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A vida na Pré-História: Esqueça o que você sabe sobre os homens das cavernas

Eles não costumavam viver em cavernas, nem puxavam as mulheres pelos cabelos. A rotina do homem pré-histórico era muito mais complexa do que parece

Eduardo Szklarz Publicado em 12/02/2019, às 07h00

O Museu da Pré-História em Tautavel, França, em 23 de junho de 1992.
Getty Images

O desenho clássico da evolução humana mostra nossos antepassados em fila. Em uma ponta há um sujeito parecido com um chimpanzé.Na outra, os personagens vão ficando eretos e sem pelo, até chegar ao homem moderno: branco, alto, imponente. Graças a figuras como essa, nossas ideias sobre a Pré-História estão longe da realidade.

É que esse esquema linear, e um tanto racista, só mostra mudanças na biologia, sem nada dizer sobre a cultura e a conquista da natureza. Nossos ancestrais vão perdendo pelos, mas continuam sem roupas! Somos levados a pensar que só uma espécie habitou o planeta de cada vez e que o homem foi a figura central da evolução, cabendo à mulher um papel secundário. Elas estariam sempre à mercê do macho bruto, solitário e competitivo, que vivia nas cavernas e arrastava a companheira pelo cabelo.

A vida era muito mais rica do que nós, sapiens, imaginamos. Estudos mostram que o pessoal namorava, tocava instrumentos, trabalhava em conjunto e rezava à sua maneira. Como a Pré-História é imensa - vai dos primórdios até a invenção da escrita, há cerca de 5 mil anos -, a rotina mudou demais.

Primeiros passos

Lucy exibia um corpinho escultural para quem viveu há 3,2 milhões de anos: 1 metro de altura e ancas largas. Tinha braços longos, pernas curtas e barrigão, como um chimpanzé. Mas o joelho e a pelve indicam que ela andava sobre os dois pés. "Tornar-se bípede foi talvez a primeira característica distintiva dos humanos", afirma o antropólogo Donald Johanson. Por isso, quando encontrou os restos de Lucy na Etiópia, em 1974, ele teve certeza: era um ancestral hominídeo. Lucy mostra como as adaptações na biologia repercutiram em nossa cultura desde cedo. Quando ela veio ao mundo, as florestas da Etiópia estavam encolhendo devido a mudanças climáticas. Os hominídeos, então, desceram das árvores atrás de alimento. E desenvolveram um novo jeito de andar, deixando as mãos livres. Não tinham garras nem dentes afiados. Sua vantagem era outra e essencial: o cérebro.

Para obter pistas sobre os hábitos de Lucy e de seus pares, os cientistas estudam primatas não-humanos. "Orangotangos são solitários, gibões são monogâmicos, gorilas machos geralmente dominam haréns femininos e os chimpanzés vivem em comunidades promíscuas de machos e fêmeas", diz o biólogo Jared Diamond, da Universidade da Califórnia. Como os chimpanzés são nossos primos mais próximos, é possível que a sociedade de Lucy fosse, digamos, bem "liberal".

Há 2,5 milhões de anos, nossos ancestrais já talhavam a pedra sílex (flintstone, em inglês) para obter ferramentas toscas usadas para quebrar ossos e nozes. Também saberiam usar plantas medicinais, já que os chimpanzés comem certas folhas para combater parasitas do intestino. Mas, diferentemente dos Flintstones, eles não comiam bifes de dinossauros (extintos muito antes), e sim ovos, frutas, carcaças abandonadas e até insetos.

Reprodução do fóssil Lucy, exposta no Museu da História Natural de Chicago Getty Images

O Homo erectus teria sido o primeiro a controlar o fogo, entre 1 milhão e 500 mil anos atrás. Conseguia acender chamas batendo o sílex contra um cristal de pirita e usava as fogueiras para se aquecer, afugentar animais, endurecer a ponta de lanças. Foi o início da conquista da natureza. Desde os tempos de Lucy, a seleção natural prevaleceu e muitas espécies desapareceram. Há 200 mil anos, porém, os homens se tornaram anatomicamente parecidos conosco: Homo sapiens. Ficaram mais inteligentes e solidários. "Com o crescimento do cérebro, as fêmeas sapiens precisaram comer mais proteínas para alimentar o feto. Já os machos podiam ter uma dieta mais simples. Essa complementação teria feito surgir a noção de solidariedade própria da família", afirma o arqueólogo Jean Clottes, autor de La Prehistoria Explicada a los Jovenes. Os casais se tornaram mais estáveis e passaram a cuidar juntos dos filhos - que deixariam de ser meras "crias".

"A partir de 100 mil anos atrás, a adaptação se deu mais em função de modelos culturais, já que nossa biologia permaneceu praticamente inalterada", diz Antonio Guglielmo no livro A Pré-História: Uma Abordagem Ecológica. Naquela época, o homem realizou os primeiros enterros na caverna de Qafzeh, Israel, revelando ter autoconsciência. Além disso, objetos colocados ao lado dos corpos indicam a crença na vida após a morte.

Eles provavelmente viviam em grupos que compartilhavam costumes e laços familiares, reunidos em tribos. "Cada grupo seria formado por 20 ou 30 pessoas. Se fossem maiores, teriam problemas de abastecimento, e os muito pequenos dificilmente conseguiriam caçar e enfrentar ataques de animais", diz Clottes. "Não viviam muito. A maioria não passava dos 25 anos, mas alguns chegavam aos 60."

Havia intercâmbio entre as tribos: objetos similares foram encontrados em lugares distantes. Essa troca teria sido feita por aventureiros solitários ou grupos, até porque eles sempre se moviam em busca de recursos naturais. Viajavam a pé, pois os animais só seriam domesticados depois. E, diferentemente do que muitos pensam, os homens pré-históricos não costumavam viver em cavernas - identificadas com o sobrenatural. Eles moravam em cabanas feitas de peles, ossos e pedras. Algumas cavernas, sim, eram habitadas, principalmente na Europa, mas sempre mais perto da superfície que do subterrâneo. A comida era assada em fogueiras ou cozida no que seria a primeira panela: um caldeirão feito de pele animal. Os homens aqueciam pedras na chama e as jogavam no caldeirão. Eles comiam com as mãos e, possivelmente, eram canibais. Evidências indicam que essa prática ocorreu em várias épocas, fosse por fome, fosse para tentar adquirir o espírito do adversário. Na hora de se limpar, cutucavam os dentes com tocos de madeira e se banhavam nos rios. E para fazer as necessidades? Sem problema: eles eram poucos e a natureza... acolhedora.

Grande Salto Adiante

Esse é o nome que os cientistas dão a uma enorme transformação ocorrida entre 60 mil e 50 mil anos atrás. "Viramos máquinas de inovação", afirma o cientista Spencer Wells. Passamos a fabricar ferramentas mais precisas, caçamos de maneira mais eficiente, enfim, produzimos tecnologia a partir das ideias.

Para Spencer, professor na Universidade Cornell, essa mudança só foi possível graças ao desenvolvimento da linguagem. Os humanos construíram estruturas mais complexas de palavras e sintaxe e puderam transferir pensamentos de uma mente para outra de modo mais eficaz. Uma vantagem e tanto, que ajudou a moldar o comportamento moderno e motivou a humanidade a sair da África e se espalhar pelo mundo.

Há 30 mil anos, os exploradores da Europa e da Ásia sobreviveram com a ajuda de uma inovação: os microlitos, peças cortantes feitas de pedra, de 1 ou 2 centímetros, que eram fixadas na ponta de estacas. Dotados de saliências e reentrâncias, os microlitos aumentaram o poder de penetração de lanças e arpões e a caça ficou mais produtiva. Já os nômades que chegaram à Sibéria descobriram uma fonte tentadora de comida: os mamutes. Usaram ossos e o couro dos paquidermes para fazer roupas e abrigos portáteis em meio ao frio de 40 graus negativos. Para isso, contaram com outra inovação, a agulha de costura.

Ilustração: Hominídeos e Hienas, Alto Paleolítico Getty Images

"A ideia de que nossos ancestrais andavam semidesnudos, com pele de animal colocada de qualquer jeito sobre o ombro, é tão falsa como a noção de que viviam nas cavernas", afirma Clottes. "Na última glaciação [80 mil a 12 mil atrás] fazia mais frio do que agora. Eles costuravam roupas com pelos e tendões de animais. Também usavam gorros e calçados de couro." Há 30 mil anos, era moda pintar as roupas com ocre, um mineral que evitava a putrefação. Também se usavam adereços feitos com dentes de renas, bisões e outros animais. Com tantos badulaques, claro que todos queriam ver e ser vistos. O point da França de 15 mil anos atrás era Le Mas-d"Azil, uma gruta gigante atravessada por um rio. Ali, os caçadores celebravam encontros e os jovens flertavam nas festas da tribo. Dançavam e cantavam ao som de tambores e flautas.

Artistas esculpiam pedras com figuras femininas, as "vênus". Para muitos antropólogos, elas aludiam ao culto da fertilidade. Mas o arqueólogo Timothy Taylor tem outro palpite: seriam versões primitivas de símbolos sexuais. Em The Prehistory of Sex ("A Pré-História do sexo"), ele sugere que práticas como sadomasoquismo e contracepção já eram comuns na época.

Até a invenção da agricultura, nossos antepassados combinaram a caça com a coleta de vegetais. Pesquisadores sustentam que aquela sociedade era mais igualitária que a atual. "Em geral, os homens caçavam usando arco e flecha e lanças. Isso não quer dizer que mulheres e crianças não participassem. Os frutos coletados por elas chegavam a 70% da alimentação", diz Clottes. "De certa forma, a função delas era mais importante que a dos homens: muitas vezes eles voltavam da caça de mãos vazias." Há indícios de que o trabalho tinha função lúdica, evitava a agressão e a dominação entre os membros do grupo. "Mesmo quem optasse por não caçar certo dia podia jantar a presa depois. Essa autonomia pode parecer radical hoje, mas os ajudou a sobreviver de forma relativamente pacífica durante milênios", diz Peter Gray, professor de Psicologia Evolutiva. Titular do Boston College, ele acredita que a violência entre tribos era muito menor que a do estado moderno.

Agricultura: avanço?

Encerrada a última era glacial, em cerca de 10000 a.C., nossos antepassados deixaram a caça e a coleta para se dedicar ao cultivo de trigo, cevada e outros cereais. O sedentarismo permitiu a construção de povoados maiores, com casas de barro, onde mais tarde foram domesticados os animais (inicialmente cachorros, ovelhas, cabras e porcos) e lançadas as bases do comércio. Por volta de 4000 a.C., surgiram as primeiras civilizações às margens dos rios Tigre, Eufrates, Nilo, Indo e Amarelo. O domínio da metalurgia impulsionou outras mudanças, assim como a invenção da escrita, que encerra a Pré-História. Para a maioria dos pesquisadores, a agricultura trouxe o progresso. No entanto, há quem a defina como trágica. "Foi o pior erro da espécie humana", afirma Jared Diamond. Segundo ele, os novos cultivos trouxeram males como superpopulação, desmatamento, guerras e as diferenças sociais. E a África, onde surgimos, sofre com a fome. "Será que a atual crise da África vai afetar a todos nós?", diz Diamond. Falando assim, dá até saudades da Pré-História.


Saiba Mais

A Pré-História: Uma Abordagem Ecológica, Antonio Roberto Guglielmo, Brasiliense, São Paulo, 2008

Bom principalmente para aqueles que querem fazer uma visita mais rápida ao período.

The Third Chimpanzee ("O terceiro chimpanzé" , sem edição brasileira), Jared Diamond, Harper, Nova York, 2002

O autor compara nosso comportamento com o dos outros primatas e nos ajuda a entender o que significa ser humano.