Ferdinando Palermo: ele esteve lá

As histórias do veterano que teve de largar o ofício de alfaiate para combater na Itália

Márcio Sampaio de Castro Publicado em 01/09/2006, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
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O campineiro Ferdinando Palermo, 85 anos, representa o típico soldado-cidadão que compôs as fileiras da FEB e dos diversos exércitos envolvidos no maior conflito do século 20. À época em que foi convocado, era dono de uma alfaiataria e estava às vésperas do casamento. Em solo italiano, viveu experiências que misturaram extrema violência e gestos de humanidade. Todos esses acontecimentos ficariam marcados profundamente em sua memória e são narrados com riqueza de detalhes nesta entrevista para Grandes Guerras.

Como o senhor se tornou um integrante da Força Expedicionária Brasileira?

Fiz o Tiro de Guerra em Campinas, em 1938, para me livrar de uma convocação como reservista de primeira categoria, que significava ser mandado para o Mato Grosso, Jundiaí ou Sorocaba. No meu caso não interessava, pois eu já era um alfaiate estabelecido. Só que, para minha surpresa, em dezembro de 1942, recebi um presente de Papai Noel: fui convocado. Tive de me apresentar no QG em São Paulo, que naquele tempo ficava ao lado do Teatro Municipal. Em janeiro do ano seguinte fui enviado para o 6º. Regimento de Infantaria, em Caçapava, num trem de carregar boiada. Durante o exame médico, um dos oficiais me perguntou se eu queria ir para guerra, e eu respondi: “E o senhor, quer ir para a guerra?”. O homem ficou furioso e carimbou no meu prontuário “Apto”. Passei a ser o soldado 1 531 do 1º. Batalhão, 1ª. Companhia do 6º. RI.

E o treinamento, como foi?

O treinamento que tivemos no Brasil de nada serviu para nós lá na guerra. O armamento era antiquado, a alimentação era péssima, as questões de saúde eram complicadas, enfim, acho que o Getúlio (Vargas) só queria mandar uma tropa para os americanos pararem de pegar no pé dele.

Como assim, quais eram as “questões de saúde complicadas”?

Quando chegamos a Bagnoli, nosso acampamento inicial na Itália, a primeira coisa que os americanos fizeram foi uma inspeção de saúde. De cara, saíram seis caminhões cheios de soldados para tomar penicilina no hospital. Eles estavam com gonorréia. Havia também muita gente com problemas de dentição e soldados que, antes de ingressarem no Exército, jamais tinham calçado um sapato na vida.

Militarmente, como foi a adaptação às condições da guerra na Europa?

Depois de Bagnoli fomos enviados para Tarquinia e lá recebemos os novos uniformes, as armas e as instruções que os nossos sargentos e tenentes repassavam, a partir do que eles aprendiam com os americanos. Em setembro (de 1944), começamos a aproximação da zona de combate. Primeiro em locais onde se podiam ouvir os estrondos dos canhões. Bum, bum, bum! Depois, íamos treinar em locais onde já se podiam ouvir as metralhadoras. Ratatá, ratatá... Íamos nos preparando psicologicamente. Quer dizer, quando entramos em combate, não houve aquele espanto.

Qual foi o fato mais interessante que ocorreu com o senhor na Itália?

Foi a vez que me vesti de paisano (roupas civis). Eu tinha virado o responsável pela telefonia da minha companhia. Durante uma patrulha de contato, o fio que nos ligava a uma outra companhia e ao QG havia sido cortado pelos fascistas. Eu disse para o tenente Quadrado: “Vou lá”. Peguei a roupa de um dos italianos ali, coloquei uma enxada, um garfo e um rastelo nas costas, a 45 (pistola automática) do sargento embaixo do paletó e fui procurar onde o fio estava cortado. Eu praticamente podia sentir os alemães me observando. Quando achei as pontas cortadas, comecei a puxá-las com o garfo, como se estivesse mexendo com a terra. Daí, abaixei as calças e, de costas para as posições alemãs, fingi que estava defecando, enquanto tentava conectar os fios. Deu certo, mas foi um sufoco, viu?

Os franco-atiradores eram um perigo constante nos campos de batalha?

Os alemães tinham franco-atiradores por todo lado. Eles eram muito bons. Durante o dia, não atiravam para não denunciar suas posições. Bom, um dia, o tenente Barbosa me chamou para ir com a sua Companhia para uma patrulha de reconhecimento. Ele vestiu o capacete de fibra, mas não pôs o de aço. Quando chegamos no ponto determinado pelo comando, o sargento Aires disse: “Ponto final”, mas o Barbosa cismou de ir até a vila adiante. Ele foi advertido pelo Aires para não ir, daí ele disse: “Quem for macho vem comigo”. Seis soldados se ofereceram para ir junto. Quando eles entraram na vila, os alemães cercaram o grupo. Eles se esconderam em uma casa ali perto. Quando o Barbosa pôs a cabeça na janela, levou um tiro bem no meio da testa. Atravessou o capacete de fibra. Essa história de macho na guerra não existe.

O que significou o fim da guerra para o senhor? De volta ao Brasil, como foi a readaptação para a vida civil?

Com o fim da guerra, voltamos ao Brasil. Fomos lutar por uma liberdade democrática e tinha uma ditadura aqui. Três dias depois da chegada, eu estava paisano na rua, completamente desorientado. Perdi a alfaiataria, perdi tudo. Teve muita gente que se suicidou, virou alcoólatra... O Exército daquela época, não o de hoje, não se interessou pelos ex-combatentes. Somente nos anos 80 é que os expedicionários foram reconhecidos como pensionistas. Só depois de quase 40 anos.

Qual balanço o senhor faz da epopéia que viveu na Itália ao lado de outros 25 mil brasileiros, há mais de 60 anos?

Infelizmente hoje, nas escolas, poucos sabem o que foi a FEB e sua participação na guerra. A história da FEB e outras histórias é que deveriam servir para incentivar o patriotismo, e não o futebol. Por outro lado, pessoalmente, sinto uma pontada no peito quando alguém me faz perguntas desagradáveis sobre a guerra. Eu não tenho as mãos sujas de sangue. Quem tem são os donos da guerra.