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Como o Reino Unido e a França moldaram o Oriente Médio dos dias atuais

Duas grandes potências colonizadoras, fabricaram identidades impossíveis e traçaram fronteiras discutíveis

Paola Orlovas, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 29/10/2021, às 12h24

Imagem meramente ilustrativa de Jordânia
Imagem meramente ilustrativa de Jordânia - Imagem de Dimitris Vetsikas por Pixabay

Em abril de 1920, duas grandes potências militares europeias da época, o Reino Unido e a França, se reuniram em uma pequena cidade da riviera italiana para fazer parte de um importante evento diplomático no curso da história do Oriente Médio, que até então se preocupava com as consequências do domínio otomano.

Se tratava da Conferência de San Remo, que deu à França o domínio sob a Síria e o Líbano, e deixou o comando do Iraque e da Palestina com o Reino Unido. 

Os países europeus já haviam firmado a divisão quatro anos antes, por meio de uma reunião secreta, onde foi feito o Acordo de Sykes-Picot, assinado pelo britânico Sir Mark Sykes e pelo francês François Georges-Picot, com consentimento da Rússia, segundo a BBC Brasil.

A decisão foi oficializada e trazida a público, no entanto, apenas durante a semana de 19 até 26 de abril de 1920, em San Remo. 

Documentos do Acordo de Skyes-Picot, feito em segredo
Documentos do Acordo de Skyes-Picot, feito em segredo / Wikimedia Commons

 

As consequências do marco, que se deu há 101 anos, são enormes, e segundo o professor de Ciência Política da Universidade de Cergy-Pontoise e especialista em Oriente MédioJean-Paul Chagnollaud, as ações dos colonizadores influenciam o continente até hoje.

“Por muitos anos a França e a Grã-Bretanha tomaram decisões que acabaram criando Estados sem nações, porque as nações não tinham o direito de se expressar”, disse em entrevista para a BBC. 

Embora os britânicos tenham prometido aos árabes e mulçumanos liberdade durante o período da Primeira Guerra Mundial, enquanto auxiliavam o esforço militar contra o Império Otomano — adversário do Reino Unido no conflito, que dominava as terras desses países — e ter os assegurado que teriam autonomia após a derrota otomana, não foi o caso. 

Militares otomanos que estavam sob o comando de Jerusálem são detidos por soldados britânicos, em 1917
Militares otomanos que estavam sob o comando de Jerusálem são detidos por soldados britânicos, em 1917 / Wikimedia Commons

 

Após a desintegração do Império Otomano, a Liga das Nações supervisionou a criação de mandatos franceses e britânicos no território dos países que pensavam que seriam soberanos.

A Grã-Bretanha teria feito promessas para muitos grupos étnicos, assim como a França, e não havia forma de manter o que havia sido estipulado com cada um desses países. 

"Os britânicos ajudaram os árabes da região a se rebelarem contra o domínio otomano, mas durante a guerra eles fizeram promessas a diferentes grupos", diz a historiadora Priya Satia, que é especialista em Império Britânico. "Eles prometeram aos árabes que poderiam governar independentemente a Palestina, prometeram aos franceses que dividiriam alguns dos territórios com eles e há ainda a promessa que fizeram com a Declaração de Balfour", explica.

Para além disso, também havia a Declaração Balfour, assinada pelo governo britânico em novembro de 1917, durante a Primeira Guerra Mundial. O documento estipulava a criação de um “lar” para o povo judeu na região da Palestina.

Com isso, estados comandados pelas potências passaram a ter diferentes funções religiosas: enquanto a Palestina se tornaria um espaço para um grande número de judeus, o Líbano virou um refúgio para cristãos, o Vale do Beca um lar para mulçumanos xiitas e a Síria um local para mulçumanos sunitas. 

Ilustração do Vale do Beca em 1857
Ilustração do Vale do Beca em 1857 / Wikimedia Commons

 

Mas essas fronteiras e identidades foram manufaturadas pelos europeus, que não tinham conhecimento prévio algum da região, e por isso não foram capazes de respeitar grupos étnicos, religiosos e tribais que já estavam presentes há mais tempo.