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Símbolos da resistência: 5 nomes poucos lembrados da luta contra a escravidão ao redor da América Latina

Persistentes na luta pela liberdade, esses homens e mulheres desafiaram o sistema escravista da época e se tornaram ícones

Isabela Barreiros Publicado em 13/05/2020, às 12h00

Pintura de meados de 1800 intitulada: Am Not I A Man and a Brother
Pintura de meados de 1800 intitulada: Am Not I A Man and a Brother - Wikimedia Commons

"Perversidade intrínseca: escravos eram adquiridos pelos traficantes em troca de mercadorias produzidas pela força de trabalho escrava", escreveu o historiador Jaime Pinsky em A Escravidão no Brasil. Eram embarcados entre 200 e 600 negros na África, a cada viagem. Vinham amarrados por correntes e separados por sexo. Sofriam, além do desconforto físico, sendo forçados a viver com a falta de água e doenças.

Assim que chegavam ao Brasil, eram postos em quarentena, a fim de evitar mais perdas por doenças. Depois, seguiam para os mercados de negros da cidade, como o Valongo, na Gamboa, região central do Rio de Janeiro. De cabelos raspados, velhos, jovens, mulheres e crianças eram avaliados pela clientela, que apalpava dentes, membros e troncos.

Em 1885, a Lei dos Sexagenários decretava a liberdade dos escravos com mais de 60 anos, idade que poucos atingiam na época. Entretanto, mais que o sofrimento causado pelas circunstâncias, tomava corpo um movimento abolicionista, que reunia a resistência de negros escravizados e setores radicais da sociedade que pregavam o fim da escravidão.

Mesmo que tenham caído em esquecimento, inúmeros foram os negros latino-americanos que lutaram pelo fim do sistema escravista no continente. Persistentes em sua luta pela liberdade, confira 5 homens e mulheres que fizeram resistência às atrocidades cometidas na América Latina durante o período da escravidão — e ainda depois dele.

1. Benkos Biohó

Benkos Biohó foi um membro da família real do Arquipélago dos Bijagós, atual Guiné-Bissau, comprado por um comerciante de escravos de Portugal. Mais tarde, ele seria adquirido pelo espanhol Juan Palacios e, em 1596, levado para a América do Sul, mais especificamente para onde hoje está localizada a cidade de Cartagena das Índias, na Colômbia. Sua vida como escravo duraria pouco: apenas três anos. Depois de fugir e sob o nome de Domingos Biohó, ele começou a organizar um exército que chegaria a comandar regiões próximas às cordilheiras Montes de María.

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Crédito: Wikimedia Commons

Por meio de uma rede de inteligência, tornou-se responsável por ordenar inúmeras fugas de outros escravos na Colômbia, guiando-os para um território livre que era designado por eles como o “assentamento”. Esse local daria origem ao primeiro quilombo das Américas.

Em 1605, o governador de Cartagena, Gerónimo de Suazo y Casalola, aceitou a derrota perante a organização do exército de ex-escravos e ofereceu um tratado de paz a Biohó, que permitia a livre circulação das pessoas no local. Ainda assim, o acordo foi violado em 1919, quando o líder foi sequestrado na cidade e, posteriormente, enforcado pelas autoridades regionais.

Foi apenas em 1691 que o governo oficializou a existência do Palenque de San Basilio, que se tornou, em 2005, Patrimônio Imaterial da Humanidade, avaliado pela Unesco. No local, esteve presentes o primeiro povo negro livre das Américas, inspirados pela luta e resistência de Domingos Biohó.


2. Princesa Aqualtune

Era a filha de um rei, ainda não identificado, do Congo, sendo uma princesa-guerreira antes de ser vendida como escrava no Brasil, mais especificamente em Recife, Pernambuco. Ainda no Congo, nos últimos anos do século 16, ela foi responsável por liderar cerca de 10 mil congoleses na Batalha de Mbwila.

A derrota fez com que ela fosse capturada e transportada para a América do Sul, onde seria escravizada. Ela foi vendida como “reprodutora”, por ser considerada “forte e saudável”. Aqualtune teria sido levada já gravida ao Brasil, em 1597.

Nos seus últimos meses de gravidez, a princesa organizou uma fuga de aproximadamente 40 negros escravizados para a Serra da Barriga, que se tornaria, mais tarde, o famoso Quilombo dos Palmares. Por possuir conhecimentos sobre política, organização estatal e estratégias de guerra, a personagem foi fundamental para o estabelecimento do quilombo.


3. Ganga Zumba

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Estatua de Ganga Zumba em da Serra da Barriga, Alagoas / Crédito: Wikimedia Commons

Ganga Zumba foi o primeiro grande líder do Quilombo dos Palmares, onde hoje fica a divisa entre Alagoas e Pernambuco. Filho da princesa Aquatune e tio de Zumbi dos Palmares, ele ficou conhecido por ter conseguido estabelecer um acordo de paz com o governo local.

No ano de 1677, o quilombo lutou bravamente contra a expedição portuguesa de Fernão Carrilho. A guerra resultou em inúmeras mortes, como a do filho do líder Zumba, Toculo, e também no sequestro de 47 pessoas, incluindo ainda mais dois de seus filhos. Na batalha, o próprio homem foi ferido com uma flecha, mas conseguiu fugir das tropas da coroa portuguesa.

Em 1678, ele foi convidado por autoridades da Nova Lusitânia para firmar um acordo de paz entre o governo e o quilombo. O tratado, no entanto, dizia que os habitantes do local seriam transferidos para outra região mais distante, causando controvérsias entre muitos dos moradores de Palmares.

Em Cucaú, eles passaram a viver sob a forte vigilância portuguesa e também hostilidade das pessoas que moravam perto do local. Ganga Zumba morreria anos depois por envenenamento causado por um partidário de Zumbi dos Palmares.


4. Zacimba Gaba

Zacimba Gaba foi uma princesa guerreira do reino de Cabinda, na Angola, África, nascida no século 17, que comandou seu povo numa guerra contra a invasão portuguesa na região costeira. Cabinda, na década de 1690, foi praticamente dizimada pelas tropas portuguesas e seus sobreviventes foram capturados e mandados ao Brasil como escravos.

No Espírito Santo, Brasil, ela foi vendida junto a 12 de seus súditos ao fazendeiro português José Trancoso. No campo de trabalho, Zacimba foi cruelmente castigada por não se submeter às ordens do senhor.

Zacimba decidiu, então, utilizar o método do envenenamento para escapar do local. O veneno era conhecido como pó de amassar sinhô e dado em doses pequenas, pois não funcionava instantaneamente. Com medo desse tipo de golpe, os senhores costumavam obrigar os escravos a experimentar as comidas que trazia. Com essa consciência, Zacimba demorou anos para envenenar José Trancoso.

Quando ele finalmente morreu envenenado, Zacimba ordenou a invasão da Casa Grande pelos escravizados presos na senzala. Todos os torturadores foram mortos, mas a família do português foi poupada. Ela seria responsável por fundar um quilombo no Norte do Espírito Santo, hoje município de Itaúnas e passou o resto da vida guiando batalhas no porto de São Matheus, pela libertação dos negros que eram vendidos chegados de África, e a destruição dos navios negreiros.


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Crédito: WIkimedia Commons

5. Mária Remedios Del Valle

Mária Remedios Del Valle nasceu em Buenos Aires, na Argentina, quase 90 anos antes da abolição da escravatura no país. Ela foi uma combatente e enfermeira que atuou na Guerra de Independência da Argentina, ganhando os títulos de “capitã” e “mãe da pátria”.

Mária trabalhava como “rabona” nos acampamentos dos exércitos que lutavam pela libertação da região da intervenção espanhola. O termo designava mulheres que eram responsáveis pelo alimento e limpeza dos soldados, mas também atuava como enfermeira em casos específicos.

A partir desse contato, inspirada pela guerra pela independência, ela pediu ao General Manuel Belgrano para continuar fazendo o seu trabalho nas tropas da linha de frente. Ele negou, no entanto, a mulher foi mesmo assim.

Durante a Batalha de Ayohuma, Mária acabou sendo atingida com um tiro e ainda foi capturada pelas tropas inimigas. Ainda assim, ela seguiu ajudando as pessoas que também estavam em cativeiro, cuidando de suas feridas — mas sofreu por isso. Um de seus maiores castigos foi ser açoitada em público por nove dias consecutivos. A soldada conseguiu fugir e permaneceu lutando até o fim da guerra em 1818.


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