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Negacionismo histórico: Por quê estamos negando os fatos?

No governo Bolsonaro, declarações negacionistas têm se tornado frequentes. Mas o fenômeno também ocorre em outros países. Entenda

Joseane Pereira Publicado em 08/05/2019, às 11h44

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Crédito: Reprodução

Nos últimos anos, o mundo tem vivenciado uma crescente negação de fatos históricos. Frases como “o Holocausto nunca existiu”, “o nazismo é de esquerda”, “a ditadura militar foi branda” e “não houve genocídio indígena” estão se tornando comuns em conversas diárias, seja em redes sociais ou em uma mesa de bar numa sexta à noite.

O negacionismo não existe apenas nas humanidades, mas também nas ciências geológicas (teorias que negam o formato do planeta) e nas ciências biológicas — afirmações bíblicas e criacionistas em detrimento da evolução por seleção natural, segundo a teoria de Darwin.

Inúmeros fatores contribuem para o aumento deste fenômeno no Brasil e no mundo. A Aventuras na História teve acesso à abertura do evento “Negacionismos e Revisionismos: o conhecimento histórico sob ameaça”, organizado por docentes da Universidade de São Paulo (USP), onde o tema aparece como um desafio que deve ser enfrentado através do diálogo.

Segundo a professora e historiadora da USP Mary Anne Junqueira, “o negacionismo está vinculado com o fortalecimento de um braço da direita que tem se ampliado no Ocidente, e na Ásia no caso das Filipinas. Negar a violência de temas do passado e do presente é uma ameaça ao conhecimento histórico e à democracia, e deve ser visto como arma política usada por determinados setores”.

Vítimas da ditadura militar no Brasil: evidências que não podem ser negadas / Créditos: Reprodução

 

O negacionismo está presente como fenômeno no Brasil desde os anos 70, especificamente em relação ao Holocausto. Atualmente, o tema tem voltado ao debate a partir de declarações do governo Bolsonaro, como a de que "nunca houve golpe militar em 1964" e de que "o racismo no Brasil é uma coisa rara”, como declarado ontem (07) pelo presidente em entrevista à apresentadora Luciana Gimenez.

Independentemente de posições políticas, o debate sobre esses conteúdos deve ser mantido por todos os cidadãos dentro de termos racionais, e construído com base em argumentos sólidos – afinal, a História é uma ciência como todas as outras.

Revisionismo histórico ou negação ideológica?

Revisar a história através de novas fontes é um método eficaz, que movimenta a comunidade científica. Assim como descobertas sobre a ação de uma bactéria no organismo levam à criação de novos medicamentos, evidências documentais, objetos históricos e relatos dos que viveram em determinado período levam à mudança ou ampliação no entendimento histórico. Esse é um revisionismo necessário, baseado em argumentos solidificados.

Segundo o professor de História do Brasil Independente, Marcos Napolitano, “quando falamos de revisionismos, a palavra sempre tem um peso muito grande no debate público. E aí temos uma contradição interessante, pois o trabalho do historiador é sempre uma revisão do passado diante de evidências, diante de novas questões, diante de novas demandas que são colocadas. Mas uma das marcas do negacionismo é negar evidências. Não é a ampliação do conhecimento, mas a sua negação”.

O que vem ocorrendo, inclusive entre acadêmicos, intelectuais e políticos, é uma tentativa de revisar a história através de ideologias, onde se olha para um fato (por exemplo, os dados sobre genocídio indígena no Brasil) a partir de um prisma ideológico.

 “Quais as fronteiras entre o revisionismo historiográfico e o ideológico? O que deve pautar a revisão historiográfica, e qual a relação entre isso e uma perspectiva ideológica? Não se trata de inibir opiniões sobre a História, mas deixar claro que o conhecimento histórico tem que ir além da opinião. Ele pode compor opinião, mas é sobretudo resultado de um trabalho, de um método, de uma reflexão sobre evidências e fontes, que obviamente não visa silenciar as opiniões sobre o passado. Mas é preciso que se estabeleça um critério para se entender o que é evidência, o que é fato, e o que é efetivamente uma negação de tudo isso”, afirma o professor.