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O bizarro caso da piscina com uma suástica encontrada no Brasil

Entusiasta do Terceiro Reich, um ex-professor batizou seu filho com o nome de Adolf — uma atitude que assustaria e constrangeria muitos, mas que para ele conferiria ao seu descendente uma honrosa incumbência

M. R. Terci - Coluna Publicado em 18/08/2020, às 17h00

Imagem que ficou conhecida da piscina com suástica
Imagem que ficou conhecida da piscina com suástica - Divulgação

Toda alma quer ser verão. E o verão de todo mundo pede um mergulho numa piscina.

Mas na região rural de Pomerode, em Santa Catarina, uma piscina se transformou no centro de uma bizarra polêmica quando a tripulação de um helicóptero da polícia flagrou um achado espantoso. Mas o que há de tão diferente por lá?

A vida de Pugliesi

Quando faz muito calor em Pomerode, a família e amigos passam os fins de semana no campo, na casa de Wandercy Antônio Pugliesi, um professor que fez sua vida como titular em alguns dos mais importantes cursos pré-vestibulares de Santa Catarina. 

Pugliesi possui essa pequena e aprazível estância, no alto de um morro repleto de exuberante vegetação. À beira da piscina, as noites se estendem, o ar é transparente e convidativo e, enquanto grelham costelas e bebem cerveja, os convidados comungam das histórias da cidade mais alemã do Brasil e da companhia do carismático educador.

Imagem da piscina com a suástica / Crédito: Divulgação

 

Muito querido e atencioso, Wander Pugliesi — como é conhecido na localidade — era o tipo do professor que fazia seus alunos se apaixonarem pelas matérias ministradas em sala de aula. Desde 2014, contudo, o educador deixou o velho ofício de semear as mentes dos mais jovens para se dedicar ao plantio de cogumelos que comercializa junto aos restaurantes locais.

Um homem comum, de hábitos simples e com uma vida tranquila. Nada tirava o bom docente do sério. Nenhuma queixa, nenhum elogio, era capaz de demover a energia que empregava no mister de cultivar amizades e olhares de admiração.

Bom, pelo menos dada até aquela tarde de 02 de dezembro de 2014.

Segredo revelado

O comandante Humberto Damásio Costa sobrevoava a região rural de Pomerode, levando, à bordo de seu helicóptero, uma equipe da Diretoria Estadual de Investigações Criminais (DEIC), de Florianópolis. A equipe fora acionada para trabalhar em um caso do sequestro que envolvia o marido de uma gerente bancária na cidade vizinha de Rio dos Cedros.

Ao realizar a manobra de ascensão para ultrapassar a copa alta das árvores, a tripulação do helicóptero avistou um símbolo nazista destoando da paisagem de Pomerode.

“No alto de uns morros avistamos uma casa onde deu para ver o que parecia ser uma suástica. Aproximei e vimos a cruz no fundo da piscina. Pedi para meu copiloto tirar uma foto e seguimos viagem”, relatou o comandante Humberto em entrevista à mídia local.

Adolf Hitler discursando em 1934 / Crédito: Wikimedia Commons

 

Submersos na piscina, azulejos em azul escuro formavam o desenho de uma suástica em contraste com o azul mais claro de todo o resto. Humberto mostrou a imagem a repórteres que estavam em frente à Delegacia de Rio dos Cedros cobrindo o sequestro. A imagem foi publicada e viralizou. As atenções se voltaram a Pomerode, “a cidade mais alemã do Brasil” e aquele personagem bastante querido na região.

Ninguém, além do ex-professor de história é capaz de dizer há quanto tempo a piscina é decorada com a suástica nazista. A residência de Pugliesi fica no alto de um morro e é impossível ser vista da estrada.

Além do mais, os vizinhos mais próximos vivem a mais de um quilômetro de distância. E Pugliese teria se mudado para a zona rural de Pomerode há cerca de 18 anos. Os vizinhos afirmam, até os dias de hoje, que o professor aposentado leva uma vida reservada, mas, desde que veio morar na localidade, já sabiam de uma coleção de objetos da Alemanha nazista na casa.

Fato é que, após a divulgação da imagem de uma suástica em sua piscina, o antigo educador acabou sendo denunciado e investigado pelas autoridades locais. Em tempo, a polícia da cidade avaliou o caso e disse que o dono da casa não seria enquadrado em crime algum, isto porque não fazia nenhum tipo de apologia ao nazismo publicamente. Como a piscina fica dentro da residência, não há, de fato, caracterização do crime.

Em suas aulas, contudo, alguns estudantes relataram que muitas delas eras suspeitas e pesadas. Quando o desenho da piscina de Pugliesi virou notícia, logo se iniciou uma batalha de opiniões nas redes sociais — que eram encabeçadas por antigos companheiros do docente e por ex-alunos de Wander.

"Ele nunca, jamais foi preconceituoso. Dizia que existem dois lados da verdade e que as informações são manipuladas, mas nunca achei que fez apologia. No meu ponto de vista, ninguém saiu prejudicado", mencionou uma de suas antigas alunas em entrevista ao Zero Hora.

Edson Felipe Grillo, diretor do curso pré-vestibular Acesso, em Blumenau, onde Wander Pugliesi lecionava, eventualmente disse que o professor é do tipo que faz o aluno pensar. O descrevendo como alguém “de extremo respeito, ético e honesto”, mas que já foi alvo de queixas de alunos devido às posições políticas — o que, segundo ele, não é exclusividade de Pugliesi.

No colégio Energia, em Blumenau, onde ministrou aulas de história até 2010, também era muito querido pelos alunos. Queixas eventuais seriam, da mesma forma, referentes às posições políticas, mas não em relação à predileção pelo nazismo. O professor tinha uma personalidade forte, mas jamais tentou fazer a cabeça de seus alunos. Até aquela tarde de 2014, Pugliesi parecia não se importar com polêmicas.

A ligação com o Terceiro Reich

Nos idos de 1994 mostrou em rede nacional, no Fantástico, sua imensa coleção de objetos nazistas. No ano seguinte, uma reportagem do Jornal Zero Hora que avaliava o temerário avanço do neonazismo na internet, mencionava que o professor Pugliesi possuía pôsteres do Führer nas paredes de sua casa.

Flagrante entusiasta do Terceiro Reich alemão, Pugliesi batizou seu filho com o nome de Adolf, uma atitude que certamente horroriza e constrange qualquer pessoa, mas que, para o ex-docente, confere ao filho uma honrosa incumbência: carregar o nome de um dos maiores líderes políticos que se teve notícia nesse mundo.  

"Era uma espécie de ame-o ou deixe-o. Muitos alunos o idolatram por ser diferente dos demais com suas opiniões peculiares e outros o odeiam por se sentirem afetados por seus preconceitos latentes", afirma um aluno — que não quis ser identificado — que frequentou as aulas do professor Wander em um conceituado cursinho de Itajaí. 

Matéria do jornal Zero Hora onde Wander Pugliesi é entrevistado / Crédito: Divulgação

 

Sua imensa coleção do Terceiro Reich viria a ser confiscada a pedido do Ministério Público Federal. Lá estavam livros, quadros, revistas, fotografias, cartões postais, gravuras do exército alemão, uniformes, armas, objetos com a cruz suástica, além de uma camiseta estampada com a figura de Adolf Hitler.

Por volta dessa mesma época, ele foi ligado a outra denúncia de propagação de ideias racistas por conta de um revisionista do holocausto chamado Siegfried Ellwanger Castan, o qual tem em Pugliese um dos seus maiores admiradores — tanto que foi a principal indicação bibliográfica do professor a seus alunos.

Na matéria veiculada pelo Zero Hora, a jornalista Clara Glock entrevistou Pugliese, que previu que, em 15 anos, levantariam uma estátua para Hitler na Europa e afirmou que os negros eram coitados, pois “ficaram desempregados no dia 13 de maio”, referindo-se à data em 1888, quando foi assinada a Lei Áurea.

Uma de suas ex-alunas menciona um fato alarmante. Em 2002, o docente se emocionou no dia em que uma turma de colégio decidiu homenageá-lo fazendo a saudação nazista durante a formatura. "Quis falar sobre isso porque hoje me faz sentir mal. Ele falava que Hitler fez muito pelo povo dele e questionava o Holocausto. Na minha cabeça, na época, não havia apologia no que ele dizia. Hoje entendo diferente", diz Larissa Beppler, formanda daquela turma.

A história de Wander foi esquecida?

Inobstante, nada chocou mais a opinião pública do que a imagem daquela piscina. Na cidade de Pomerode, apesar das contundentes opiniões em contrário, o ex-professor ainda é tido como uma pessoa de índole irrefutável e qualidade docente inquestionável. Após 2014, Pugliesi se tornou cada vez mais recluso e evita, desde então, se pronunciar a respeito do assunto.

Mas a imagem, como um cadáver no fundo de uma piscina repleta de indagações, sempre volta à superfície. Transformar histórias reais em obras fictícias é uma estratégia de sucesso muito comum quanto recorrente na indústria do cinema e da TV. No caso da literatura – espírito ancestral das obras áudio visuais – também.

Aparentemente, o velho Pugliesi de Pomerode não vai ser esquecido tão cedo. Afinal, o escritor paulista Davidson Abreu, traz à tona uma grande narrativa fantasmagórica inspirada nas opiniões questionáveis, nos hábitos suspeitos do ex-educador catarinense e em sua insólita piscina em Pomerode.

O livro, anunciado pela Madras Editora, será lançado ainda esse ano. Uma hábil interpretação subjetiva dos fatos que tornaram a fotografia de uma simples piscina tão conhecida e repudiada em todo o Brasil.

“Aquilo me fez lembrar de Mengele no Brasil e a simpatia do governo da época ao regime alemão. Foi o pontapé para uma história de terror, interligada com realidades ainda mais assustadoras”, comenta Davidson.

Então, meu bom, que tal um mergulho em uma piscina com o símbolo que reflete o passado mais monstruoso da história da humanidade?


O Colunista M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.


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