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Ataque a Pearl Harbor: Por que o Japão atacou uma base norte-americana?

O episódio ocorrido há exatos 80 anos tem origens ainda no século 19, quando o Japão se abriu para influências do Ocidente

Redação Publicado em 07/12/2021, às 12h00

Fotografia mostrando uma das explosões em Pearl Harbor durante o bombardeio
Fotografia mostrando uma das explosões em Pearl Harbor durante o bombardeio - Domínio Público/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

Para entender por que o Japão atacou uma base norte-americana, provocando a entrada de uma potência continental na guerra que antes estava reservada ao sudeste da Ásia e à Europa, é necessário voltar alguns anos até o período em que o Japão adotou uma política expansionista que o levaria a se tornar aliado de Hitler e Mussolini.

Aliás, podemos voltar ao século 19, quando se iniciou a Era Meiji (1868-1912). Foi nessa era que o Japão começou a sair do feudalismo e se abrir para influências do Ocidente. O cinema, por exemplo, inventado em 1895, já chegou ao Japão no ano seguinte, graças a esse sentimento.

Mas quando se começa a olhar para fora, esse olhar pode se tornar manchado pela cobiça, e surge o desejo de ampliar territórios. Além disso, para a economia japonesa finalmente deslanchar, faltava ao império ter autossuficiência em petróleo, carvão, aço, ferro e outros minerais. E a única forma de os obter era conquistando áreas do Pacífico dominadas por europeus ou americanos, além da China, que no início do século estava dividida entre facções e era comumente o objetivo principal do império japonês.

Foi também na Era Meiji que ocorreu a Guerra russo-japonesa (1904-1905), travada pela disputa da Manchúria e da Coreia. Essa guerra, vencida pelos japoneses, mostrou ao mundo o poder militar do Japão, ao mesmo tempo que revelou a fragilidade do regime tsarista da Rússia. Essa fragilidade abriu caminho para a Revolução Russa de 1917, quando o socialismo assumiu o poder.

Representação do Imperador Meiji, do Japão / Crédito: Domínio Público/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

 

A União Soviética, por sinal, formada em 1922 como fruto dessa revolução, derrotou o Japão em sua tentativa de dominar o leste da Sibéria nos anos 1930. Do lado norte-americano, no final do século 19, após a Guerra Hispano-Americana, os vitoriosos Estados Unidos assumem o controle das Filipinas, acabando com sucesso o movimento interno para a independência do país e desagradando bastante ao Japão, sobretudo pelo incômodo de ter uma potência militar tão próxima de seus territórios.

No século 20 houve então uma crescente rivalidade entre Japão e Estados Unidos, que passava obviamente pelo objetivo do controle comercial da região. Antes mesmo da Primeira Guerra Mundial, oficiais militares dos EUA e do Japão previam que em algum momento poderia haver um sério conflito pelo controle das ilhas do Pacífico.

Após a Era Meiji, surge a Era Taisho (1912-1926), um período de grande fortalecimento cultural no Japão, mas também, na segunda década do século 20, de uma flagrante militarização da política japonesa, culminando nos primeiros anos da Era Showa (1926-1989), quando os militares se tornaram ainda mais poderosos, diminuindo a influência do imperador Hirohito, e o Japão passou a adotar uma política expansionista visando à constituição de um império panasiático. Esse expansionismo vinha de longe.

Já em 1895 o Japão tinha tomado Taiwan e alimentava o desejo de controlar a China continental. Tudo, claro, por questões econômicas. Para salvar sua economia, acreditava-se ser necessário expandir os territórios. Aumentou também uma postura contra estrangeiros, como resposta à ocidentalização do país nas eras Meiji e Taisho.

Assim, em 1931, houve a invasão da Manchúria, e em 1937 o início da Guerra Sino-Japonesa que durou até o fim da Segunda Guerra Mundial. Aproveitando-se da confusão que Hitler, com a ajuda de Mussolini, estava provocando na Europa, o Japão resolveu se apropriar do sentimento de revolta nas colônias europeias na Ásia para a construção de uma “Ásia para os asiáticos”, aliando-se a movimentos de independência na tentativa de aumentar o seu Império.

Fotografia de Hitler diante de seus exércitos / Crédito: Getty Images

 

Uma aliança com a Tailândia foi estabelecida em 1940, e em 1941 o Japão invadiu a Indochina francesa. Engana-se, porém, quem acredita que o Japão traria paz às colônias. O imperialismo japonês era brutal e, por vezes, cruel. Com o início da guerra na Europa, Churchill e Roosevelt tiveram alguns encontros mais ou menos secretos.

Neles, Roosevelt prometeu ajudar os aliados britânicos como podiam, mas sem envolvimento direto. Como os britânicos não eram mais capazes de controlar os avanços japoneses no sudeste da Ásia, a missão coube aos Estados Unidos, inicialmente com a moeda que lhes era mais conveniente, a dos embargos comerciais.

O expansionismo nipônico e a conquista de parte dos territórios da China e da Indochina também prejudicavam os interesses econômicos dos EUA, que controlavam as Filipinas e diversas ilhas da região. Para pressionar o Império do Sol Vermelho a um recuo em sua estratégia de dominação do Sudeste Asiático, os EUA então iniciaram, em julho de 1941, um embargo econômico de aço e petróleo contra o Japão, sabendo que o país importava a maior parte do que consumia desses bens.

Ao Japão, humilhado por tal embargo, só restavam duas alternativas: desistir de sua política expansionista ou entrar em guerra contra os Estados Unidos. Na situação política e econômica do país na época, a primeira alternativa era inviável, logo, por obra e gênio estratégico do almirante Yamamoto, o Japão resolveu atacar a base de Pearl Harbor em 7 de dezembro (no Japão, já era 8 de dezembro).

Apesar de um intervalo de mais de quatro meses de indecisões e despistes entre o embargo e o ataque, e o clima de que a qualquer momento a guerra deixaria de ser europeia e se tornaria mundial, os Estados Unidos, ou pelo menos a maior parte de sua população e as frotas militares do Pacífico, foram surpreendidos por esse evento, um pouco por subestimarem o poderio bélico nipônico à época.