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Tom Phillips: A Babaquice de Cádis ou Como os Britânicos não Invadiram a Espanha

Conheça um trecho do hilário “Humanos: Uma História de Como F*demos com Tudo”

Tom Phillips Publicado em 14/11/2018, às 13h00 - Atualizado às 18h14

Soldados do século 18 bebendo; provavelmente a recepção aos ingleses não foi tão amigável
Soldados do século 18 bebendo; provavelmente a recepção aos ingleses não foi tão amigável - Francesco Vinea

Como este é um livro sobre fracassos, acho que não preciso explicar que todas as guerras são, de certa forma, enormes fracassos de alguém. Porém, apesar de elas já serem péssimas por si só, o caos, a visão limitada e as bobagens chauvinistas desses confrontos realmente aumentam a capacidade inata da humanidade de fracassar em muitos outros sentidos. A guerra faz o sangue de todo mundo subir à cabeça; em outras palavras, é quando fodemos com tudo.

Nenhum exemplo deixa isso mais claro do que a merecidamente comemorada Batalha de Cádis, que deveria ser rebatizada como a Babaquice de Cádis. Em 1625, os ingleses resolveram que queriam foder de vez com os espanhóis. O rei Jaime VI e I (aquele famoso por unificar o reino, comissionar a Bíblia e caçar bruxas) tinha acabado de morrer, deixando seu filho adulto, Carlos I, em seu lugar. Carlos — demonstrando todo o tato e o bom senso que acabariam fazendo com que perdesse a cabeça — implicava com a Espanha desde que o rei de lá não permitira que ele se casasse com uma de suas princesas e queria se vingar. Então, ele e seus amigos resolveram botar pra quebrar e organizar algumas expedições piratas para roubar todo o ouro e a prata que os espanhóis traziam das Américas.

Em novembro daquele ano, cem navios e quinze mil soldados de uma expedição conjunta dos ingleses e holandeses entraram na baía de Cádis, no sudoeste espanhol. Eles estavam lá para saquear e não sairiam com os bolsos vazios. Sim, eles só foram para Cádis porque eram tão desorganizados que perderam a frota espanhola e seu tesouro enquanto eles voltavam do Novo Mundo, mas mesmo assim. Agora era a hora da vingança.

Infelizmente, já estava claro, antes de eles chegarem à baía, que não tinham levado comida e bebida suficientes. Então, quando as forças invasoras ancoraram, o comandante da expedição, Sir Edward Cecil, deixou que as tropas famintas dessem prioridade a encontrar alimentos antes de, você sabe, travar qualquer batalha. E aí os soldados fizeram aquilo que os ingleses sempre fazem quando estão em terras estrangeiras: foram direto para os armazéns de vinho. E começaram a encher a cara.

Quando descobriu que o exército inteiro estava bêbado, Cecil tomou a sensata decisão de abandonar o plano, ordenando que os homens batessem em retirada para os navios e voltassem para casa, humilhados. A maioria obedeceu depois de certo tempo, mas uns mil deles estavam tão bêbados que continuaram vagabundeando por Cádis até as autoridades espanholas aparecerem e executarem todo mundo.

E foi assim que os ingleses não conseguiram invadir Cádis.

Essa história geralmente aparece nas listas de maiores fracassos militares de todos os tempos — mas, para ser sincero, se ignorarmos a parte das pessoas sendo executadas, parece ter sido bem divertido. Você chega a um lugar, não come o suficiente, enche a cara e perde alguns amigos pelo caminho: é um clássico das férias. Se, em vez de travarmos guerras, a gente tivesse o hábito de mandar grupos enormes de pessoas para outros países para beberem vinho e passearem pelas cidades, o mundo seria um lugar muito, muito mais feliz. Se bem que, agora que escrevi isso, me ocorreu que esse é basicamente o motivo de a União Europeia existir.


* Esta matéria é um trecho de Humanos: Uma História de Como F*demos com Tudo. Veja aqui a resenha.