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Há 108 anos nascia Carlos Marighella, um dos mais notórios guerrilheiros do Brasil

A trajetória do líder comunista e inimigo nº1 da ditadura militar — que ainda divide opiniões

André Nogueira Publicado em 05/12/2019, às 02h00

O guerrilheiro comunista ainda divide opiniões
O guerrilheiro comunista ainda divide opiniões - Wikimedia Commons

Carlos Marighella foi um dos guerrilheiros mais controversos da História do Brasil, participando da luta armada da extrema-esquerda em favor da derrubada da ditadura militar. De origem humilde, Marighella cresceu aos olhos do povo até se tornar uma das maiores influências de guerrilha no mundo.

Carlos nasceu numa família soteropolitana pobre, em 1911, entre sete filhos do imigrante italiano Augusto Marighella e a filha de escravizados sudaneses Maria Rita do Nascimento. De pele negra, ele sofreu desde cedo com as pressões sociais e econômicas que formaram seu caráter antissistêmico.

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Pais de Marighella / Crédito: Acervo familiar

Quando ainda era jovem, seus pais se mudaram para uma casa na Rua Barão do Desterro, onde Carlos passou a maior parte da infância e foi alfabetizado. Seu letramento ocorreu desde os quatro anos de idade, por pressão paterna. Querendo um filho formado, Augusto estimulava Carlos a ler literatura nacional e francesa, o que o incentivou a ser poeta. Muitos relatam que, no colégio, Marighella respondia às questões de física em versos.

PCB

A primeira prisão de Marighella, já adepto ao comunismo marxista, ocorreu em 1932, por ordens do interventor Juracy Magalhães, devido a um poema marcado por duras críticas ao governador. Em pouco tempo, foi liberado.

O comunista abandonou a faculdade de Engenharia em 1934 para ingressar no PCB e militar. Trabalhando na reorganização do Partido, que ainda não sofria a árdua perseguição, ele se mudou para o Rio de Janeiro.

Porém, em 1936, foi preso novamente por sua militância – por “subversão” –, dessa vez pelas tropas de Getúlio Vargas. Então, foi submetido às torturas de Filinto Muller durante um ano até que foi liberado pela famosa Macedada, uma medida oficial feita pelo Ministério da Justiça onde foram liberados todos os presos sem condenação penal.

Quando saiu, entrou para a clandestinidade até 1939, ano em que foi oficialmente preso e assim ficou até a queda da ditadura e a redemocratização, em 1945. Com o retorno do PCB para a legalidade, se elegeu deputado.

A GUERRILHA

Entre 1953 e 1954, Marighella esteve na China, a convite do Partido Comunista, para que conhecesse os resultados imediatos da ascensão de Mao. Retornando ao Brasil, militou clandestinamente pelo Partido, que voltara à ilegalidade. Com o Golpe de 1964, ele começou a ser perseguido pelo DOPS, que o baleou e o prendeu em um cinema.

Marighella deixa a Ilha Grande durante a anistia, em 1945 / Crédito: Domínio Público

 

Marighella conseguiu uma ordem judicial que o tirou da cadeia em 1965. Em seguida, entrou para a luta armada, onde conciliou militância política com a produção de alguns livros, como A Crise Brasileira e Algumas Questões Sobre a Guerrilha no Brasil. Devido à diretriz do PCB em relação à guerrilha, foi expulso do Partido em 1967, quando fundou a Ação Libertadora Nacional.

Em seu tempo de guerrilheiro, Marighella foi responsável pela redação do Manual do Guerrilheiro Urbano, onde estabeleceu diretrizes e preceitos para o funcionamento da luta armada, defendendo o paramilitar ascético, obediente e disciplinado. Sua obra rapidamente foi disseminada pelo mundo e Carlos se tornou referência internacional para a luta armada.

MORTE

Por sua relevância na guerrilha e pela ameaça que Marighella era para a estabilidade do Regime dos Generais, o comunista baiano se tronou o principal inimigo do Estado, sendo perseguido com afinco pelas forças da repressão. O guerrilheiro estava em São Paulo quando o DOPS conseguiu localizá-lo. Naquele momento, uma emboscada foi planejada pelas autoridades.

Monumento colocado no ponto em que Marighella foi baleado em SP / Crédito: Wikimedia Commons

 

Na noite de 4 de novembro de 1969,  Marighella foi assassinado na Alameda Casa Branca, 800, em uma operação comandada pelo delegado Sérgio Fleury. Se utilizando da relação do guerrilheiro com freis dominicanos, foi marcado um falso encontro onde o comunista foi recebido com cinco tiros.

Ele morreu na hora e, em menos de uma hora, foi enterrado como indigente num cemitério na Vila Formosa, em São Paulo. Apenas em 1979, por pressão popular e familiar, teve seus restos mortais transferidos para Salvador, onde foi sepultado num túmulo projetado por Niemeyer no cemitério Quinta dos Lázaros.


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