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Adotadas pela mãe natureza: Crianças abandonadas criadas por animais

Na Idade Média, as fantasias da tradição popular dão conta de muitos casos de crianças criadas por lobos ou ursos e que adquiriam as tendências e os hábitos desses animais, mas muitos casos vão além do imaginário popular

M. R. Terci Publicado em 22/11/2019, às 14h00

Pôster do filme Mogli, o menino lobo
Pôster do filme Mogli, o menino lobo - Divulgação, Disney

O mito da fundação de Roma tem como personagens os gêmeos Rômulo e Remo. Abandonados nas águas do Rio Tibre, eles foram salvos por uma loba, que os amamentou e os viu crescer.

Alguns episódios são minguadamente registrados, como os arquivos da Rainha da Polônia (1664-1688) que narram a história de um garoto que foi criado por um urso marrom nas florestas da Lituânia. O menino foi encontrado na primavera de 1663 e, posteriormente, levado para a capital da Polônia, daí nada mais se sabe.

Em alguns jornais locais, aparece ainda, a Garota Lobo do Rio Diabo. Capturada no Texas, em 1846, mas que conseguiu escapar atacando o xerife. Foi vista pela última vez, com cerca de 17 anos de idade, uivando com uma alcateia, numa colina, em 1852.

VICENTE CAUCAU

Vicente Caucau / Crédito: Wikimedia Commons

 

Um menino de 12 anos de idade chamado Vicente Caucau, foi localizado nas montanhas chilenas, em 1948, vagando em estado selvagem com um puma.

Muitos casos, entretanto, foram estudados, fartamente documentados e divulgados pela imprensa mundial.

Conhecidas como as meninas lobo, as meninas Amala e Kamala foram encontradas em uma caverna na Índia, em 1920, por um reverendo chamado Singh. Foram levadas para um orfanato, onde viviam encolhidas num canto. Possuíam hábitos noturnos e comportavam-se como filhotes de lobo, agitadas e ferozes. Andavam sobre mãos e pés, joelhos e cotovelos, não falavam e uivavam para a lua.

Não demonstravam nenhum tipo de emoção. Na caverna, onde se alimentavam de carne crua ou em decomposição, eram livres dentro do contexto que conheciam, longe de seu habitat, no orfanato, desenvolveram uma depressão profunda. Amala tinha um ano e meio e faleceu um ano mais tarde, enquanto, sua irmã, Kamala, com oito anos de idade, viveu até 1929.

OXANA MALAYA

Oxana Malaya / Crédito: Divulgação/YouTube

 

Nasceu em 1983, na Ucrânia. Filha de alcoólatras, sem atenção dos pais, dos 3 aos 8 anos de idade, a menina encontrou abrigo entre os cães no quintal da casa e vivia com eles em um barracão, assimilando o comportamento da matilha. O vínculo com os cães era tão forte que, na primeira vez em que as autoridades vieram resgata-la, foram expulsas pela matilha.

Uma das primeiras coisas que notaram, foi que os sentidos do olfato, visão e audição da menina se tornaram extremamente aguçados. Quando resgatada ela rosnava, latia e andava inquieta por todos os cantos como uma animal selvagem. Muitos anos após sua descoberta, Oxana ainda tem dificuldade em adquirir habilidades sociais e emocionalmente humanas. Desde 2010, reside em um lar para deficientes mentais. Hoje, com 34 anos, ela consegue falar, mas sua linguagem é direta e franca, como se estivesse constantemente dando ordens.

NATASHA DE ZABAYKALSKY KRAY

Natasha de Zabaykalsky / Crédito: Wikimedia Commons

 

Natasha de Zabaykalsky Kray foi encontrada por assistentes sociais em subúrbio da cidade de Chita, na Sibéria. Muito embora vivesse com sua família humana, as denúncias davam conta de que a menina era tratada pelo pai e outros familiares como um dos muitos cães e gatos da casa.

Quando foi resgatada, em 2009, Natasha tinha 5 anos de idade e se comportava como um cachorro, bastante ágil, fuçando e farejando por todos os cantos, andando de quatro, latindo e rosnando para estranhos. Os assistentes sociais mencionaram que, acompanhados da polícia, tiveram que fazer uso da força para entrar na residência, uma vez que os outros animais a protegiam.

"Nossa primeira impressão quando entramos foi a de que tínhamos ido parar em algum lixão. O fedor era insuportável e estava cheio de cachorros enormes e gatos", explicou Larisa Popova, chefe do departamento de menores da Polícia de Chita. Segundo os assistentes socais, a menina parecia se comunicar perfeitamente com os cães que a protegiam como se fosse um filhote.

JOHN SSEBUNYA

John Ssebunya / Crédito: Wikimedia Commons

 

John Ssebunya nasceu em algum momento da década de 1980, em uma pequena aldeia de Uganda, chamada Bombo. Não foi registrado e com dois anos, fugiu de casa, após ver o pai assassinar sua mãe.  Foi encontrado apenas em 1991, cerca de quatro anos depois, escondido em uma árvore.

A criança tinha cerca de seis anos e foi visto por uma habitante da tribo, que reuniu um grupo para buscá-lo. Ele não ofereceu muita resistência, mas uma família de macacos que estava com ele, jogou pedras, paus e gritaram por horas. Os macacos não apenas ajudaram a criança a sobreviver na selva, mas ensinaram diversos costumes do grupo.

Na selva, os macacos o alimentaram, deram carinho e o tornaram parte da família. Após ter sido resgatado, John não sabia falar, mas com o passar do tempo aprendeu a se comunicar com gestos. Enviado a um orfanato local, se adaptou durante oito anos, aprendendo coisas básicas, como andar sobre duas pernas, falar e comer. Anos depois, aprendeu a cantar e tomou parte de um coral infantil chamado Pearl do África.

MARINA CHAPMAN

Marina Chapman / Crédito: Divulgação/Twitter (@ChapmanMarina)

 

Marina Chapman era uma menina britânica de apenas 4 anos de idade que, em 1954, foi sequestrada na Colômbia. Inexplicavelmente, após receber o resgate dos pais, seus sequestradores a abandonaram na floresta. No meio da selva, a pequena garota foi acolhida por um grupo de macacos-prego e, como um instinto de sobrevivência, passou a copiá-los na forma de se alimentar e agir, além de inclusive imitar a linguagem deles.

Certa vez, comeu um fruto e começou a passar mal. Havia se envenenado. Um macaco mais velho a observou, aproximou-se e começou a empurrá-la em direção a um riacho. A criança, embora assustada, percebeu que a expressão do macaco, que passou a chamar de Vovô, “estava completamente calma. Ele não estava zangado, nem agitado, nem hostil”.

O macaco começou a pressionar sua cabeça e forçou-a a beber muita água. A menina achou que queria afogá-la. Aos poucos, ela começou a vomitar tudo o que havia comido, o que salvou sua vida. “Nunca saberei ao certo o que foi que me envenenou, assim como nunca saberei como o macaco Vovô sabia como me salvar. Mas ele o fez. Estou convencida disso.” – mencionou posteriormente Marina.

Sobreviveu, assim, convivendo com o Vovô e seu grupo de macacos por cinco anos, quando foi encontrada por caçadores que a venderam para um bordel, na aldeia de Loma de Bolívar, na Colômbia.  Marina, contudo, conseguiu escapar tempos depois para viver nas ruas, onde roubava para comer e chegou a liderar uma gangue de meninos, na cidade de Cúcuta, na Co-lômbia.  A história da menina que foi criada por macacos está no livro autobiográfico “The Girl With No Name”.

VANYA YUDIN

Vanya Yudin / Crédito: Wikimedia Commons

 

Em 2008, em Volgogrado, na Rússia, assistentes sociais encontraram um garoto de 7 anos de idade vivendo entre pássaros. Criado dentro de um apartamento minúsculo, cercado de gaiolas, poleiros e alpiste, a mãe do menino saia para trabalhar e o deixava sob a guarda das dezenas de pássaros que voavam soltos por todos os cantos do lugar. De acordo com os jornais que noticiaram o caso, o menino não sabia falar. Chilreava e quando percebia que não o estavam entendendo, abanava os braços como os pássaros fazer com as asas.


M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.


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Imperiais de Gran Abuelo, M. R. Terci (2018)

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Mogli: O menino lobo, Rudyard Kipling (2016)

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