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Teresa de Benguela: a heroica Rainha do quilombo Quariterê

Sob o seu comando, o quilombo resistiu por duas décadas, ganhando um parlamento, parceiros comerciais e uma eficiente força de defesa

Dimalice Nunes Publicado em 20/11/2019, às 10h00

Por razões óbvias, nenhum retrato foi feito de Teresa. Esta ilustração do século 19 foi adotada por organizações do movimento negro para representá-la
Por razões óbvias, nenhum retrato foi feito de Teresa. Esta ilustração do século 19 foi adotada por organizações do movimento negro para representá-la - Wikimedia Commons

Para muito além de onde os olhos podiam ver estendiam-se os domínios na América do rei João I de Portugal. Mas um pedaço escondido de Brasil era domínio de outra
rainha: Teresa de Benguela.

Sua origem é incerta. Alguns registros portugueses se referem a ela como uma africana de Angola, embarcada no porto de Benguela. Contudo os historiadores não são unânimes e outros afirmam que ela nasceu no Brasil mesmo. Não há também sequer uma data aproximada de seu nascimento.

É sabido, porém, que ela comandou o Quilombo do Quariterê – na região do Vale do Guaporé, em Vila Bela da Santíssima Trindade, no que hoje é o estado do Mato Grosso, quase na divisa com a Bolívia. E que o assentamento rebelde cresceu militar e economicamente, incomodando o governo escravista, que por duas décadas
investiu contra ele sem sucesso.

A história do Quariterê precede Teresa. Ele foi fundado na década de 1740 pelo líder negro José Piolho, seu marido. Na gestão Piolho, o quilombo tinha uma dinâmica parecida com a de outros núcleos de resistência de negros fugidos da escravidão: agricultura de subsistência com pequenas trocas com comunidades vizinhas e um sistema de defesa simples, que apenas respondia a ataques pontuais, mais baseado na força física da capoeira do que em estratégia e armas.

Nativos de Benguela e Angola, 1848. Benguela é um porto em Angola. Gravura da História Natural do Homem, de James Cowles Prichard, publicada por Hippolyte Bailliere / Crédito: Getty Images

 

Por lá, viviam negros que escaparam do trabalho forçado nas minas de ouro e pedras preciosas recém-descobertas na área – uma outra corrida do ouro brasileira, menos lembrada que a de Minas. A população chegou a 300 pessoas, incluindo também índios e mestiços.

Em sua primeira década, enquanto o governo não conhecia sua localização, o esquema tradicional foi suficiente para a comunidade resistir. “A Amazônia proporcionou condições para a existência dos quilombos, dificultando, inclusive, a retaliação por parte do sistema escravista”, explica o professor da Universidade Estadual do Maranhão e pesquisador da questão dos quilombos no Brasil Emmanuel de Almeida Farias Júnior.

Nessa região de fronteira, ele lembra, os escravos fugidos podiam também se refugiar no lado espanhol. Por volta de 1750 José Piolho morreu. Teresa, a rainha viúva, assume seu lugar. Não só uma mudança de monarca como de regime de governo.

PARLAMENTARISMO E COMÉRCIO

O aumento da exploração mineral na região eleva o fluxo de negros escravizados – e fugitivos – na área, algo que chama a atenção da Coroa. O cerco português se intensifica. A fórmula que até então funcionava deixa de ser suficiente. Muitos fogem para os domínios espanhóis. Para quem fica, sérias mudanças.

A principal fonte documental sobre como era a vida no Quariterê é o Anal de Vila Bela de 1770. De acordo com o documento, a rainha Teresa tinha sido escrava do capitão Timóteo Pereira Gomes e reinava soberana no quilombo com firmeza e rigor. Lá foi registrado:

“A rainha Teresa governava esse quilombo a modo de Parlamento, tendo para o conselho uma casa destinada, para a qual, em dias assinalados de todas as semanas, entravam os deputados. Isso faziam, tanto que eram chamados
pela rainha, que era a que presidia e que naquele negral Senado se assentava, e se executavam à risca, sem apelação nem agravo”.

Pintura de 1824 mostrando negros lutando com passos de capoeira / Crédito: Wikimedia Commons

 

Esse aspecto “democrático” vinha acompanhado de brutal disciplina. Uma necessidade para manter a comunidade a salvo, conforme afirma a doutora em antropologia e
especialista em populações indígenas e quilombolas Edir Pina de Barros, no artigo Quilombos: Resistência Negra em Mato Grosso.

Segundo a pesquisadora, Teresa aplicava duros castigos, como enforcamento, fratura das pernas e enterramento vivo para aqueles que desertassem, uma vez que isso colocaria em risco a segurança, a defesa e a própria existência do quilombo.

Mas de pouco adiantaria disciplina militar sem armas. Para lutar em melhores condições com os portugueses, os quilombolas empreendiam emboscadas para o roubo de
armas de viajantes e trocavam produtos fabricados na comunidade por mosquetes, espadas e pistolas com a população branca da região.

A própria Teresa encabeçava algumas dessas missões comerciais, onde também vendia o excedente da produção quilombola por ouro ou pedras preciosas, eventualmente revertido em mais armas.

“Os quilombos são entendidos erroneamente como espaços sociais isolados”, afirma Farias Junior. “Isso se deve, em grande parte, à legislação colonial. O Conselho Ultramarino dizia que o quilombo tinha um número mínimo de pessoas, estava isolado e com economia de subsistência, mas se verifica que os quilombos participavam de diferentes maneiras da economia regional.”

Em seu artigo, Edir Pina afirma que a fartura do Quariterê contrastava com a escassez que reinava na época em Vila Bela e nas minas de Mato Grosso: “Tal abundância relacionava-se à forma de apropriação da terra (pelo trabalho), disponibilidade de mão de obra e, sobretudo, trabalho cooperativo e solidariedade social”.

Nas roças, os produtos eram variados e, além dos voltados para a alimentação – complementada pela caça e pesca – eram cultivados fumo e algodão. O algodão como matéria prima para a tecelagem, outra atividade do quilombo. Tecidos eram uma importante moeda de troca por armas. Havia, ainda, duas tendas de ferreiro. “Através de relações mantidas com a sociedade ‘branca’, obtinham ferro, além de sal e outros artigos”, afirma Pina.

Retrato da escravidão no Brasil do século 19 / Crédito: Getty Images

 

Apesar de todos esses cuidados, o Quariterê seria conquistado em 1770. A posição do quilombo o tornava um alvo particularmente crucial para o governo português. A fuga de escravos e a formação de quilombos preocupavam os administradores coloniais de Vila Bela. O escape para os domínios espanhóis dificultava a recaptura e impedia a realização de expedições punitivas.

Em 27 de junho partiu uma companhia especificamente montada para atacar o quilombo. No dia 22 chegaram, abriram fogo e a maioria dos quilombolas conseguiu fugir. A rainha Teresa ordenou que os quilombolas pegassem em armas para resistir, não só os mosquetes já citados, como arcos e flechas indígenas.

“Alguns de seus súditos assim o fizeram, acudindo à voz e pegando em armas; mas não puderam usar delas pela força que viram contra si”, relata o Anal de Vila Bela, que conta ainda que, “seguindo os soldados as trilhas, foram abalroando em várias malocas daqueles inimigos, dos quais alguns se puseram em resistência, de forma que os soldados, em sua necessária defesa, se viram obrigados a fazerem-lhe tiro para salvarem as suas vidas.

Sendo os encontros muitos, e muitas as resistências, não houve da nossa parte perigo algum de vida. Da parte daqueles infiéis morreram a tiro nove, dos quais foram apresentadas ao Senado 18 orelhas”.

Além dos mortos, um total de 79 negros e 30 indígenas foram capturados e levados para Vila Bela. Lá, após sofrerem humilhação pública, foram marcados a ferro com a letra F (de “fujão”) e devolvidos para os seus proprietários, como determinava a lei de então. Entre os capturados estava Teresa.

Ante a destruição do quilombo que liderava, a rainha capturada enlouqueceu. “Posta aí em prisão, à vista de todos aqueles a quem governou naquele reino, lhe diziam estes palavras injuriosas, de forma que, envergonhada, se pôs muda ou, para melhor dizer, amuada. Em poucos dias expirou de pasmo. Morta ela, se lhe cortou a cabeça e se pôs no meio da praça daquele quilombo, em um alto poste, onde ficou para memória e exemplo dos que a vissem”, descreve o documento colonial.

Mas ainda não foi esse o fim do Quariterê. Os quilombolas que conseguiram fugir do ataque se escondendo se reorganizaram na mata, tornaram e reergueram seu assentamento. Somente em 1795 o quilombo foi finalmente eliminado, numa investida que contou com a participação de um negro forro capturado na ação de 25 anos antes. Teresa entraria para a História como uma das menos faladas mártires do período colonial.

O SAMBA E A DATA

Desfile da Viradouro em 1994 / Crédito: Dompinio Público

 

Embora ainda desconhecida de muita gente, Teresa já foi até enredo de escola de samba. No carnaval de 1994 a Viradouro foi para a avenida com Teresa de Benguela, Uma Rainha Negra no Pantanal, que contava a história da escrava fugida que encontrou no quilombo a esperança de liberdade. A rainha também é lembrada pela lei.

Desde 2014, no dia 25 de julho é celebrado o Dia Nacional de Teresa de Benguela e da Mulher Negra. A data é a mesma do Dia da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha, criado em 1992, no I Encontro de Mulheres Negras da América Latina e do Caribe, na República Dominicana.


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