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Milagre de Natal: Uma trégua inesperada durante a Primeira Guerra

Os alemães decoraram suas trincheiras com motivos natalinos e ao ver aquilo os ingleses fizeram o mesmo

M. R. Terci Publicado em 25/12/2019, às 07h00

The Illustrated London News de 9 de janeiro de 1915: "Capacete de troca de braço em braço de soldados britânicos e alemães: uma trégua de Natal entre trincheiras opostas"
The Illustrated London News de 9 de janeiro de 1915: "Capacete de troca de braço em braço de soldados britânicos e alemães: uma trégua de Natal entre trincheiras opostas" - Wikimedia Commons

No dia de Natal de 1914, as sentinelas na trincheira alemã cantaram Stille Nacht, Heilige Nacht. Mas assim que entoaram os primeiros versos da canção, os franceses começaram a disparar furiosamente, imaginando se tratar do começo de um ataque. Pouco depois, pararam de atirar quando perceberam que a música – em sua tradução, Noite Tranquila, Noite Santa – era relacionada ao Natal.

O soldado alemão Bernhard Lehnert, do 4º Exército Alemão, assim completa o relato da troca de canções natalinas com os franceses em Flandres ocidental: “Quando terminamos a nossa cantiga, os franceses cantaram a Marselhesa, e assim passamos o Natal de 1914”.

Paradoxalmente em meio ao derramamento de sangue sem precedentes de uma guerra cada vez mais cruel, em datas mais significativas como o Natal, soldados comuns, despejados nas linhas de frente pelos seus comandantes, adotavam algumas relações informais de cortesia em relação aos seus inimigos.

Na mesma época em que franceses e alemães cantavam a plenos pulmões em Fladres, na região de Ypres, na Bélgica, nas trincheiras onde estavam combatendo ingleses e alemães, situação semelhante ocorreu quando uma trégua não oficial foi decretada pelos próprios soldados.

Os alemães decoraram suas trincheiras com motivos natalinos. Ao ver aquilo os ingleses fizeram o mesmo. Os alemães, então, entoaram cantigas natalinas alemãs, gesto que seus vizinhos beligerantes imitaram.

Durante a pausa inusitada no combate, os soldados entediados começaram a conversar aos berros com seus inimigos. Logo uma competição de cantoria se elevou na chamada Terra de Ninguém – termo utilizado para definir o território não ocupado e em disputa entre trincheiras.

O soldado raso Graham Willians, da Brigada de Fuzileiros de Londres, descreve o início de tudo: “De repente, luzes começaram a aparecer ao longo da balaústra alemã, e estava claro que eram árvores de Natal improvisadas, adornadas com velas acesas que ardiam no ar silencioso e gélido. Outras sentinelas viram a mesma coisa e acordaram os soldados adormecidos nos abrigos. Os alemães começaram a cantar e quando terminaram sua cantiga, nós achamos que deveríamos responder de alguma maneira, por isso cantamos The First Nowell, e assim que terminamos, todos eles começaram a aplaudir”.

Os alemães, então, cantaram outro de seus hinos de Natal, O Tannenbaum, efusivamente aplaudido pelos ingleses que por sua vez iniciaram Oh Come All Ye Faithfull e os alemães imediatamente se juntaram a eles, pois conheciam a letra da canção. Duas nações cantando o mesmo hino durante uma guerra.

E formalizado o cessar fogo com bandeirolas brancas, os soldados ingleses e alemães se reuniram para confraternizar e se presentearam com permutas de tabaco e bebidas. O resultado foi uma longa comemoração natalina de seis dias. 

Tropas britânicas e alemãs reunidas na terra de ninguém / Crédito: Wikimedia Commons

 

Em Flandres, François Guilhem, do 296º Regimento de Infantaria, parte do contingente francês que servia de apoio aos soldados nas linhas de frente, descreve aquela noite: “Jamais vou me esquecer daquela noite de Natal. Sob o luar claro como o dia, e com a neve tão dura que dava até para quebrar pedras, estávamos subindo por volta das dez da noite, carregando lenha para os companheiros nas trincheiras. Vocês podem imaginar nosso espanto quando ouvimos os chucrutes cantando hinos em suas trincheiras e nossos homens nas deles. Toda essa cantoria por parte de milhares de homens em uma zona rural foi realmente mágica”.

O espetáculo de ambas as celebrações natalinas, em Flandres e em Ypres, realizadas entre inimigos e sem o consentimento de seus generais, perturbou tanto os oficiais comandantes de ambos os lados que, nos anos seguintes da Grande Guerra, os bombardeiros de artilharia foram intensificados na véspera de Natal a fim de se evitar repetição do suposto milagre de Natal. 

Mesmo com as proibições, deserções e confraternizações entre soldados de diferentes nacionalidades voltaram a ocorrer, sempre na véspera do Natal. No decorrer do ano de 1916, no front, frequentemente soldados franceses e alemães travavam contato amigável, demonstrando a criação de laços de fraternidade entre os antigos inimigos. Notadamente, as baixas diminuíram e os avanços territoriais cessaram.

Na Terra de Ninguém, o futebol também servia de motivo para uma pausa na máquina da guerra. Longe do arbítrio de seus oficiais, partidas eram disputadas entre os soldados franceses e ingleses.

Boa vontade e solidariedade se tornavam frequentes entre os homens que eram obrigados a guerrear contra sua vontade.

Apesar de todo contexto histórico e geopolítico envolvido na Primeira Grande Guerra, alguns historiadores não descartam que tais ocorrências foram também causa que levou os beligerantes a encontrarem um caminho para o fim da guerra.


M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.


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