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66 dias de confinamento: os efeitos da gripe espanhola na cidade de São Paulo

Em 1918, a capital paulista enfrentou uma pandemia comparável ao coronavírus

Penélope Coelho Publicado em 06/04/2020, às 15h08

Enfermaria improvisada na cidade de São Paulo
Enfermaria improvisada na cidade de São Paulo - Divulgação

Ao longo dos 466 anos da cidade de São Paulo, diversas doenças tiveram grande impacto na população. A varíola, febre amarela, cólera, poliomielite, meningite e tuberculose são algumas delas. Porém, a que mais se aproximou com a pandemia que estamos vivendo no atual momento, causada pelo coronavírus, foi a gripe espanhola. No ano de 1918, a doença infectou 500 milhões de pessoas em todo mundo, contabilizando um quarto da população mundial da época.

A doença chegou ao país através dos navios, as cidades portuárias eram as primeiras a serem afetadas, como Recife, Salvador e Rio de Janeiro. A gripe espanhola chegou à capital paulista através de um jogador de futebol carioca, no meio de outubro daquele ano. O homem se dirigiu a cidade para uma partida, no entanto, alguns jogadores ficaram com febre e o jogo foi cancelado, mas, sem muita importância para o acontecimento. Depois disso, a doença se alastrou.

Capa do jornal Gazeta de Noticias sobre a situação do Rio de Janeiro em 1918 / Crédito: Biblioteca Nacional

 

Situação da capital paulista

São Paulo era uma cidade em ascensão, em 1918 a população da cidade já passava de 500 mil, o progresso era constante e todos estavam muito focados no trabalho para acreditar nas notícias sobre a doença. Como consequência, a gripe se espalhou rapidamente, e a primeira morte aconteceu ainda em outubro.

Percebendo outros Estados do Brasil em colapso, com a imprensa cobrando providências, as autoridades paulistas decidiram que era hora da capital parar. No dia 1 de novembro daquele ano as mortes em São Paulo já passavam de 100. O Serviço Sanitário solicitou que a população não saísse mais de casa. Foram 66 dias de confinamento, com escolas, centros comerciais e transporte público - fechados.

As recomendações das autoridades eram para que as pessoas evitassem aglomerações, lavassem suas mãos com frequência e não fizessem muito contato físico, exatamente o que está sendo dito atualmente.

Toda ajuda é bem vinda

Os sintomas apresentados eram de uma gripe comum, porém, como era algo novo na época, a gripe espanhola não tinha uma cura. Então, os tratamentos eram, em sua maioria, intuitivos. Muitas pessoas morreram nessa espera, e a consequência disso foram os hospitais lotados. Nesse período delicado, a população tentava se ajudar na medida do possível. Os enterros também foram feitos de maneira isolada, como os que estão acontecendo agora com o coronavírus.

Algumas empresas enviavam ajuda financeira, escoteiros da cidade se organizavam em uma tropa especial para a entrega de remédios, clubes e associações cederam seu espaço para a construção de hospitais de emergência.

Enquanto isso, as mortes já tomavam conta das ruas, e os bondes foram usados como carros fúnebres. As funerárias da cidade entraram em uma crise por alta demanda, muitos coveiros morreram contaminados pelo vírus.

Pessoas mortas nas ruas sendo observadas por policiais / Crédito: Biblioteca Nacional

 

A recuperação

Diante de um de seus piores anos, a cidade de São Paulo teve em torno de 5.300 mortes registradas e mais de mil desaparecidos. Mesmo sem cura até hoje, a gripe espanhola foi enfraquecendo em dezembro de 1918 no Brasil, sendo tema de enredo do carnaval no ano seguinte. 

Uma das explicações para o declínio da doença é a de que os médicos se tornaram mais eficazes no tratamento da pneumonia que ela causava, ou, que o vírus havia sofrido uma mutação rápida e começou a agir de maneira menos letal.

Teorias à parte, cerca de 250 mil pessoas morreram no Reino Unido, 400 mil na França e Alemanha, em Portugal foram 120 mil mortos. Nos Estados Unidos, entre 500 mil e 675 mil pessoas morreram por causa da gripe.

A cidade de São Paulo recuperou sua normalidade aos poucos, quando as fábricas voltaram a funcionar e o comércio e as foram escolas reabrindo. Mais de 100 anos depois, a população paulista está enfrentando novamente um momento de caos. As políticas de prevenção e contenção de vírus como esses mudaram pouco. Porém, com avanço da medicina, o que se espera é que a cidade não sofra tanto como em 1918.


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