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Conceição da Costa Neves, a mãe dos leprosos

Conheça a trajetória da fundadora do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e o seu importante papel na luta contra a estigmatização da doença

Fabio Previdelli Publicado em 22/11/2019, às 09h55

Conceição da Costa Neves durante seu período como parlarmentar
Conceição da Costa Neves durante seu período como parlarmentar - Divulgação / Assembleia Legislativa de São Paulo

Maria da Conceição da Costa Neves nasceu na cidade mineira de Juiz de Fora em 17 de outubro de 1908. Filha de Manoel da Costa Neves e Maria do Espírito Santo Neves, a jovem fez sua estreia no teatro aos 21 anos usando o nome artístico de Regina Maura. Na ocasião, ela estrelou a comédia ‘Dinheiro anda por ai’, uma adaptação de Procópio Ferreira de uma peça alemã.

Aclamada pela crítica especializada da época, percorreu o país atuando em diversas peças cômicas — que era considerada sua especialidade. Sua atuação incomparável lhe rendeu o título de rainha das atrizes, prêmio entregue por Lourival Fontes (secretário da Prefeitura do Distrito Federal) em cerimônia realizada nas dependências do Teatro João Caetano, no centro do Rio de Janeiro.

Ainda na década de 1930, se mudou para São Paulo ao lado de Procópio Ferreira, com qual mantinha um relacionamento. Entretanto, a relação dos dois não durou muito tempo, e em 1938, ela se casou com o médico Matheus Galdi Santamaria.

Nova vida

Por conta do matrimônio, Regina Maura abandonou a vida nos palcos e adotou o nome de Conceição da Costa Neves. Durante a Segunda Guerra Mundial, entre 1943 e 1945, foi diretora da Cruz Vermelha Brasileira — pela qual também foi samaritana e monitora.

Nesse mesmo período, fundou a Associação Paulista de Assistência ao Doente de Lepra, se tornando uma importante peça na luta contra a estigmatização da doença. Por ser uma das únicas defensoras das vitimas, ela se tornou muito popular. Em 19 de janeiro de 1947 foi eleita deputada estadual pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) — do qual foi uma das fundadoras.

Sendo a terceira mais votada, e única mulher eleita, com 12,119 votos, Conceição da Costa Neves ajudou a elaborar a Constituição Federal. Em seu trabalho na Assembleia, se tornou forte defensora dos doentes de hanseníase (que na época era conhecida como lepra) e de seus familiares a partir da criação de leis que garantissem o direito desses indivíduos.

Primeira CPI

Ela também foi responsável por investigar os quatro leprosários existentes no Estado e denunciar com grande afinco as péssimas condições e descasos das autoridades governamentais que eram responsáveis pela saúde pública em São Paulo.

As acusações eram tão fortes que um promotor pediu licença à Assembleia para denunciar Conceição por injúria e calúnia. Entretanto, as investigações resultaram na publicação de um relatório que é considerado a primeiro CPI (Comissão Parlamentar por Inquérito) do legislativo paulista.

Ela foi reeleita outras duas vezes pelo mesmo partido nas eleições de 1950 e 1954. Já pelo Partido Social Democrata (PDS) teve outros dois mandatos (1958 e 1962). Entre 1960 e 1963 foi eleita vice-presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo (ALESP), e com uma viagem do presidente Roberto Costa de Abreu Sodré ao exterior, tornou-se a primeira mulher a presidir um parlamento estadual no Brasil.

Com o início da ditadura em 1964, houve o fim do pluripartidarismo e, como consequência, Conceição da Costa Neves se tornou uma das fundadoras do partido Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que fazia oposição aos militares.

Conceição ainda ficaria marcada por um áspero debate político que teve em julho de 1967 com o coronel da reserva da Aeronáutica, Francisco Américo Fontenelle. O militar foi responsável pela implementação do chamado Operação Bandeirante, a maior e mais polêmica mudança já feita no trânsito ao longo da história da cidade de São Paulo.

O acalorado debate levou Fontenelle a ter um mal súbito. Mesmo sendo levado às pressas ao Pronto Socorro da Barra Funda, ele chegou ao local sem vida.

Com o decreto do Ato Institucional Nº 5, Neves teve seu mandato cassado em 17 de outubro de 1969 — uma sádica e proposital coincidência com o dia de seu aniversário. Assim como outros 26 deputados, ela tem seus direitos políticos suspensos por 10 anos. Na década de 1970 participou do movimento de Anistia, que exigia punição pelos atos do regime de exceção.

Maria da Conceição da Costa Neves faleceu dia 15 de julho de 1989, em seu apartamento no centro de São Paulo, vítima de um infarto no agudo do miocárdio. Considerada por muitos como a mãe dos leprosos, até hoje ela é reconhecida pelos seus trabalhos nas áreas de assistência social, saúde e educação.

Diante dessa trajetória, o documentário “Hanseníase Hoje e Sempre”, produzido pela Editora Caras com o apoio do Facebook Journalism Project e do ICFJ – Internacional Center for Journalists, traz relatos de médicos e pacientes, tanto da época em que a internação era compulsória, quanto de hoje em dia.

Confira o teaser do documentário abaixo.