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A fatídica morte de Rudolf Anderson — e como ela pode ter evitado uma catástrofe nuclear

Durante a Crise dos Mísseis em Cuba, Anderson foi a única vítima fatal em combate, mudando completamente o capítulo mais perigoso da Guerra Fria

Vanessa Centamori Publicado em 29/06/2020, às 15h39

Rudolf Anderson Jr.
Rudolf Anderson Jr. - Wikimedia Commons

Na década de 1960, a eminência de uma ameaça nuclear e a consequente destruição do planeta pairavam sombriamente na imaginação do mundo todo. O temor de que a Guerra Fria esquentasse era gigante — e o inferno desse imaginário chegou mais perto da realidade com a Crise dos Míseis em Cuba, iniciada em outubro de 1962. 

Fez parte desse confronto, que durou 13 dias, e envolveu os Estados Unidos e a União Soviética, o major norte-americano Rudolf Anderson Jr., de 35 anos de idade. O homem esteve, no dia 14 de outubro daquele ano, em uma das primeiras missões em Cuba, que detectou mísseis soviéticos ameaçando o continente americano a apenas 145 quilômetros de distância. 

No dia seguinte, as imagens dos mísseis foram analisadas pela CIA, agência norte-americana que reconheceu os projéteis da URSS. O resultado: o começo da Crise, que aumentou a tensão entre as duas maiores potências nucleares do planeta.

Cinco operações depois em Cuba, a sexta, intitulada missão 3127, seria a mais perigosa de todas para os norte-americanos. Anderson não estava escalado para o arriscado voo, mas insistiu em enfrentar o espaço aéreo cubano, área que era alinhada à URSS. 

Base de lançamentos de mísseis em Cuba, em 1962 /Crédito: Wikimedia Commons 

 

O episódio fatídico

O major Rudolf Anderson decolou da Base Aérea McCoy, em Orlando, na Flórida. Assim que adentrou o céu cubano, os soviéticos ficaram na espreita, vigiando o avião espião U-2 do norte-americano. O pontinho do veículo aéreo que piscava no radar soviético era motivo de grande preocupação, já que Anderson podia estar fotografando depósitos secretos de armas nucleares. 

 "Nosso convidado está lá há mais de uma hora", disse na ocasião o tenente-general Stepan Grechko, a um deputado, segundo informou o site History. "Acho que devemos dar ordem para derrubá-lo, pois está descobrindo nossas posições em profundidade." 

Dito e feito: Grechko não tinha autorização para isso, mas na ausência de um superior, ordenou que mirassem no alvo número 33, isto é, em Rudolf Anderson. Foram dois mísseis lançados, sendo que os estilhaços de um deles atingiu a cabine de pilotagem do major.

O traje de voo e o capacete do americano não escaparam, e ele morreu na hora, com uma trágica descompressão em grandes altitudes. Seu avião caiu destruído na vila de Veguitas, perto de Banes. Para os soviéticos, a morte do soldado significou mais um alvo abatido; pros americanos, uma grande tormenta; mas, para o mundo, um motivo de redenção. 

John F. Kennedy, presidente dos Estados Unidos durante a Guerra Fria /Crédito: Wikimedia Commons 

 

Repercussão 

Em 31 de outubro de 1962, o secretário interino das Nações Unidas, U Thant anunciou que o major Anderson estava morto. À princípio, para os líderes militares dos Estados Unidos, a morte do rapaz de 35 anos foi um insulto, que deveria ter uma resposta à altura. Exerceram então grande pressão no presidente dos EUA, John F. Kennedy. 

Só que o estadista não quis investir em mais ostensivas. Ele suspeitava (e estava correto) que o líder soviético Nikita Khrushchev não tinha autorizado a queda de aviões de reconhecimento desarmados. Naquele momento, o americano e o soviético viram algo em comum: a guerra estava saindo do controle. 

Kennedy temia pela destruição total do planeta ou ainda por uma Terceira Guerra Mundial, que poderia começar diante de ataques nucleares diretos com a morte de Rudolf Anderson. Uma resposta ofensiva seria arriscada: podia não sobrar ninguém vivo para contar a história.

"Não é o primeiro passo que me preocupa, mas ambos os lados escalam para o quarto ou quinto passo e não vamos para o sexto porque não há ninguém por perto para fazê-lo", alertou ele naquela época, a seus conselheiros.

Placa em homenagem a Rudolf Anderson /Crédito: Wikimedia Commons 

 

Medidas adotadas 

O presidente Kennedy começou a se movimentar de modo diplomático. Enviou seu irmão em um encontro com o embaixador soviético Anatoly Dobrynin. A URSS concordou em remover seus mísseis de Cuba; em troca, os EUA tiveram que remover seus projéteis da Turquia e não invadir a ilha da América Central. Acabava então, em 28 de outubro, o capítulo mais tenso da Guerra Fria.  

Rudolf Anderson foi a única vítima fatal do conflito em Cuba. Ele era casado e deixava dois filhos pequenos, de 5 e 3 anos, sendo um deles da mesma idade do filho do presidente dos EUA. Tocado pela questão pessoal, o chefe de estado enviou uma carta à viúva do major falecido, que estava grávida de dois meses. 

Além disso, Kennedy premiou Anderson postumamente com uma Cruz da Força Aérea, bem como com a Medalha de Serviço Distinto e o Prêmio Cheney. Restos da aeronave em que ele estava quando morreu estão em duas instituições em Cuba, o Museu da Lucha contra Bandidos, em Trinidad; e o Museu da Revolução, em Havana.

O corpo de Rudolf Anderson foi liberado pelos cubanos e o piloto foi enterrado em sua cidade natal, Greenville, onde foi homenageado em 1963, com um memorial. O ponto de recordação conta sua história de vida e fatos gerais sobre a Crise dos Mísseis de Cuba. 


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