Matérias » Brasil

Angústia sem fim: conheça vítimas da ditadura militar brasileira que se suicidaram

O dominicano Frei Tito e Carlos Alexandre, que sofreu tortura com 1 ano e 8 meses, são duas vítimas prolongadas do regime militar

Joseane Pereira Publicado em 12/12/2019, às 08h00

Frei Tito, dominicano vítima da ditadura que se suicidou em 1973
Frei Tito, dominicano vítima da ditadura que se suicidou em 1973 - Wikimedia Commons

Uma das justificativas para mascarar a morte nos porões do Dops era afirmar que vítimas de tortura tinham cometido suicídio. Foi o caso do jornalista Vladimir Herzog e do líder estudantil Alexandre Vannucchi Leme, entre tantos outros. Mas, nos dois casos mostrados aqui, o suicídio realmente aconteceu — e foi anos após as torturas, em decorrência de traumas nunca superados.

CARLOS ALEXANDRE, TORTURADO QUANDO BEBÊ

Carlos Alexandre Azevedo, no colo dos pais / Crédito: Divulgação/Arquivo pessoal

 

Carlos era filho do jornalista Dermi Azevedo com a pedagoga Darcy Andozia, ambos militantes de esquerda. Era 15 de janeiro de 1974 quando a casa deles, na zona sul de São Paulo, foi invadida pela polícia e a criança de 1 ano e 8 meses foi enviada para a sede do Deops. Horas depois, sua mãe também iria para a tortura.

“Minha família nunca conseguiu se recuperar totalmente dos abusos sofridos durante a ditadura. Os meus pais foram presos e eu fui usado para pressioná-los”, afirmou Carlos Alexandre em 2010, durante entrevista para a Istoé. Em mais de 15 horas de aflição, a criança sofreu choques elétricos e levou tapas da equipe de policiais, liderada pelo delegado Sérgio Fleury. Um dos tapas foi tão forte que cortou seus lábios.

“Cacá apanhou porque estava chorando de fome. Os policiais falavam que, naquela idade, ele já era doutrinado e perigoso”, afirmou Darcy na mesma entrevista. Sua esposa completa: “Meses depois de sair da prisão, soube que o meu filho tinha sido vítima de choques elétricos e outras sevícias. Ele foi jogado no chão e bateu a cabeça. Maltratar um bebê é o suprassumo da crueldade”.

Dermi ficou seis meses preso no Deops, e Darcy, 45 dias.

O garoto cresceu retraído e agressivo, e não se recuperou mesmo após se mudar com a família para o Rio Grande do Norte, em maio de 1974. Diagnosticado com fobia social e tomando antidepressivos e antipsicóticos durante toda a vida, ele foi declarado “anistiado político” em 2010. Carlos Alexandre acabou cometendo suicídio em 17 de fevereiro de 2013, com 40 anos, após ingerir grande quantidade de remédios.

FREI TITO DE ALENCAR LIMA

Frei Tito, torturado pela Ditadura / Crédito: Wikimedia Commons

 

Em outubro de 1968, o frade católico foi fichado pela polícia após ter participado de um congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), na cidade de Ibiúna, interior de São Paulo. Um ano depois ele seria preso, por supostamente ter oferecido ajuda ao guerrilheiro Carlos Marighella e ter ajudado na organização do Congresso.

O primeiro episódio de tortura foi em 1969, no Dops, e o segundo durante a Operação Bandeirantes, em 1970. Policiais bateram sua cabeça na parece, queimaram sua pele, utilizaram o pau de arara e deram-lhe choques elétricos por todo o corpo — especialmente na boca, alegando que ele deveria “receber a hóstia”.

Exilado do Brasil durante o governo Médici, Tito fugiu para a Itália, seguindo para a França onde recebeu ajuda dos dominicanos. Em 1973, em um convento na vila francesa de L´Arbresle, ele diria ao frade francês Xavier Plassat: “Ouço gritos vindos de lá. São do delegado Sérgio Paranhos Fleury. Ele está torturando meus irmãos e prometeu que vai terminar pela minha mãe”.

No dia 10 de agosto daquele ano, o corpo de Frei Tito foi encontrado suspenso em uma árvore. Cometendo suicídio, ele foi enterrado na comuna francesa de Éveux, tendo seu corpo enviado ao Brasil em 1973. Livros e documentários sobre a história de Frei Tito foram publicados, levando muitos à compreensão sobre as atrocidades do regime militar brasileiro.


+Saiba mais sobre a ditadura militar através das obras abaixo:

1964: história do regime militar brasileiro, de Marcos Napolitano (2014) - https://amzn.to/2t6iAi8

As universidades e o regime militar: Cultura política brasileira e modernização autoritária, de Rodrigo Patto Sá Motta (2014) - https://amzn.to/2tbiXbm

Ditadura à brasileira: 1964-1985 a democracia golpeada à esquerda e à direita, de Marco Antonio Villa - https://amzn.to/34d8poZ

O que resta da ditadura: a exceção brasileira, de Vladimir Safatle - https://amzn.to/2qJ3H4w

Nos idos de março: A ditadura militar na voz de 18 autores brasileiros, de Luiz Ruffato (2013) - https://amzn.to/2RK07lP

Vale lembrar que os preços e a quantidade disponível dos produtos condizem com os da data da publicação deste post. Além disso, assinantes Amazon Prime recebem os produtos com mais rapidez e frete grátis, e a revista Aventuras na História pode ganhar uma parcela das vendas ou outro tipo de compensação pelos links nesta página.