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Fantasma do Terceiro Reich: o negacionismo histórico do Holocausto e suas raízes

Em entrevista exclusiva à AH, Michel Gherman, Diretor Acadêmico do Instituto Brasil-Israel, explica como se deu o processo que, em pleno século 21, afirma que o genocídio dos judeus nunca existiu

Pamela Malva Publicado em 16/11/2020, às 16h54 - Atualizado em 18/11/2020, às 15h44

Entrada do campo de concentração de Auschwitz
Entrada do campo de concentração de Auschwitz - Getty Images

Entre o final do século 19 e o começo do século 20, um fenômeno conhecido por especialistas como “teses conspiratórias” tomou conta dos ideais da população mundial. Nesse momento, minorias se tornaram o motivo de frustração para a maioria.

Segundo Michel Gherman, Diretor Acadêmico do Instituto Brasil-Israel, o processo é marcado por uma maioria numérica que acredita “que grupos minoritários degeneram sua moral, que são responsáveis pela quebra da harmonia que havia em um passado imaginado e ideal”.

Acontece que, enquanto grupos minoritários reivindicavam seu espaço em uma sociedade excludente, a maioria os enxergava como o motivo do caos. De acordo com Michel, que também é coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos da UFRJ e pesquisador da Ben Gurion University, foi assim que nasceu o discurso de ódio.

Um dos movimentos mais palpáveis desse processo, que abrange até o racismo, foi a disseminação do antissemitismo. Minoria religiosa, os judeus, então, “passam a ser as vítimas maiores de referências conspiratórias”, explica o professor — fator que, no futuro, deu início ao conhecido negacionismo histórico, que contesta o Holocausto.

Prisioneiros em um campo de concentração / Crédito: Wikimedia Commons

 

Os religiosos imorais

Considerados a personificação da perversidade durante o começo do século 20, os judeus eram acusados de “imorais, degenerados, exploradores, revolucionários, enfim, de tudo que incomodava o homem médio moderno”. Foi isso que, segundo Michel, gerou um forte movimento antissemita na Alemanha.

De repente, os judeus tornaram-se a causa de diversos problemas que o país enfrentava, apenas porque reivindicaram seu espaço na sociedade e, de certa forma, saíram do "isolamento anterior os protegia". Foi assim que o capitão Dreyfuss, por exemplo, acabou acusado de traição na França.

“Preso e condenado sem provas, o Capitão [que era judeu] passou anos encarcerado na Ilha do Diabo”, explica Michel. “Esse pode ser o primeiro exemplo de antissemitismo moderno. Para acabar com o mau, bastava acabar com os judeus”.

Oficiais da Gestapo, que também eram parte das SS / Crédito: Domínio Público

 

O ódio

Tamanho era o antissemitismo na época que, com o começo da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha de Adolf Hitler criou um Ministério da Propaganda. De lá saíam filmes, livros e propagandas oficiais que, segundo Michel, foram fundamentais “na disseminação do ódio. Não somente aos judeus, mas a todos os grupos que eles consideravam inimigos do regime”.

Naquela época, então, todos que se opunham ao Führer tornaram-se alvos e, assim, deveriam ser eliminados. “Teses conspiratórias e generalizadoras afirmavam que judeus, ciganos e homossexuais deveriam ser combatidos”, conta o professor.

No final das contas, ainda de acordo com Michel, que falou exclusivamente à Aventuras na História, “o discurso de ódio estabeleceu a preparação política para isolamento e eliminação dos judeus na Alemanha e na Europa”.

As tropas do Führer na Segunda Guerra / Crédito: Divulgação/Centro Simon Wiesenthal

 

As raízes do negacionismo

Décadas mais tarde, pessoas com uma ideologia parecida iniciaram um processo de negacionismo histórico, cuja teoria defende que o Holocausto nunca existiu. Para Michel, a única coisa que explica esse movimento é “de ordem ideológica”.

“Não há fatores históricos ou mesmo de investigação e pesquisa [que justifique o negacionismo]”, o professor explica. Nesse sentido, uma das agendas, ou ideologias, dos negacionistas teoriza que “os judeus dominam o mundo e que por isso inventaram o genocídio para manter esse domínio”.

Esta ideia, especificamente, “é uma tese racista e antissemita, que ainda mantem-se relativamente forte, principalmente com a circulação das ideias conspiratórias na rede”, lamenta Michel. E olha que as redes, principalmente as sociais, têm muito crédito na disseminação do negacionismo e, por isso, também têm deveres com a sociedade.

Prisioneiros em um dos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial / Crédito: Divulgação

 

A internet e o Holocausto

Quando perguntado sobre o papel de plataformas como o Facebook, Twitter e Instagram no combate ao movimento negacionista, inclusive, Michel é categórico. “Acredito que [a remoção de conteúdos negacionistas das redes] seja necessária. Mas, infelizmente, acho que não é suficiente”, explica.

Para o pesquisador, muito além de deletar publicações racistas, fascistas e antissemitas, o combate ao negacionismo deve estar na educação e na mídia. “No Brasil, a negação do holocausto e a propaganda nazista são crimes. Mas tenho dúvidas se a judicialização do tema é suficiente”, lamenta.

No final, ele explica que o combate ao negacionismo “deve ser um compromisso de todos”. Para ele, perdemos “a batalha contra o racista, contra o negacionista, contra o conspiracionista e contra o produtor de discurso de ódio quando normalizamos seus discursos”. “No Brasil, especificamente, talvez nunca foi tão necessário estar tão atento”.

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