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As doenças e angústias de Santos Dumont através de cartas

Escritos pelo pai da aviação em meados de 1925, os documentos narram a relação entre o inventor, a esclerose e sua depressão

Pamela Malva Publicado em 06/01/2021, às 16h00

Fotografia de Santos Dumont
Fotografia de Santos Dumont - Wikimedia Commons

Sexto filho de um engenheiro formado em Paris, Alberto Santos Dumont sempre encontrou, no papel e na caneta, uma forma de se expressar. Através de rascunhos e esquemas, o pai da aviação criou algumas de suas mais importantes invenções.

Conhecido nacionalmente pelo famoso 14-Bis, o mineiro acompanhou de perto quando sua criação passou a ser utilizada como uma arma de guerra. A aplicação dos aviões em conflitos, segundo algumas teorias, foi uma das maiores decepções de Dumont.

Tendo voado pela primeira vez em 1906, o inventor acabou sendo diagnosticado com esclerose múltipla. Em poucos anos, ele foi dominado por uma depressão avassaladora e recorreu aos antigos papel e caneta para expressar suas angústias.

Fotografia de Santos Dumont em meados de 1922 / Crédito: Wikimedia Commons

 

Cartas nunca antes vistas

Em outubro de 2017, a EPTV, afiliada da TV Globo, teve acesso a cartas inéditas escritas por Santos Dumont em meados de 1925. Já bastante abatido pela doença, que comprometia sua coordenação motora, o mineiro escreveu sobre seus dias.

Nunca antes divulgadas, as correspondências foram encontradas no acervo do Aeroclube da França. Nelas, Santos Dumont fala sobre o desenvolvimento da doença e ainda demonstra sinais de uma sorrateira depressão.

Redigidas em francês, as cartas foram escritas entre janeiro e maio de 1925 e enviadas para Georges Besançon, um amigo próximo de Dumont, que ainda foi ex-secretário do Aeroclube da França. No final, elas narram um período delicado da vida do mineiro.

As duas cartas escritas em janeiro e março / Crédito: Divulgação/Aéro-Club de France

 

Doença ingrata

Foi em meados de 1910 que a saúde de Dumont começou a decair e ele acabou sendo diagnosticado com esclerose múltipla. Naquela época, o inventor, que estava morando na Europa, decidiu voltar para o Brasil, abrigando-se em Petrópolis, no Rio de Janeiro.

De 1915, quando se mudou, em diante, foi a vez da saúde mental de Dumont entrar em colapso. De repente, o inventor viu-se em uma profunda depressão. Dez anos mais tarde, ele escreveu as cartas para seu querido amigo Besançon.

Na primeira das correspondências, redigida em 15 de janeiro de 1925, Dumont ainda está morando em sua casa no Rio. Entre pedidos de favores, o inventor explica ao amigo que está se sentindo melhor e que, agora, tem um novo tratamento em mente.

Ambas as cartas escritas em abril / Crédito: Divulgação/Aéro-Club de France

 

Águas que curam

Ao final da primeira carta divulgada em 2017, Dumont narra que tentará cuidar de sua doença através de águas termais. "Em 10 dias, parto para as águas sulfurosas, que têm bastante rádio, e eu espero que elas me façam bem", conta o mineiro.

O problema é que, meses mais tarde, o pai da aviação conta que o tratamento não funcionou como ele esperava. "Estive nas águas boas para os nervos, mas elas me trouxeram um efeito contrário: um mês e meio na cama!!", narra, indignado.

Nesta segunda carta, escrita em 9 de março, Dumont ainda conta ao amigo que estava "extremamente magro, como um esqueleto". Entre alguns outros pedidos, o inventor pede desculpas a Besançon, já que não conseguiria viajar para Paris, como de costume.

A última carta das encontradas em 2017 / Crédito: Divulgação/Aéro-Club de France

 

Sozinho e cansado

A próxima carta foi escrita apenas em abril, no dia 02. Nela, Dumont narra que sua saúde piorou bastante desde a última correspondência. "Eu fiquei 52 dias de cama em São Paulo na casa da minha irmã", conta ao amigo.

No texto, o inventor ainda pede desculpas pelos eventos aos quais não poderá comparecer. "Minha saúde ainda não vai muito bem e, no momento, eu ainda não sei se vou conseguir visitá-los esse ano", lamenta. Por fim, ele ainda pede que 500 francos sejam enviados para a filha do Chapim, que iria se casar.

No final de abril, mais uma carta, escrita no dia 29, retrata um dos principais sintomas da esclerose. Cansado e bastante angustiado, Dumont reclama dos ruídos que escuta em seu ouvido e pede que o amigo lhe envie duas latas de "Quies". "São bolas de algodão que coloco nos ouvidos e bloqueiam o barulho", explica, em francês.

Enterro de Santos Dumont / Crédito: Wikimedia Commons

 

Fim do pioneiro

A última das cartas, escrita em 7 de maio, foi enviada para a senhora Besançon, esposa de Georges. Na correspondência, Dumont agradece o carinho e afirma que está "um pouco melhor", mesmo não podendo mais viajar para Paris.

Sete anos mais tarde, deprimido com o advento dos aviões na Revolta de 1932, Santos Dumont sucumbiu à depressão. No dia 23 de julho daquele ano, o pai da aviação suicidou-se no quarto do hotel em São Paulo onde estava hospedado, aos 59 anos.

Aquele foi o fim de longos anos cheios de ruídos no ouvido e de uma angústia inexplicável. Muitos dizem que grande parte da depressão vinha do homem que inventou, mesmo sem saber, uma arma que causou milhares de mortes em guerras.


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