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Da urna surpresa ao mito do empurrão: 5 fatos sobre os restos mortais da Imperatriz Leopoldina

A austríaca faleceu aos 29 anos de idade, em 11 de dezembro de 1826, e seus despojos estão em São Paulo, na Cripta Imperial, do Parque da Independência, no Ipiranga

Vanessa Centamori Publicado em 24/08/2020, às 17h17

Pintura oficial da imperatriz (à esqu.) e os restos mortais de Dona Leopoldina (à dir.)
Pintura oficial da imperatriz (à esqu.) e os restos mortais de Dona Leopoldina (à dir.) - Wikimedia Commons - Foto de Valter Diogo Muniz

A imperatriz Leopoldina foi uma mulher vital — seja com relação à Independência do Brasil ou ao Dia do Fico. Sua inteligência, poder de persuasão para com Dom Pedro I, e sua astúcia política, mudaram a história do nosso país. Mas, por mais icônica que seja sua figura, como todo ser humano, ela teve uma trajetória que eventualmente acabou. 

No caso da soberana, a morte veio em 11 de dezembro de 1826, aos 29 anos de idade, por conta da evolução de um quadro infeccioso. Seus restos mortais jazem em São Paulo, na Cripta Imperial, do Parque da Independência, no Ipiranga.

Veja abaixo 5 fatos instigantes sobre os despojos da imperatriz. 

1. Urna surpresa

Em 2012, os restos de Leopoldina, assim como os de Dom Pedro I e de Dona Amélia, foram alvo de um estudo que envolveu uma parceria da arqueóloga brasileira Valdirene Ambiel com vários especialistas e instituições. Os resultados (que podem ser acessados aqui) aparecem na dissertação de mestrado da pesquisadora, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE/USP). 

A primeira tarefa que foi feita na pesquisa foi abrir parcialmente a tampa de granito do sarcófago de Leopoldina. Mas, quando essa foi aberta, veio uma surpresa: a urna era mais recente do que se pensava.

Acreditava-se que seria encontrado o caixão descrito segundo documentos do Instituto Histórico Geográfico de São Paulo, que falavam do translado dos restos da imperatriz, realizado em 1954. Porém, esse último não condizia com tais descrições. Ainda assim, havia 31 fragmentos de madeira, provenientes provavelmente da antiga urna. 

Valdirene Ambiel com a Imperatriz Leopoldina / Crédito: Prof. Dr. Luiz Roberto Fontes

 

2. Aparência imperial 

Quando se trata das roupas, porém, tudo estava dentro das descrições. A defunta tinha correspondência com uma imagem do pintor francês Jean-Baptiste Debret, de 1 de dezembro de 1822, na qual Leopoldina aparecia de trajes de gala, na coroação de Dom Pedro I. 

Isto é, de modo curioso, a esposa do imperador havia sido enterrada com vestimenta parecida com a daquela ocasião sublime. Era um vestido branco com bordados "em forma de folhas em verde na altura do peito" e mangas fofas com detalhes da fauna brasileira.

Seus sapatos, por sua vez, eram baixos e sem salto, e tinham decorações "pequenas e delicadas". A estatura da falecida variava entre 1,54 cm a 1,60 cm. Brincos e uma amostra do manto da austríaca também estavam em seu sarcófago e foram entregues ao Museu da Cidade de São Paulo, que administra o Monumento à Independência. 

3. A febre que acelerou a morte

Os restos de Leopoldina estavam esqueletizados e em estado de preservação descrito no estudo como "frágil".  A presença de cal foi apontada como um dos principais fatores para a decomposição rápida dos remanescentes humanos da dama.

Em entrevista à Aventuras na História, Ambiel explicou que a substância presente na primeira esposa de Dom Pedro I pode ter sido proveniente do funeral realizado na data da morte da soberana. Além disso, "uma vez que a Imperatriz sofreu muita febre antes de entrar em óbito", esse estado febril "pode ter acelerado o processo de decomposição".

Retrato da Imperatriz Leopoldina / Crédito: Wikimedia Commons 

 

4. Não houve beija-mão

A imperatriz Leopoldina não usava luvas em seu sarcófago. Esses acessórios poderiam, em tese, ter sido retirados para a cerimônia do beija-mão. Nesse costume, não só em vida — como também após a morte — se beijava as mãos de pessoas importantes em sinal de referência. 

Embora essa tradição peculiar estivesse em desuso no século 19, ela foi reforçada por D. João VI, que queria se aproximar de seus súditos, segundo contou Ambiel. Então, mais tarde, a beija-mão foi mantida por D. Pedro I, que era bem fiel ao pai. 

Ainda assim, o imperador viúvo não pôde exigir que o ritual da família fosse realizado na esposa: o corpo de Leopoldina estava decomposto demais. Beijar a mão dela, portanto, era impensável. 

Ilustração da Imperatriz Leopoldina / Crédito: Wikimedia Commons 

 

5. O mito do empurrão na escada 

Uma lenda popular afirma que a morte da imperatriz Leopoldina teria sido fruto de violência por parte de Dom Pedro I. Segundo o boato, a austríaca estava grávida e levou um pontapé seguido de um empurrão escada abaixo, resultando no óbito do bebê e no agravamento de sua saúde. 

Mas, esse não foi o caso, segundo a análise dos restos mortais da primeira esposa do imperador. Essa parte da pesquisa teve a colaboração do médico legista Luiz Roberto Fontes, que avaliou boletins médicos dos Arquivos do Museu Imperial, em Petrópolis; como também um artigo do médico Dr. Odorino Breda Filho, de 1972, na revista do Instituto Histórico Geográfico de São Paulo.

Então, se chegou à conclusão de que o óbito da imperatriz foi, na verdade, resultado não da violência, mas da evolução de um quadro infeccioso. De acordo com Ambiel, as datas para que a teoria do empurrão fosse verdade também não batem: D. Pedro I deixou o Rio de Janeiro em 23 de novembro de 1826, e um aborto foi sofrido por Leopoldina na ausência dele, em 2 de dezembro.

Ou seja, houve um intervalo de mais de 10 dias entre uma coisa e a outra. Isso indica que a perda do neném foi algo espontâneo e não resultado da brutalidade do imperador. "Se houvesse um ato de violência praticado por D. Pedro, o óbito do feto seria anterior ao abortamento. Como sempre falo, não posso afirmar que D. Pedro nunca praticou violência física contra a esposa, mas podemos dizer que esta violência não causou a morte de D. Leopoldina", explicou a arqueóloga.


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