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Governo polonês critica Netflix por cometer “erro histórico” em documentário sobre o Holocausto

O primeiro-ministro da Polônia redigiu uma carta ao CEO da empresa de streaming por imprecisão em mapa da série "The Devil Next Door"

Fabio Previdelli Publicado em 12/11/2019, às 14h00

Entrada do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau
Entrada do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau - Getty Images

Mateusz Morawiecki, primeiro-ministro da Polônia, divulgou ontem, 11, uma carta oficial ao CEO da Netflix, Reed Hastings, solicitando que a empresa corrija “erros históricos” sobre o Holocausto contido na série documental O Monstro ao Lado, que narra o insólito julgamento de John Demjanjuk, que foi acusado de ser o sádico Ivan, o Terrível, um guarda dos campos de Sobibor e Treblinka.

O premiê polonês reclama de “um mapa que coloca falsamente vários campos de concentração nazistas dentro das fronteiras da Polônia moderna". Isso determina que a Polônia seria responsável pelos campos de extermínio, quando, na verdade, o país foi ocupado pela Alemanha na Segunda Guerra Mundial, explica Morawiecki.

"Talvez para os criadores seja um erro insignificante, mas é muito prejudicial para a Polônia [...] Não há nenhum comentário ou explicação de que esses campos foram operados pela Alemanha”, diz o primeiro-ministro em carta publicada em sua página no Facebook, na qual afirma ser importante "honrar a memória e preservar a verdade sobre a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto”.

Morawiecki  também anexou um mapa da Europa no final de 1942 à carta, bem como um relato de Witold Pilecki, que foi preso voluntariamente em Auschwitz e escreveu sobre suas experiências depois de escapar com sucesso.

Capa do documentário The Devil Next Door, que narra o caso de John Demjanjuk / Crédito: Netflix

 

O Premiê acrescentou que o mapa leva os telespectadores a acreditarem que a Polônia foi responsável por estabelecer e manter esses campos e por cometer os crimes neles. "Como meu país nem existia na época como um estado independente, e milhões de poloneses foram assassinados nesses campos, esse elemento do 'The Devil Next Door' não é nada menos do que reescrever a história".

"Acredito que esse erro terrível tenha sido cometido sem querer", acrescentou o primeiro-ministro. Em entrevista à Reuters, um porta-voz da Netflix disse que estava ciente das preocupações com o documentário e afirmou que a empresa já iniciou uma verificação de fatos em caráter de urgência.

Criticas sobre a série já existiam

Essa não foi a única critica que a empresa de streaming recebeu sobre os erros em 'The Devil Next Door'. No dia anterior, 10, o Ministério das Relações Exteriores da Polônia também criticou os erros na delimitação da fronteira:

Reprodução do tweet do Ministério das Relações Exteriores da Polônia / Crédito: Reprodução Twitter

 

“@Netflix mantenha-se fiel aos fatos históricos! Durante o tempo relatado na série ‘The Devil Next Door’, o território da Polônia foi ocupado e a Alemanha foi responsável pelos campos. O mapa relatado na série não reflete as fronteiras reais naquele momento”.

O Twitter do Memorial de Auschwitz também comentou o caso. Primeiro, eles celebraram a filmagem sobre um fato historicamente importante. Mas, eles também criticaram a falta de precisão da produção, apontando erros na colocação geográfica dos campos de Chelmno e Majdanke.

Reprodução do tweet do Memorial de Auschwitz / Crédito: Reprodução Twitter

 

“@netflix, ‘Devil next door’ conta uma história importante. No entanto, não apenas mostra um mapa da Europa Central com fronteiras pós-guerra (não ocupadas durante o período da guerra), mas também os locais dos campos de Chelmno e Majdanek estão simplesmente errados. Pode-se esperar mais precisão nessa produção”.

No ano passado, a Polônia introduziu leis que criminalizam quem descreve como "campos poloneses", ou qualquer outra linguagem que implique à Polônia as reponsabilidades pelas atrocidades cometidas pela Alemanha Nazista. No entanto, um protesto internacional levou o governo a remover a ameaça de pena de prisão de três anos para quem cometesse tal ato.

As criticas partiram, principalmente, de Israel, alegando que a medida poderia ser usada para obscurecer o envolvimento de poloneses em crimes nazistas contras judeus e outros civis durante a após a guerra. Em 1941, os aldeões poloneses em Jedwabne, talvez por instigação dos nazistas, reuniram mais de 300 de seus vizinhos judeus e os queimaram vivos em um celeiro.