impulso dele e de outros funcionários foi tentar dar um pouco mais de qualidade de vida e bem-estar para esses pacientes. Portanto, eles jogaram fora os colchões, limparam o lugar e deram banho e os alimentaram”, revelou Daniel Navarro.

Embora a situação tenha melhorado, segundo o jornalista, os funcionários mais antigos da instituição disseram ao Walter que não adiantaria “perder tempo” com essas mudanças, porque a situação voltaria a piorar, mais cedo ou mais tarde — e foi o que aconteceu. 

“Alguns meses depois, o Walter voltou para essa colônia e viu que os pacientes estavam numa situação pior ainda, porque os curativos que eles tinham feito nas feridas não foram trocados. Então a pele estava cobrindo a gaze com o curativo. O que ele conta também é que as seringas utilizadas para aplicar medicamentos não eram descartáveis, no máximo eram esterilizadas”, revelou o escritor. 

A abrupta mudança de setor 

Devido às políticas internas do Juquery, do dia para a noite, o ex-funcionário se viu desempenhando funções de carcereiro. Até então, ele trabalhava nas colônias, mas por conta das tensões que aconteciam no Manicômio Judiciário, não tinham tantos funcionários nesta área, o que o levou a ser transferido para este setor.

Walter, por sua vez, não gostou da transferência, mas acatou as ordens. A partir disso ele não era mais um simples auxiliar de enfermagem, mas sim carcereiro de criminosos portadores de transtornos psquiátricos, que por algum motivo não podiam ser colocados junto de outros pacientes da instituição nem serem transferidos para prisões comuns.

De acordo com Daniel Navarro, devido ao ambiente inóspito e violento, a saúde mental do funcionário começou a ser prejudicada. O constante medo, somado às ameaças de morte e rebeliões o levou a pedir para voltar para o antigo setor. No entanto, passaram a lhe dar tarefas simples, motivo que o desanimou cada vez mais.

Com o tempo, Walter passou a faltar no trabalho. Todavia, preocupado que pudesse ser demitido, ele decidiu procurar aconselhamento interno. O psiquiatra da instituição, por sua vez, o recomendou se internar no complexo hospitalar, para que não fosse demitido e deixasse a família passar fome.  

“Ele começou a ter o acompanhamento de um psiquiatra lá dentro, que lhe orientou a internar para se tratar, pois provavelmente ele seria exonerado ou suspenso. Mas a internação dele foi igual a de qualquer outro paciente que chegava ali”, afirmou o jornalista.

Os horrores da internação 

Como paciente, Walter teve sua cabeça raspada e recebeu uniforme de interno. As humilhações e torturas não acabaram por aí. O ex-funcionário teve todos os seus dentes arrancados e ficou irreconhecível.

Walter Farias (à esq.) e Daniel Navarro (à dir.) / Crédito: Divulgação / Arquivo Pessoal, via Daniel Navarro

 

Embora ele alegasse que era funcionário do Juquery, os empregados da instituição não acreditavam nele, pois tudo que o caracterizava e moldava sua personalidade, lhe foi arrancado, inclusive a capa branca — o jaleco que os atendentes de enfermagem usavam como uniforme de trabalho.

Segundo Daniel Navarro, o período em que o sobrevivente esteve internado, foi o que mais consumiu bebida alcoólica, uma vez que os outros internos, ex-funcionários como ele, mas em tratamento por conta do alcolismo, conseguiam contrabandear os itens para dentro do complexo.

De acordo com o escritor, Walter ficou “preso” no Juquery em torno de um ano. No decorrer da obra “O Capa-Branca”, é possível perceber que houve momentos que ele perdeu a esperança que um dia pudesse sair da instituição e reconquistar a sua liberdade. 

No começo dos anos 1980, se aposentou por invalidez, após uma junta médica vinda da capital paulista o avaliar e constatar que ele não poderia mais trabalhar, com pouco mais de 30 anos de idade. 

Por outro lado, a equipe o colocou em liberdade, mas o estigma de “louco” o perseguiu durante anos. “Ele viveu na pele aquilo que ele viu os pacientes viverem”, concluiu o jornalista.


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