Guerra tribal no Quênia

Eleição polêmica no Quênia Traz à tona antigas rivalidades étnicas

Tiago Cordeiro Publicado em 01/02/2008, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

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Cercado por vizinhos instáveis como Somália e Etiópia, o Quênia era considerado um dos países mais tranqüilos da África. Isso mudou em janeiro, quando protestos deixaram 250 mil refugiados e provocaram a morte de pelo menos 480 pessoas. O incidente mais grave aconteceu na cidade de Eldoret, onde 50 pessoas foram queimadas quando a igreja em que elas se escondiam foi incendiada. O motivo para a revolta é o resultado das eleições para presidente, realizadas no último dia 27 de dezembro. Suspeitas de fraude trouxeram à tona rivalidades étnicas que, nas últimas décadas, vinham sendo contidas com sucesso.

Nos últimos 2 mil anos, o Quênia já foi ocupado por árabes, portugueses, alemães e britânicos. Os árabes usavam a área como rota comercial desde o século 1 a.C. Os portugueses chegaram ali em 1498, com Vasco da Gama, e só saíram em 1730, quando um grupo árabe reassumiu o poder. Em 1885, chegaram os alemães, que logo cederam a maior parte do território à Inglaterra. Os ingleses só foram embora em 1963. Essas trocas de comando fizeram com que o país reunisse praticamente todos os grandes grupos étnicos e lingüísticos do continente.

A confusão de agora começou quando o atual mandatário, Mwai Kibaki, de 76 anos, foi reeleito por uma margem apertada em relação a seu oponente, Raila Odinga, de 62 anos. Em alguns vilarejos, o número de votos foi 15% maior que o de habitantes, o que despertou suspeitas.

Desde que conquistou a independência, o Quênia só teve três presidentes: Jomo Henyatta de 1963 a 1978, Daniel Arap Moi até 2002 e Kibaki desde então. Na eleição anterior, Kibaki e Odinga tinham se unido, mas depois romperam. Agora os dois, que representam duas das maiores etnias locais, dividem a nação ao meio – uma façanha que nem é tão difícil em um país que abriga 42 povos diferentes.

 

As principais tribos

Conheça as maiores das 42 etnias do país

Kikuyu: Forma a maioria, com 23% da população, e controla o governo. Por ser a etnia do presidente Kibaki, é a maior vítima da nova onda de protestos.

Luya: Com 14% dos habitantes, foi a mais importante aliada dos kikuyu na luta pela independência do país. É formada por outros 16 subgrupos.

Luo: É a etnia do oposicionista Raila Odinga. Conta com 13% dos quenianos e é acusada de perseguir os kikuyu por causa do resultado das eleições de dezembro.

Kalejin: Somam 11% dos moradores do país. Altos e magros, são o povo de onde saem os famosos maratonistas do Quênia.

Kamba: Formada por 10% dos quenianos, tem os melhores músicos e dançarinos do país. Adoram uma balada, seja por farra ou para animar cerimônias religiosas.