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Violência e falta de privacidade: os horrores do sexo no cangaço

Estupros eram uma realidade recorrente, assim como gritos e gemidos podiam ser ouvidos por praticamente todo o bando

Vanessa Centamori Publicado em 13/05/2020, às 15h30

O casal Dadá e Corisco
O casal Dadá e Corisco - Wikimedia Commons

Um dos mitos mais comuns sobre os cangaceiros, que aterrorizaram o Nordeste entre 1930 e 1940, eram que eles eram seguidos por mulheres aventureiras com motivo e vontade própria. Maria Bonita pode ter até se tornado cangaceira porque quis, mas a regra que imperava na maioria das vezes era a da subserviência sexual.

Muitas das mulheres do bando eram sequestradas e forçadas ainda crianças a viverem uma rotina violenta com constantes estupros. O sexo era muitas vezes forçado. E as integrantes que tentavam fugir daquela vida errante eram assassinadas.

As que ficavam viúvas, por sua vez, então eram destinadas a outro “dono” entre os cabras, voltando a sofrer os abusos. Tinham sorte se alguma vez transaram porque assim desejaram. 

Mulheres cangaceiras / Crédito: Wikimedia Commons 

 

Estupros

Em entrevista ao site Nexo, Adriana Negreiros, a autora do livro Maria Bonita – sexo, violência e mulheres no cangaço (2018), contou que a violência sexual entre os cangaceiros era usada como uma espécie de arma contra as mulheres.

Não havia só estupradores entre os cabras do cangaço, como também nas equipes policiais, que participavam igualmente dos abusos. As mulheres, muitas vezes, eram usadas para punir os homens.

"Era muito comum estuprar a filha de alguém para dar uma lição a um sertanejo que havia dado guarida a cangaceiro, ou então a um sertanejo que houvesse denunciado o paradeiro dos cangaceiros para a polícia", explicou Negreiros. 

Conduta sexual

Estupros à parte, quando um sexo propriamente dito ocorria, havia uma espécie de código de conduta sexual, adotado a partir de superstições. Segundo Negreiros, uma dessas crenças desaconselhava relações sexuais às sextas-feiras ou em vésperas de mudanças. Os cangaceiros então só pegavam a estrada três dias depois do sexo.

Tais relações ocorriam somente quando todos se certificavam que não havia animais por perto. Além disso, antes de transarem, os homens, "em respeito ao Pai Eterno" tiravam do pescoço colares com saquinhos que eles carregavam, contendo orações para vários santos — Lampião tinha 8 deles. 

Então, os cabras iniciavam a sua atividade, debaixo de um toldo rústico. Privacidade era pouca. Dava até para ouvir os gemidos do casal do toldo vizinho. "Às vezes, acontecia de alguém acordar no meio da madrugada tomando por rugido de onça o que era gemido de acasalamento", descreveu a escritora. 

Maria Gomes de Oliveira, também conhecida como Maria de Déa e Maria Bonita / Crédito: Wikimedia Commons

 

Nos barracos cobertos, a escuridão da noite e o luar davam conta de esquentar o clima. Os cabras assim fingiam que estavam a sós com as mulheres. Elas, por sua vez, eram as mais preocupadas com higiene envolvendo a vida sexual.

Mesmo que a água no sertão fosse escassa, um pouco era guardado por elas para cuidar das partes íntimas. Tal gesto não era recíproco, de modo que os homens sujos arriscavam as damas a vários tipos de doenças sexualmente transmissíveis. Um desses males era a gonorreia, tradicionalmente tratada com sumo caseiro feito de ovo e doze limões.

Homens solteiros 

Enquanto o sexo barulhento e desinibido ocorria, cangaceiros solteiros dormiam em barracas distantes. Mas eles guardavam seus desejos para situações específicas, na companhia de prostitutas. 

Os cangaceiros que não eram comprometidos buscavam as profissionais do sexo conhecidas como mulheres de ponta de rua. Elas eram levadas para as caatingas, onde ofereciam seus serviços. Uma das mais conhecidas delas foi Santinha, de Piranhas, moça negra que supostamente teve um affair com o cangaceiro Corisco. 

Corisco / Crédito: Wikimedia Commons 

 

Homofobia 

Segundo o livro de Paulo Sérgio do Carmo, Prazeres e pecados do sexo na história do Brasil (2019), Dadá, mulher de Corisco, jamais soube sobre nenhum caso de homossexualidade no bando. Só foi informada da existência desse assunto anos depois de ter saído do Cangaço, já morando em Salvador.

Em entrevista, ela disse que “se por acaso existisse homem afeminado no bando, o Capitão matava na hora”. Ainda segundo o pesquisador Antônio Amaury Corrêa Filho, realmente não há nenhum registro que comprove que houve relações homossexuais no cangaço. Se teve algum desejo gay entre os cangaceiros, ele provavelmente ficou reprimido. 

Traições

Entre as várias condutas sexuais adotadas pelos cangaceiros, estava jamais transar com a mulher do outro. Também não se podia colocar os pés onde um cabra com chifre havia pisado. Olhar então, nem se fala. 

Assim, nenhum cangaceiro ousava seduzir Maria Bonita, apesar da sua famosa beleza. Por exemplo, certa vez um deles percebeu que a esposa do patrão se banhava em um riacho. Então rapidamente virou o chapéu para tapar a visão e partiu depressa dali.

Mas claro, vez ou outra, traições de fato ocorriam — isso quando a coisa não era ainda pior e um cangaceiro estuprava uma mulher comprometida. Até porque o sexo não era sempre consensual no sertão.


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