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Gilbert Bradley e Gordon Bowsher: o amor proibido entre um soldado e um civil na Segunda Guerra

Separados pelo confronto e pelo preconceito, a relação amorosa entre os dois ficou escondida por décadas e só foi conhecida após a morte de Gilbert

Fabio Previdelli Publicado em 04/06/2020, às 16h00

Foto de Gilbert Bradley
Foto de Gilbert Bradley - Divulgação

Durante a Segunda Guerra Mundial, era comum que os soldados, ao se despedirem de seus entes queridos, levassem consigo fotos de suas namoradas e escrevessem cartas de amor na esperança de que eles pudessem se reencontrar novamente um dia e, assim, iniciarem uma nova família. O mesmo ocorreu com Gilbert Bradley, que constantemente trocava missivas, mas que jamais carregou uma foto de seu verdadeiro amor: Gordon Bowsher.

Por décadas, a história de amor entre eles permaneceu em segredo e foi escondida dos olhos do mundo. No entanto, quando Bradley morreu em 2008, uma empresa imobiliária limpou sua casa e vendeu suas cartas a um antiquário especializado em artigos de guerra.

Depois disso, um historiador e voluntário no Museu Oswestry em Shropshire, na Inglaterra, chamado Mark Hignett, encontrou as cartas no eBay enquanto procurava documentos históricos de sua cidade natal.

Mark Hignett junto com sua coleção de cartas / Crédito: Divulgação

 

No início, Mark pensou que Gilbert estava trocando correspondências com sua namorada ou noiva, pois ambos assinavam as cartas com a letra ‘G’. No entanto, quando ele percebeu que o outro elo dessa ligação era Gordon Bowsher, o rapaz ficou chocado.

Isso porque, missivas entre homens gays eram muito raras, afinal, esse tipo de documento era, quase sempre, destruído. Agora, cartas entre um civil gay e um soldado da Segunda Guerra? Isso era praticamente impossível, um achado único de valor inestimável.

A revelação de um amor proibido

Após adquirir a coleção no eBay das cartas de Gilbert Bradley, Hignett começou uma busca implacável pelas outras peças desse quebra-cabeças e partiu em uma missão de vários anos para descobrir o maior número possível de documentos relacionados ao soldado. Assim, após vários meses — e mais de mil libras depois —, ele, enfim, conseguiu a última pista que colocava fim e dava outro rumo a essa história.

Naquela época, ser homossexual era considerado um ato ilegal e um homem gay ser identificado nas Forças Armadas era pior ainda. Se Bradley fosse identificado, era bem provável que cumprisse pena na prisão, ou até mesmo seria baleado por um soldado homofóbico e deixado para morrer.

Com isso em mente, não é de surpreender que, quando a Segunda Grande Guerra começou, Gilbert não queria estar no Exército. Mas, assim como tantos outros, se viu sem escolhas quando foi convocado pelo governo em 1939.

Algumas cartas do acervo de Mark e uma foto de Gilbert Bradley / Crédito: Divulgação

 

Para evitar maiores problemas, chegou a simular uma epilepsia durante um exame médico, esperando que seria dispensado, mas para sua infelicidade, os médicos o aprovaram e lhe concederam um atestado de saúde. Assim, recebeu ordens para ser treinado como artilheiro de aviões no Park Hall Camp em Oswestry.

Um ano antes de aprovado como soldado, Gilbert conheceu Gordon em uma festa. Naquela época, Bowsher estava em um relacionamento com o sobrinho de Bradley, mas quando se conheceram, tiveram uma química inegável e passaram a nutrir um caso secreto.  

Apesar da família rica, que tinha uma empresa de transporte marítimo que fornecia mercadorias da Grã-Bretanha por todos seus territórios, Gordon só teve tudo que mais precisava quando conheceu Gilbert: um amor verdadeiro e alguém que o compreendesse por inteiro.

Porém, quando soube que teria que se separar de Bradley, fez o amado prometer que sempre que pudera se comunicariam por cartas.

O segredo de longa data

Apesar de todas as emoções intensas que sentiam, o casal teve que manter a união em sigilo, afinal, ser abertamente gay era motivo para qualquer um ser duramente descriminalizado. Entretanto, isso não os impediu de imaginarem um mundo onde pudessem ser felizes e constituírem uma família, além contarem para amigos e familiares sobre o relacionamento. "O resto do mundo não tem ideia do que é nosso amor".

Mas passar anos longe de quem se ama pode tornar uma pessoa solitária, assim, Gilbert conheceu e se relacionou com outros dois homens gays que também faziam parte do Exército. Mas isso não foi um motivo para abalar a relação dos dois.

Bradley sempre foi honesto sobre os momentos que teve com outras pessoas quando esteve na Escócia, mas Gordon era compreensivo e manteve um acordo com o amado: tudo o que acontecesse na Guerra, permaneceria na Guerra. “[Eu entendo] por que eles se apaixonaram por você. Afinal, eu também me apaixonei”.

Algumas das cartas trocadas entre Gilbert Bradley e Gordon Bowsher / Crédito: Divulgação

 

Apesar de manterem contato de 1939 até 1945, em um determinado momento eles pararam de se falar. Seja por Bowsher não aguentar mais o relato do amado com outros homens, ou pela falta de convicção de Bradley, que achava que jamais voltaria vivo para os braços do amado. A Guerra foi capaz de derrotá-los.

Ainda que Gilbert pedisse a Gordon para queimar as cartas para que não sobrasse vestígios que pudessem incriminá-los, eles não o fizeram, pois claramente se importavam muito mais com o sentimento que tinham um pelo outro do que com o medo de serem pegos.

O amor de final de conto de fadas

Apesar das juras de amor, o casal não teve um final feliz, pelo menos não um com o outro. Ninguém sabe exatamente por que eles terminaram, ou por que eles não conseguiram viver o sonho que compartilharam por tantos anos. As cartas nunca falam sobre isso — ou, se o fazem, Mark Hignett ainda não as encontrou.

Apesar de todas as circunstâncias, parece que, ao menos, um desejo do casal enfim se realizou: “Não seria maravilhoso se todas as nossas cartas pudessem ser publicadas no futuro em um momento mais esclarecido. Então todo o mundo possa ver como estamos apaixonados”.


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