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Winston Churchill: herói ou vilão?

Apesar da idolatria gerada por suas ações durante a Segunda Guerra, o primeiro-ministro britânico é criticado por diversas controvérsias em sua história

Sam Edwards/Tradução: Isabela Barreiros Publicado em 10/03/2020, às 14h43

O político britânico Winston Churchill
O político britânico Winston Churchill - Getty Images

Winston Churchill é novamente o assunto de um debate sobre reputação: o homem que já foi eleito o maior britânico em uma votação feita pela BBC ainda é um "herói"? Ou ele é, como afirmou o chanceler John McDonnell quando solicitado a escolher recentemente, um “vilão”?

Para ser claro, McDonnell estava se referindo especificamente às ações de Churchill durante os motins de Tonypandy de 1910, no quais ele implantou tropas para controlar os mineiros em greve, uma decisão que levou à morte de um homem. Mas tal nuance foi totalmente perdida na exaltação em curso, à medida que membros do parlamento de dos dois lados da câmara se alinharam para tornar sua posição conhecida.

Até mesmo alguns membros do Partido Trabalhista de McDonnell indicaram sua desaprovação, com o deputado do Parlamento Ian Austin declarando que Churchill era, de fato, "um verdadeiro herói britânico, o maior britânico de todos os tempos".

Em parte, a resposta raivosa está conectada ao fato de Churchill, o líder de guerra, — sempre uma figura de destaque na Grã-Bretanha — ter voltado recentemente aos olhos do público. Em 2017, ele foi assunto de dois filmes: Churchill, de Jonathan Teplitzky, e Darkest Hour, de Joe Wright. Ele também teve destaque em uma popular série da Netflix sobre Elizabeth II, The Crown (interpretado com prazer por John Lithgow).

Crédito: Getty Images

 

Cada uma dessas versões ofereceu aspectos variados de Churchill. Na visão de Teplitzky, — um tanto diferente da usual —, vemos um Churchill pré-dia D discordando cada vez mais de seus generais e assombrado pela história (especialmente seu papel no desastre em Gallipoli em 1915).

Mas, por todas as complexidades interessantes retratadas no filme de Teplitzky, é certamente revelador que o mais bem-sucedido dos dois filmes de 2017 foi o que forneceu uma visão muito mais familiar do “Winnie, o herói de guerra”. Assim que o caos do Brexit estourou, Darkest Hour levou as audiências de volta ao momento de crise de 1940, quando a Wehrmacht colidiu com o exército francês e a Europa caiu na tirania nazista.

Observamos Churchill, interpretado por Gary Oldman, reunindo as tropas — um trabalho onde o até o vemos — a uma cena irreal, em que conversa com as pessoas comuns no metrô de Londres. A resposta ao Churchill de Gary Oldman em Darkest Hour — uma atuação pela qual ele ganhou um Oscar — é um barômetro útil para entender a resposta cada vez mais irritada aos comentários de McDonnell.

Buldogue britânico

Na Grã-Bretanha — como afirma Darkest Hour —Churchill é amplamente relembrado como o herói de 1940, o homem que impediu a podridão da conciliação e do derrotismo e assegurou que a Grã-Bretanha e seu império pudessem —  e conseguissem — ser os únicos contra a Alemanha de Hitler.  Seu nome e imagem estão intrinsecamente associados a todas as outras características dos “dias sombrios” de 1940: Dunkirk, a Batalha da Grã-Bretanha, a Blitz.

Esse fato garantiu sua permanência e status na Grã-Bretanha (e em outros lugares). Também assegurou que, no imaginário popular, a história da vida de um homem que morreu em 1965 aos 90 anos — uma vida que também incluiu ser votado para fora do poder depois da guerra (e de volta em 1951) — fosse reduzida a poucos, embora épicos, meses.

Churchill foi o herói de 1940. Mas ele também foi o homem que enviou tropas a Tonypandy em 1910. Ele ainda autorizou o bombardeio na área de cidades alemãs (culminando no controverso ataque a Dresden em fevereiro de 1945, no qual dezenas de milhares de civis alemães foram mortos). Ele também foi o homem cujo fracasso em agir durante a Fome de 1943 em Bengala — na qual cerca de três milhões de indianos morreram — tornou-se controverso há muito tempo. Até alguns contemporâneos pensavam que ele tinha visões essencialmente vitorianas de raça e império, fato que levou alguns a questionar seus motivos.

Cena de extrema fome na Índia, em 1943 / Crédito: Getty Images

 

Essas são as complexidades do caráter que muitas das pessoas obstinadas que cultuam Churchill não podem — ou não querem — ver; enquanto para alguns, lançando críticas, relembrar infinitamente o herói de 1940 (e todos os mitos conectados, além de lendas sobre a guerra) é visto como um obstáculo para conceber uma nova visão para a Grã-Bretanha que não esteja presa ao passado.

 No clima político atual, claramente não há tempo para tais fatos ou nuances, e por isso Churchill se tornou um prisma através do qual toda a turbulência do Brexit e as divisões políticas que ele expôs tornam-se evidentemente aparentes.

Talvez uma oportunidade tenha sido perdida aqui. Pois, em algum lugar nos detalhes, poderia haver um Churchill que — na questão da Europa — muitos poderiam achar útil, de ambos os lados da divisão política. Uma característica importante do herói da década de 1940 foi que ele gastou quantidades significativas de energia organizando um retorno britânico ao continente europeu e, uma vez que a guerra foi vencida, ele até chamou pelos “Estados Unidos da Europa”.

Talvez esta seja a visão de Churchill necessária agora — um herói nacional (imperfeito e falho) resolutamente comprometido com amigos e vizinhos europeus.


Sam Edwards é professor sênior de História na Universidade Metropolitana de Manchester. Este artigo foi republicado no The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original aqui.


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