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A história, os desafios e a luta por igualdade: a saga das mulheres

A batalha das mulheres por dignidade no mundo do trabalho adentra o século 21 com uma extensa pauta de reivindicações

Raphaela de Campos Mello Publicado em 08/03/2021, às 10h01

A luta por igualdade sempre existiu
A luta por igualdade sempre existiu - Domínio Público

A história da humanidade está repleta de tragédias anunciadas. Uma delas, transcorrida no dia 25 de março de 1911, foi o incêndio na Triangle Shirtwaist Company, em Nova York. Fatalidade que matou 146 pessoas – 125 mulheres e 21 homens – e escancarou as bárbaras condições de trabalho no mundo operário, sobretudo para a população feminina.

Os rastros da tragédia /Crédito: Wikimedia Commons

 

Se para os homens era degradante trabalhar numa fábrica durante a Revolução Industrial, para as mulheres era ainda pior. Muitos associam o incêndio trágico de 1911 ao surgimento do 8 de Março como o Dia Internacional da Mulher – oficializado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1975. No entanto, a luta feminina por melhores condições de trabalho é anterior ao evento fatal e diferentes episódios marcantes já foram considerados motivadores da efeméride.

No fim do século 18, a Europa fervilhava em meio às discussões iluministas que desembocaram na Revolução Francesa. Ali questionamentos mais organizados começaram a tomar forma com objetivo de denunciar a realidade desumana em que as mulheres viviam e de reivindicar não só melhores condições de labuta como também igualdade econômica e política em relação aos homens.

Direito ao voto, acesso à educação e equidade salarial formavam o tripé dos direitos então reivindicados. Na Comuna de Paris, de 1871, as mulheres não só pegaram nas armas efetivamente como também se organizaram para que suas necessidades fossem ouvidas e atendidas.

“Elas promoveram creches e escolas igualitárias, além de terem conquistado a igualdade civil entre homens e mulheres”, lembra a historiadora Luiza Tonon da Silva, doutoranda em História Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

A virada do século 19 para o 20 foi o momento do “basta”. As mulheres estavam fartas das jornadas de 16 horas diárias, seis dias por semana e salários pífios – menos da metade do que era pago aos homens. Ainda pariam e amamentavam em meio às máquinas. O descontentamento justificado levou 1500 americanas às ruas em maio de 1908.

Em fevereiro do ano seguinte, 15 mil mulheres ocuparam o centro de Nova York e ainda realizaram uma greve têxtil que paralisou cerca de 500 fábricas.

Em agosto de 1910, a Segunda Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, realizada na Dinamarca, reuniu mais de 100 representantes de 17 países, entre elas, a líder feminista alemã Clara Zetkin.

Nas pautas debatidas, estava a criação de uma jornada anual de manifestações pelo direito das mulheres ao voto e à igualdade de gênero, além da abertura do movimento sindical e socialista para as desigualdades enfrentadas pelas mulheres enquanto grupo profissional.

Conquistas na Revolução Russa

O clima de revolta e luta prosseguiu nos anos seguintes até finalmente chegar o dia 8 de março de 1917 (23 de fevereiro, segundo o calendário Juliano, adotado pela Rússia até então). Nessa data, aproximadamente 90 mil operárias russas manifestaram-se em São Petersburgo contra o czar Nicolau II, as más condições de trabalho, a fome e a participação do país na Primeira Guerra Mundial.

Nicolau II em imagem colorizada /Crédito: Divulgação/Kliblim

 

Batizado de “Pão e Paz”, o protesto, encabeçado por mulheres, extrapolou a questão de gênero e acabou precipitando nada menos do que a Revolução Russa, que eclodiria em outubro daquele ano e colocaria os bolcheviques no poder, alterando o cenário político e social a favor da parcela feminina da população.

“Meses após a Revolução Russa, o novo regime colocou homens e mulheres em igualdade nas leis, legalizou o aborto seguro e gratuito, implantou creches em período integral, licença-maternidade e o direito ao divórcio. Além disso, construiu lavanderias e refeitórios coletivos, regulamentou a jornada de oito horas diárias de trabalho e fomentou a participação das mulheres nos estudos e na vida pública”, lista a historiadora e doutoranda em História pela Uerj.

Luiza lembra ainda que, na Rússia revolucionária, mulheres ocupavam cargos de chefias políticas e, na Segunda Guerra Mundial, foram as primeiras aviadoras e atiradoras de elite nos combates contra os nazistas.

O restante do mundo ocidental demorou um pouco mais, mas acabou, na segunda metade do século 20, seguindo o exemplo da Rússia Socialista e implementando boa parte dessas mudanças.

No Brasil, a luta feminina ganhou força com o movimento das sufragistas, nas décadas de 1920 e 30, que conseguiram o direito ao voto em 1932, na Constituição promulgada por Getúlio Vargas.

A partir dos anos 1970, emergiram no país organizações que passaram a incluir na pauta das discussões a igualdade entre os gêneros, a sexualidade e a saúde da mulher.

O impulso das guerras

Se a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais convocaram os homens em idade produtiva para os campos de batalha, também solicitaram que, em caráter emergencial, as mulheres ocupassem os postos de trabalho masculinos, principalmente na indústria.

O icônico cartaz de uma mulher vestida de macacão, exibindo o bíceps, com o lema: “We can do it”, deu o tom da campanha governamental que varreu os Estados Unidos e encorajou milhares de mulheres a assumir o trabalho assalariado fora de casa nos anos 1940.

A propaganda seguiu a seguinte lógica de convencimento: “Se você consegue usar um mixer na cozinha, também é capaz de manejar uma rebitadora na fábrica”. O desafio soou como prova de superação e fonte de autoestima.

Era necessário que a indústria bélica seguisse a todo o vapor produzindo armamentos, munição e suprimentos para os soldados – e os braços femininos foram providenciais naquele momento.

Para que as trabalhadoras pudessem conciliar a labuta nas fábricas e a maternidade, a sororidade – termo tão atual, que diz respeito ao sentimento de irmandade e solidariedade entre mulheres – foi fundamental no sentido de colocar ordem nas demandas domésticas e liberar a mulher para o trabalho.

Algumas trabalhadoras optaram por partilhar a mesma moradia para reduzir custos e dividir tarefas. Inclusive, uma cuidava dos filhos da outra e vice-versa, pois trabalhavam em turnos alternados justamente para se revezarem nos cuidados infantis.

Estudos feministas mostram que a entrada massiva de mulheres nas fábricas durante esse período acabou fortalecendo a luta pela igualdade de direitos registrada nas décadas posteriores.

Ainda que, após o fim da Segunda Guerra, o governo americano tenha convencido boa parte dessas mulheres a retornar aos seus lares e vestir novamente os papéis tradicionais de mães e esposas.

Com os homens de volta ao batente, elas eram novamente necessárias como o centro vital da família, como propagandeou o discurso oficial e as campanhas publicitárias interessadas na venda de eletrodomésticos.

“As guerras, infelizmente, tão numerosas e importantes no século 20, estiveram relacionadas às mudanças na condição feminina no mundo, porém, a meu ver, a maior barganha nas leis para os trabalhadores e trabalhadoras nos países capitalistas – como o Brasil na Era Vargas – se deu justamente pela existência dos socialistas”, opina Luiza Tonon da Silva.

Emancipação em massa

Nas décadas seguintes, os movimentos pela emancipação feminina continuaram abrindo caminhos nas sociedades ocidentais, até atingirem um pico nos anos 1970. O reflexo disso se fez sentir também no mundo profissional, que absorveu um batalhão de mulheres instruídas e independentes, liberadas, em boa medida, pelo uso da pílula anticoncepcional.

No entanto, é preciso também destacar o papel das mulheres negras e pobres, sobretudo no Brasil, que, por trabalharem como empregadas domésticas e babás, possibilitaram que as mulheres das classes privilegiadas se dedicassem à carreira.

“Precisamos pensar como raça, classe e gênero se entrecruzam e se combinam gerando diferentes formas de exclusão”, alerta Djamila Ribeiro, mestre em Filosofia Política pela Unifesp, ativista feminista e do movimento negro e autora de Quem Tem Medo do Feminismo Negro? (ed. Companhia das Letras).

Se no Brasil as mulheres negras ofereceram esse suporte estratégico, nos Estados Unidos foram as latino-americanas e, na Europa, as trabalhadoras advindas dos países europeus menos desenvolvidos.

Uma mão de obra barata, informal e garantida. Assim se estruturou a grande “invasão” da mulher no mercado de trabalho. No artigo intitulado A Importância do Trabalho, publicado em 1979, a jornalista, escritora e ativista feminista Gloria Steinem comenta que, no final dos anos 1970, o The Wall Street Journal criou uma série de reportagens que documentava e caracterizava esse fenômeno como a maior mudança no cotidiano dos americanos desde a Revolução Industrial.

Gloria, por sua vez, ironiza: “Muitas mulheres receberam a série de reportagens e a definição com cinismo. Afinal de contas, as mulheres sempre trabalharam. Se todo o trabalho produtivo que elas realizam no lar, pela manutenção do bem-estar de outros seres humanos, recebesse o valor monetário que lhe é devido, o Produto Nacional Bruto (PNB) subiria em 26%”.

O que para o The Wall Street Journal foi visto como um boom digno de registro, para a ativista feminista era “parte de um longo processo de integração”, que, segundo ela, só será verdadeiramente equalizado quando todo o trabalho produtivo for, de fato, remunerado e os homens, integrados no mundo feminino da mesma forma que as mulheres forem incluídas no mundo masculino.

Mulheres trabalham desde sempre

Na visão da historiadora Luiza Tonon da Silva, as mulheres trabalham fora do ambiente doméstico desde sempre. A impressão de que a atuação feminina no mundo do trabalho é muito mais recente se deve ao recorte social.

“Esse entendimento toma por base um número bastante reduzido de mulheres, as da elite. No caso do Brasil, das mulheres brancas de uma elite muito pequena frente ao grande número de trabalhadoras livres e escravizadas, em maior parte negras e indígenas”, aponta Luiza.

Enquanto as cristãs e casadas se dedicavam ao cuidado do lar, as mulheres das camadas populares enfrentavam uma realidade bem diferente. “No dia a dia estavam em canaviais carregando pesados fardos, casadas ou não, muitas vezes violentadas e objetificadas, trabalhando sob o sol, amamentando filhos que não eram seus, cuidando de suas barracas e vendendo produtos nas cidades, dentre tantos outros afazeres dentro e fora dos lares”, relembra.

Se retrocedermos alguns milênios, ampliaremos ainda mais a perspectiva do mundo laboral feminino. No Egito Antigo, há registros de mulheres médicas. Na Mesopotâmia Antiga, mulheres eram cervejeiras.

Em várias sociedades elas exerciam o ofício de sacerdotisas, e muitas eram escravas e realizavam tarefas variadas nos lares e fora deles, como artesãs ou agricultoras. Por séculos, nos quatro cantos do mundo, as mulheres trabalhavam junto com os homens em todas as tarefas do meio rural, onde a maior parte da população residia.

“A ideia de que existe um trabalho delicado e feminino, próprio para as mulheres, historicamente é uma contradição, já que isso não se aplicou à maioria delas, que, como os homens, chegam a seus lares cansadas, mas que, diferentemente deles, ainda têm uma nova jornada de trabalho depois de abrir a porta de casa”, observa a historiadora.

Desigualdade de gênero no trabalho doméstico

Uma voz vem denunciando o desequilíbrio entre lida doméstica e atuação profissional ainda tão presente nos lares contemporâneos. Ela pertence à historiadora, filósofa e militante feminista italiana Silvia Federici, autora de obras como Calibã e a Bruxa e O Ponto Zero da Revolução – Trabalho Doméstico, Reprodução e Luta Feminista (ed. Elefante), coletânea de artigos publicados a partir dos anos 1970 até os dias atuais.

Silvia Federici /Crédito: Divulgação

 

A falta de reconhecimento – e, portanto, de remuneração – do trabalho doméstico é, segundo Silvia Federici, um ponto central da luta feminina e tem a ver com o processo histórico de derrocada do feudalismo e expansão do capitalismo.

Nessa transição, o cultivo coletivo da terra como fonte de subsistência e a partilha comunitária dos afazeres diários abriu espaço para a busca individual por um salário.

Na visão da estudiosa, essa mudança histórica impôs a submissão do corpo e dos potenciais femininos às demandas do capital conforme a consolidação do sistema calcado no livre mercado.

É a mulher quem não só reproduz (e que portanto gera mão de obra produtora de riqueza para o sistema) como também é responsável pela manutenção da família e da casa para que o homem possa trabalhar. E, claro, se ela também trabalha, acaba sobrecarregada por jornadas duplas ou triplas, incluindo a obrigação de atender às necessidades sexuais dos parceiros.

Um esquema, denuncia a autora, que foi crucial para o desenvolvimento e prosperidade do capitalismo ao longo da História. Só que o ônus dessa divisão desbalanceada de deveres continua recaindo sobre uma única parcela da população.

Segundo a ONU, as mulheres ainda enfrentam desigualdades no acesso a empregos dignos e à educação de qualidade, sobretudo porque gastam mais tempo do que os homens em tarefas domésticas – elas passam até 2,5 vezes mais tempo do que eles cuidando da casa e de parentes, sem receber nada por isso.

De acordo com dados do IBGE de 2018, a mulher brasileira gasta, em média, 21 horas de sua semana em trabalho doméstico, enquanto o homem se ocupa por dez horas nesse serviço, morando na mesma casa.

“Do ponto de vista do trabalho, nós podemos reivindicar não apenas um salário mas muitos salários, porque nós temos sido forçadas a trabalhar de várias maneiras. Nós somos donas de casa, prostitutas, enfermeiras, psiquiatras: a essência da esposa heroica celebrada no Dia das Mães”, escreve Silvia Federici.

Outro ponto que preocupa a filósofa e historiadora italiana é a naturalização desse papel como parte de uma suposta natureza feminina. Quando, na verdade, qualquer pessoa pode limpar, arrumar, cuidar, administrar, enfim, dar conta das tarefas básicas de sobrevivência.

Nesse sentido, o feminismo, para ela, não tem como propósito apenas melhorar a vida das mulheres, e sim criar um mundo livre de desigualdades e da exploração do trabalho humano.

No entanto, um estudo da Organização Internacional do Trabalho divulgado em 2019 estima que a desigualdade de gênero no trabalho doméstico só deve acabar em 2228 – se a divisão de tarefas continuar do jeito que está hoje. E ainda aponta a chamada “penalização profissional da maternidade”, ou seja, a dificuldade das mulheres que se tornam mães de permanecer no mercado de trabalho.

De acordo com a entidade, apenas 45,8% das mulheres com filhos pequenos estão empregadas, enquanto a taxa de ocupação entre as mulheres que não têm crianças é de 53,2%.

Comemorar ou lutar?

Em essência, o 8 de Março é uma data reivindicativa, e não comemorativa. E, infelizmente, segue dessa forma. A desigualdade de direitos e as frágeis condições de trabalho enfrentadas pelas mulheres ao redor do mundo continuam na pauta dos movimentos feministas.

Os números apurados pela ONU são contundentes. No mercado de trabalho, homens ganham em média 23% mais do que as mulheres por trabalhos de igual valor. Em certos segmentos populacionais, o índice sobe para 40%.

Além disso, mulheres têm 50% menos chances do que os homens de ter empregos remunerados em tempo integral. Elas estão super-representadas no trabalho vulnerável e informal, muitas vezes sem proteção social, e são sub-representadas na gestão do setor corporativo, detendo apenas 22% das posições seniores de liderança nas empresas.

Na América Latina, 78,1% das mulheres empregadas na região atuam em setores definidos como de baixa produtividade. São as áreas da atividade econômica com as piores remunerações, menor contato com novas tecnologias e, em muitos casos, empregos de baixa qualidade.

No Brasil, 45% dos lares são chefiados por mulheres, segundo pesquisa de 2018 do IBGE. Se elas ganham menos do que os homens, que perspectivas podem oferecer às suas famílias?

Para ter ideia do quanto avançamos e do quanto ainda nos falta evoluir enquanto sociedades, a Islândia é o único país do mundo que alcançou plena paridade nas oportunidades de trabalho para homens e mulheres, mas ainda não conseguiu a façanha de garantir igualdade de remunerações entre a população economicamente ativa de ambos os sexos.

Não à toa, em 2017, o tema escolhido pela ONU para lembrar o Dia Internacional da Mulher foi “Mulheres no Mundo do Trabalho em Evolução: Um Planeta 50-50 até 2030”. Falta uma década. Pouco provável que em dez anos as reivindicações tornadas públicas pelas mulheres há dois séculos sejam finalmente equalizadas.

“As mulheres ainda lutam por seu reconhecimento pleno no trabalho: não são pagas igual aos homens, sofrem assédios morais e sexuais no ambiente de trabalho e não são respeitadas enquanto gestantes e mães – apenas para citar alguns exemplos mais evidentes, que atingem grande parte das mulheres trabalhadoras, além dos inúmeros direitos ainda negados às mulheres pobres e à ameaça dos direitos conquistados serem destruídos”, denuncia a historiadora Luiza Tonon da Silva, da Uerj.

E a luta continua. Agora tendo as jovens mulheres feministas à frente das reinvindicações nas ruas e também nas redes sociais. Felizmente, elas já provaram que aprenderam a se organizar e a reclamar seus direitos como bem ensinaram suas corajosas antecessoras.