A história do avião: versão sem cortes

A história do avião: versão sem cortes

Salvador Nogueira Publicado em 01/09/2006, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Outro dia fui ao Rio de Janeiro gravar uma participação num programa de tevê. O tema era Alberto Santos Dumont. Fui de avião – um Boeing 737 da Gol. A fuselagem estava decorada com uma ilustração comemorativa dos cem anos do 14 Bis, primeiro avião de Santos Dumont. Desci cerca de 45 minutos depois, no Aeroporto Santos-Dumont. No programa, tive a chance de conhecer o sobrinho-bisneto de Santos Dumont.

É... tenho ouvido falar um bocado de Santos Dumont. Mas isso não me incomoda – sou um apaixonado pela história do aeronauta brasileiro e pelas aventuras e desventuras de todos os que participaram da mais incrível realização do século 20: o desenvolvimento da aviação.

Em terras tupiniquins, é comum resumirmos a história ao feito de 12 de novembro de 1906, quando Santos Dumont atravessou 220 metros pelo ar com seu 14 Bis, deixando boquiabertos os parisienses ao realizar o primeiro vôo público e reconhecido da história da aviação. Mas Santos Dumont fez muito mais. Seis anos antes, ele havia contornado a Torre Eiffel com um balão dirigível, comprovando definitivamente a dirigibilidade dos aeróstatos.

Ocorre que o sucesso de Santos Dumont também tem um lado sinistro. Sim, estou falando da história dos irmãos Wright, que todo mundo finge que não existe por aqui. Patriotadas de lado, os Wright têm uma trajetória tão interessante quanto a do brasileiro. Imagine só, dois fabricantes de bicicleta que resolvem inventar uma máquina de voar! Em 1903, eles conseguem realizar seu primeiro vôo, feito secretamente. Dois anos depois, os Wright já voavam 39 quilômetros em circuito fechado (com a ajuda de uma catapulta para decolar, é verdade).

Mas faziam tudo em segredo, e aí está a verdadeira importância de Santos Dumont na invenção do avião – ele sempre trabalhou em público, dando a cara a bater, numa demonstração de coragem e visão de futuro. Com isso, ele influenciou mais o destino da aviação que qualquer outro indivíduo. E olhe que a concorrência não se resume aos Wright. Há pelo menos uma dúzia de pessoas que merecem menção honrosa nessa incrível jornada que separou dois mundos: um, no fim do século 19, em que ninguém sabia voar; outro, no começo do 20, em que todo mundo sabia.

Acima de uma disputa pela primazia entre dois americanos e um brasileiro, a história desses homens e suas máquinas é o caminho pelo qual podemos começar a entender o que hoje chamamos de globalização, e o destino do ser humano como civilização planetária. Não é pouca coisa.

Salvador Nogueira é jornalista e autor de Conexão Wright–Santos-Dumont: A verdadeira história da invenção do avião (Editora Record, 384 pág., R$ 42,90)