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O lado controverso do cientista: as polêmicas anotações de Albert Einstein

O diário de viagem de Einstein revelou uma série de depoimentos que causaram indignação

Joseane Pereira Publicado em 15/06/2020, às 13h23

Imagem colorizada de Einstein
Imagem colorizada de Einstein - Getty Images

Em 1919, aos 40 anos, Einstein se casou com sua prima Elsa Löwenthal. Na época, ele já era reconhecido como um proeminente pesquisador, sendo convidado a dar palestras e participar de eventos ao redor do mundo. Entre outubro de 1922 e março de 1923, os dois empreenderam viagens pela Ásia e Oriente Médio, registradas pelo cientista em diários pessoais.

Publicados recentemente pela Princeton University Press com o título The Travel Diaries of Albert Einstein: The Far East, Palestine, and Spain, 1922-1923 (“Os Diários de Viagem de Albert Einstein: O Extremo Oriente, Palestina e Espanha, 1922-1923”), tais escritos revelam que Einstein tinha opiniões altamente racistas e xenofóbicas com relação aos povos não europeus.

Após chegar à cidade de Porto Said, no Egito, o físico registrou ter se deparado com “levantinos de todas as tonalidades, como se fossem vomitados do inferno”. Ele se referia aos povos do Levante, região extensa do Oriente Médio, que entravam no navio para comercializar produtos. Seu susto com a população do Ceilão (atual Sri Lanka) não foi menor, quando ele comentou que “vivem no chão, em grande imundície e considerável fedor”.

Mas nenhum dos apontamentos se igualou ao dos povos chineses, cujas crianças eram “sem espírito e obtusas”. O país, para o cientista, era uma “nação peculiar com cara de rebanho” onde homens e mulheres tinham poucas diferenças entre si e eram “mais parecidos com autômatos do que com gente”.

Segundo ele, seria “uma pena se os chineses suplantassem todas as outras raças”. Tais pensamentos, que contradizem sua figura de líder humanitário, na verdade refletem a mentalidade científica de toda a Europa em fins do século 19 e durante a primeira metade do século 20.

Nessa época, Einstein era mais um dos vários estudiosos que consideravam o pensamento ocidental o mais avançado de todos os tempos. Segundo Francisco Assis de Queiroz, professor de História da Ciência da Universidade de São Paulo, existia no período “um ambiente intelectual com concepções advindas de uma degeneração do Darwinismo, redundando no que se chamou de Darwinismo Social” ligado à expansão neocolonialista das potências europeias sobre povos da África, Ásia e Américas. “E nessa empreitada imperialista/colonialista buscou-se o aval da ciência para justificar ideologicamente o projeto colonizador.”

Massacrar outros povos e dominar seus territórios ficava mais fácil quando até os cientistas acreditavam que os europeus eram a raça superior por excelência. Além do Darwinismo Social, outra teoria propagada na época foi a Eugenia, cunhada em 1883 pelo antropólogo e matemático inglês Francis Galton.

Como explica o professor Francisco, essa linha de pensamento defendia que a evolução da espécie humana só pode acontecer através de incentivo: “De um lado, da proliferação dos melhores indivíduos do grupo social (Eugenia Positiva) e, de outro, a limitação da fecundidade dos piores (Eugenia Negativa)”.

No início do século 20, sociedades eugênicas surgiam em vários países da Europa e nos Estados Unidos, fomentando as práticas de controle racial do pós-guerra e atuando como uma semente para a ascensão, na Alemanha nazista, das teorias sobre pureza racial.

Os comentários sobre povos da Ásia e Oriente Médio mostram que Einstein compreendia o mundo através das lentes de seu tempo histórico, reproduzindo as concepções colonialistas e racistas de uma Europa em expansão.

Entretanto, experiências posteriores sugerem uma transformação interessante na maneira de pensar do cientista, que também acabou sendo vítima de sistemas opressores. 

De olhos abertos

Em 1933, dez anos depois de escrever suas impressões controversas em seus diários de viagem, Albert Einstein voltava para Berlim após uma visita ao Instituto de Tecnologia da Califórnia, em Pasadena, como professor convidado.

Suas expedições aos Estados Unidos, além de proporcionarem a oportunidade de se expressar como cientista, também lhe abriam os olhos para a assustadora segregação entre negros e brancos levada a cabo nos espaços públicos norte-americanos.

E foi ainda no navio que ele e sua esposa receberam a notícia de que Adolf Hitler chegava ao poder na Alemanha através da Lei de Habilitação do Reichstag. O que, na prática, significava que eles não podiam mais voltar para casa.  Com a transformação do governo de Hitler em uma ditadura legal, Berlim se tornava um local perigoso para judeus – fossem eles pobres ou ilustres intelectuais.

A casa de Einstein e Elsa seria invadida pelos nazistas e transformada em um acampamento da juventude de Hitler, e na noite de 10 de maio de 1933, durante a famosa queima de livros idealizada pelo ministro Joseph Goebbels, a teoria da relatividade de Einstein acabaria ardendo na fogueira junto com a produção artística e científica de outros intelectuais “degenerados”.

Milhares de alemães assistiram ao evento com inegável aprovação, aglomerados em meio às cinzas de obras queimadas que voavam pelo ar, enquanto Goebbels discursava sobre a pretensa “reeducação” e “purificação” do país. Sem um lar permanente e sem ideia de onde trabalhar, Einstein residiu na Bélgica e Inglaterra por curtos períodos, acabando por retornar aos EUA após receber o convite para trabalhar no Instituto de Estudos Avançados em Princeton, Nova Jersey.

Ter sido vítima da segregação de seu próprio povo foi, na vida do cientista, a transformação final em sua maneira de pensar e agir. “A derrota do nazismo e o conhecimento dos terríveis experimentos e extermínio de judeus e outros grupos humanos nos campos de concentração representaram um duro golpe na ideia de superioridade racial. Isso vai ter impacto e levar a uma mudança de mentalidade geral”, afirma o professor de História da Ciência.

Juntando-se à Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor, nos EUA, Einstein contribuiu ativamente para a diminuição da intolerância racial no país, e, em 1946, discursando na Lincoln University, na Pensilvânia, uma universidade historicamente negra, o cientista descreveu o racismo como uma “doença de pessoas brancas”.

Através de sua própria experiência como algoz e vítima, Albert Einstein forneceu ao mundo uma lição de resistência. “Einstein expressa em determinado momento ideias presentes na sociedade em que vivia, mas depois aprende com a História e a própria experiência vivida; afinal, ele também foi vítima do nazismo”, afirma o professor Francisco. “Mas o que fica dessa personalidade é a sua grandeza na luta contra regimes autoritários, pela paz, por sociedades mais pacíficas, democráticas e igualitárias.”