Pré-História ainda hoje

A expansão da civilização resultou em verdadeiros genocídios de índios. Para se proteger do extermínio, dezenas de tribos permanecem isoladas, da mesma forma que viviam séculos ou milênios atrás

Ana Santa Cruz Publicado em 02/06/2009, às 05h31 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Arquivo Aventuras

Os marinheiros olhavam aquele pedaço de terra com atenção. Durante nove dias, a partir de 22 de abril de 1500, as 13 embarcações da expedição de Pedro Álvares Cabral navegaram pelas enseadas do sul da Bahia. Os ocupantes das naus queriam reconhecer a paisagem e os estranhos habitantes daquele lugar novo. O contato com os nativos, “pardos, nus, com arcos e setas nas mãos”, segundo o capitão Nicolau Coelho, foi amistoso.

Quinhentos e oito anos depois, no Acre, fronteira do Brasil com o Peru, uma tribo indígena teve seu primeiro contato com o chamado homem branco. As fotografias feitas na ocasião revelam pessoas que se encaixam na descrição que o escrivão Pero Vaz de Caminha, integrante da expedição de Cabral, fez há mais de cinco séculos: “A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos”. Esses índios vivem hoje da mesma forma que aqueles que os portugueses encontraram aqui. Mas, em vez da atitude amistosa do passado, a tribo do Acre empunhava arcos e flechas e repeliu o avião de onde foram feitas as fotos. O grupo, do qual se desconhece até a etnia, busca no isolamento a garantia de sobrevivência. Por enquanto, os índios têm tido certa dose de sucesso.

A Funai (Fundação Nacional do Índio) estima que existam atualmente 67 tribos isoladas em pontos remotos da chamada Amazônia Legal, área criada por uma lei federal de 1953 que compreende nove estados, para facilitar o planejamento econômico na região. Isso faz do Brasil o país com maior número de tribos isoladas no planeta, seguido pela Papua-Nova Guiné (veja quadro ao lado). “No caso do Brasil, a estimativa do número de tribos é mais confiável”, diz Miriam Ross, pesquisadora da Survival International, organização não-governamental baseada em Londres e voltada à proteção dos direitos de tribos no mundo todo. “No país, há um braço da Funai dedicado ao mapeamento e à proteção das terras dos índios. Em Papua-Nova Guiné não há órgão de governo responsável pelas tribos nem ONGs que zelem por eles.”

No Brasil, a política da Funai tem sido, desde 1989, a de não interferir na cultura e no modo de vida das tribos. E de trabalhar pela demarcação de suas terras, impedir a violência por parte dos brancos e, segundo o antropólogo João Dal Poz, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora e especialista em questões indígenas, “criar um cinturão de proteção e deixar os índios tomarem a decisão do que querem com relação à gente”. Sobre as tribos do resto do planeta, o consenso é o mesmo: elas têm direito de se manter isoladas e são donas das terras onde viveram seus antepassados. A convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, de junho de 1989, refere-se aos índios e tribos que vivem dentro de Estados independentes e garante-lhes autonomia.

GENOCÍDIOS INDÍGENAS

Nem sempre foi assim. Essa postura oficial de não-interferência começou a vigorar há apenas cerca de duas décadas. No mundo inteiro, o avanço de civilizações, principalmente a européia, sobre povos tidos como mais atrasados resultou em verdadeiros genocídios. No Brasil, estima-se que havia entre 1 e 10 milhões de nativos de cerca de 1400 grupos diferentes quando os europeus chegaram por aqui. Há hoje somente em torno de 460 mil. Os que desapareceram foram vítimas de doenças para as quais não tinham imunidade (leia abaixo) e de muita violência dos colonizadores.

Do descobrimento ao início mesmo da colonização, por volta de 1532, não houve escravidão institucionalizada de índios no Brasil. Os portugueses conseguiam extrair produtos como o pau-brasil por meio do escambo com os nativos. Tudo mudou no início da lavoura açucareira no litoral do Nordeste do país, na segunda metade do século 16. Por volta de 1530, os tupiniquins – a tribo com a qual a esquadra de Cabral tomara contato – ainda eram aliados dos portugueses na guerra contra os tupinambás. Lá por 1570, porém, os tupiniquins já estavam praticamente extintos, massacrados por Mem de Sá, o terceiro governador-geral do Brasil.

Os donos de engenho usavam violência para tentar obter a adesão dos índios para o trabalho, mas não foram felizes. Os nativos acabaram então substituídos por escravos africanos, que, além de tidos como mais dóceis, representavam um negócio mais lucrativo. No Nordeste, a captura de índios só gerava lucros para os colonos – e a escravização dos africanos era mais rentável, pois gerava fortunas e trocas proveitosas entre continentes.

Na região hoje ocupada pelo estado de São Paulo, no entanto, a história foi diferente. No século 16, o aprisionamento de índios foi um negócio tão significativo que a região de São Vicente já era conhecida como “porto dos escravos”. Em 1571, em Piratininga (São Paulo em sua origem), cerca de 350 famílias eram sustentadas por caçadores de indígenas. Os bugreiros, como eram chamados, agiam à revelia da política oficial da coroa portuguesa, contrária à escravização dos índios. Os colonos, com a conivência dos governantes, não deram a menor bola para as leis que protegiam os índios e avançaram sem cessar sobre as terras deles – processo, aliás, que continua até hoje. Resultado: os índios foram poupados da escravidão, mas condenados ao extermínio.

Na Amazônia, no século 16, havia numerosas tribos bem organizadas. Ao longo dos rios da região, os “conquistadores” encontraram comunidades que se dedicavam à agricultura, à criação de tartarugas em lagoas, ao armazenamento de peixe seco, à fabricação de cerâmica. Somente 200 anos depois, as margens do rio Amazonas já se encontravam despovoadas em longos trechos – os nativos estavam sendo havia algum tempo afugentados para o interior da floresta.

LEIS À TOA

Houve na história brasileira algumas tentativas legais de amparar os índios. Mas as situações de conflito sempre faziam com que a lei fosse deixada de lado. Isso se repetiria até o século 20. No começo dele, embrenhados nas matas entregues aos imigrantes europeus, como a colônia italiana de São Mateus, no Espírito Santo, os índios se viam cada vez mais acuados. E, enquanto eram numerosos, partiram para o contra-ataque. A reclamação dos colonos italianos contra a ferocidade dos nativos rendeu protestos consulares e espaço nos jornais do Rio de Janeiro e de Roma.

Tribos de diversas partes, como os botocudos em Minas Gerais e no Espírito Santo, continuaram caçadas como bichos, até que foram reduzidas a pequenos grupos. Para os que viviam no interior, o índio era considerado bandido e seu assassinato ficava impune – pior: era até estimulado. Por todo o país, havia caçadores de índios profissionais. Não restou outra alternativa às tribos a não ser procurar refúgio bem longe dos chamados civilizados. E decidir manter-se assim, isolada.
Desde sua criação, em 1967, a Funai atua como pacificadora nas frentes de trabalho que abriam estradas na selva, sem, contudo, obter muito êxito. É incerto o destino das tribos isoladas da América e da Oceania. No ritmo atual de devastação das florestas e de ocupação por narcotraficantes, madeireiros, agricultores, pecuaristas e empresários atraídos pelas riquezas naturais, só restam às tribos duas opções: a assimilação ou a extinção. Nenhuma delas é muito boa. A assimilação porque quase sempre resulta, como ressaltava o antropólogo Darcy Ribeiro, em uma vida de infelicidade, pobreza, doenças e marginalidade. A extinção, por motivos óbvios. Nesse cenário, dizem os especialistas, apenas a aplicação efetiva das leis que garantem proteção aos índios e à suas terras permitiria uma guinada radical no curso da História. •

OS ÚLTIMOS SELVAGENS
Na Amazônia e em Papua-Nova Guiné, não houve contato com estrangeiros

Colômbia

A tribo Aroje (ou Caraballo) é a única do país que se mantém isolada do convívio com a chamada civilização. Por isso, as autoridades desconhecem sua quantidade de habitantes.

Equador

Também tem uma tribo que se mantém distante dos “brancos”, a Tagaeri, com apenas entre 20 e 30 membros. Hoje, os índios estão especialmente acuados por causa da existência de petróleo em suas terras.

Peru

Tem 15 tribos isoladas, apenas uma delas não identificada. Também não se sabe a quantidade de nativos pertencentes a esses grupos. Habitado há 15 mil anos, o Peru foi o centro do Império Inca, que unificou culturas diversas a partir do século 12.

Bolívia

Há duas tribos isoladas, ambas com população indefinida. Os quíchuas e aimarás que habitavam o altiplano foram escravizados no século 16. Depois disso, preferiram fugir do contato externo.

Paraguai

O país conta com um grupo disperso de índios da tribo Ayoreo-Totobiegosode. Para se proteger do massacre que dizimou as tribos da região, eles preferem manter-se distantes das cidades.

Brasil

São 67 povos isolados no país, localizados nos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Maranhão, Pará, Rondônia e Roraima. De alguns não se sabe nem a língua nem a etnia à qual pertencem. Não se sabe também a localização exatas das tribos, já que os grupos se movimentam bastante.

Papua-Nova Guiné

Há no país 44 tribos isoladas, de população indefinida, localizadas na metade da Indonésia da ilha. Os nativos vivem da agricultura, da caça de porcos selvagens e da coleta.

Índia

A tribo dos sentinelese é a única que se mantém afastada dos estrangeiros. Tem 39 habitantes e estima-se que seus antepassados remontem a 70 mil anos. Os membros vivem hoje como no Paleolítico, há mais de 10 mil anos.

CONTATO LETAL
Doenças contraídas dos brancos levaram morte aos nativos

As doenças sempre estiveram entre os primeiros fatores a provocar a diminuição drástica das populações indígenas no Brasil. As moléstias que mais afetaram os índios são as que atacam os pulmões. Gripe, pneumonia, tuberculose e coqueluche (esta hoje erradicada do mundo) sempre estiveram entre as mais letais. No Norte, a malária também atacou. Dermatoses, doenças venéreas, como a sífilis e o tracoma, além de verminoses foram outras moléstias comuns. Para o antropólogo Darcy Ribeiro, além da falta de imunidade natural contra as doenças citadas, houve entre os índios perda do sistema de adaptação ecológica em virtude da adoção de hábitos dos brancos. Os nativos passaram a ter novas necessidades e a enfrentar doenças decorrentes de carências de nutrientes que antes conseguiam na natureza. O caso das missões jesuítas na Bahia no século 18 foi emblemático do efeito devastador do contato com os brancos. Em poucos anos, o número de índios catequizados, que era de cerca de 40 mil, baixou para 2 mil por causa de uma epidemia de varíola (hoje erradicada). Um dos casos mais recentes de mortandade provocada por doenças respiratórias aconteceu com índios da etnia Crenacore, descobertos nos anos 70, no Mato Grosso. Em quatro anos, uma aldeia com população de 400 pessoas foi reduzida a 79. Situações assim influenciaram a atual geração de antropólogos que defende o isolamento completo das últimas tribos isoladas, para garantir sua sobrevivência.

SAIBA MAIS:

LIVROS

Os Índios e a Civilização, Darcy Ribeiro, Cia. das Letras, 1993

Resultado de dez anos de trabalho como etnólogo, de entrevistas com indigenistas e de pesquisa documental.

SITES

www.survival-international.org

Site da ONG que protege o direito de tribos isoladas

www.socioambiental.org/pib/portugues/direito/conv169.shtml

Convenção sobre povos indígenas e tribais da ONU