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Culto à carga: nas ilhas do Pacífico, imitar ocidentais se tornou uma religião

Um ritual curioso acontece desde o final do século 19, mas só com a Segunda Guerra ganhou reconhecimento

Redação Publicado em 04/07/2020, às 10h00

Pintura de Leigh Cooney mostra John Frum
Pintura de Leigh Cooney mostra John Frum - Wikimedia Commons

Pense numa invasão alienígena. Só que os aliens não são hostis. São quase indiferentes. Ficam na deles, em suas bases, fazendo coisas incompreensíveis aos humanos, mas que devem ter algum propósito. De vez um quando, eles se aproximam, em busca de alguém para ajudá-los a entender alguma coisa da Terra, numa comunicação precária, mas possível. Pagam com seus objetos, muito superiores a qualquer coisa que humanos possam fazer. Inclusive com sua comida, que é esquisita a princípio, mas abundante.

Vez ou outra, carregamentos com as maravilhas alienígenas são perdidos e alegremente apossados pelos humanos. Quando eles fossem embora, e as maravilhas deixassem de surgir, como consegui-las de volta? Talvez tentando operar os mecanismos que as traziam. Ou recriá-los. Esse é um jeito mais empático de explicar o que frequentemente foi usado como chacota contra os povos “primitivos” de Papua Nova Guiné e outras regiões do Pacífico, em documentários que cruzaram a linha do racismo, como o italiano Mondo Cane, que popularizou a ideia nos anos 60.

Ilustração de um culto à carga / Crédito: Divulgação

 

O primeiro culto à carga foi, nesse espírito, batizado de Loucura de Vailala. Nativos passaram a falar num navio a vapor fantasma, no qual seus ancestrais trariam comida enlatada, ferramentas e até armas para expulsar os colonizadores brancos. Manobras militares, como a dos marinheiros britânicos, eram feitas pelos nativos, ao que se seguia um jantar formal numa mesa, muito diferente da maneira tradicional.

Os cultos à carga só ganharam esse nome na Segunda Guerra, com as bases primeiro japonesas, depois australianas na ilha, com uma intensa movimentação de aviões e navios, e muitas armas e suprimentos chegando de paraquedas ou perdidas no mar e encontradas na praia. Um dos mais famosos desses cultos é o a John Frum, na ilha de Tanna, Vanuatu.

Sepultura de John Frum / Crédito: Wikimedia Commons

 

Em uma versão popular (e há muitas divisões teológicas na religião), John Frum foi um nativo que apareceu vestido em roupas ocidentais, prometendo que traria ao povo casas, roupas, comida e transporte ao estilo do Ocidente, quando os brancos deixariam a ilha. Para tornar a visão uma realidade, todo dia 15 de fevereiro, os fiéis organizam paradas imitando as Forças Armadas americanas. Antropólogos acreditam que John Frum vem de John From America, e que possivelmente a lenda foi inspirada em um soldado negro.