Matérias » Idade Média

Guarda Varangiana: Vikings em Constantinopla

Do século 10 até o século 14, mercenários escandinavos se tornaram parte central na defesa do Império Romano do Oriente

Letícia Yazbek e Thiago Lincolins Publicado em 04/11/2019, às 12h08

None
- Reprodução

Durante o verão de 987, os homens do general bizantino Bardas Focas se preparavam para invadir Constantinopla. Antes aliado do imperador Basílio II, Focas havia se rebelado para lhe tomar o poder e controlar o Império. Mas o imperador, que já esperava o ataque inimigo, contava com uma arma secreta. Em um acordo com o príncipe Vladimir I, dos Rus de Kiev, 6 mil guerreiros foram enviados para lutar pelo exército bizantino — em troca, Vladimir se casou com Ana, irmã do imperador.

Antes que Focas pudesse atacar, um grupo atravessou o Estreito de Bósforo em direção a Crisópolis, atual Üsküdar, onde os rebeldes festejavam. Armados com machados e espadas, os nórdicos trucidaram grande parte dos inimigos e colocaram em fuga os poucos que restaram.

No ano seguinte, os guerreiros enfrentaram Bardas Focas e seus homens na sangrenta Batalha de Abido, que terminou com a morte do general e na consolidação do poder de Basílio II — e de seu exército estrangeiro.

Era a instituição permanente da guarda varangiana, unidade de elite do exército bizantino que atuou como tropa de choque e defesa pessoal dos imperadores até o século 14. Conhecida pela fidelidade e violência extremas, seria a tropa mercenária mais famosa da História.

Vikings russos

O que vikings faziam na Ucrânia? No século 9, parte dos nórdicos que viviam na região de Uppland, hoje pertencente à Suécia, iniciou um movimento de migração em direção ao leste, em busca de prata e produtos como peles e âmbar. Liderados pelo rei Rurik, tomaram a cidade eslava de Novgorod.

Os guerreiros andavam sempre com machados e espadas / Crédito: Reprodução

 

Esses invasores eram chamados de rus. Segundo os pesquisadores Hunt Janin e Ursula Carl, autores de Mercenaries in Medieval and Renaissance Europe (Mercenários na Europa Medieval e Renascentista), “a palavra rus provavelmente tem origem no idioma nórdico antigo, e significa os homens que remam”, referência à forma como os vikings chegavam, de barco.

Excelentes navegadores, os rus passaram a comercializar com os árabes e os gregos, controlando importantes rotas comerciais, como a do Rio Volga, que ligava o Mar Báltico ao Mar Cáspio, e a do Rio Dniepre, que os levava ao Mar Negro e a Constantinopla — o mais poderoso e organizado Estado da Europa, que seria alvo de ataques rus.

“Em 860, os varangianos [nome pelo qual os bizantinos os chamavam] atacaram e pilharam os arredores da capital imperial e, mesmo sem conseguir atacar Constantinopla devido à sua fortificação, eles se mostraram, conforme fontes bizantinas, como forças devastadoras”, afirma o historiador Johnni Langer, da Universidade Federal da Paraíba.

Em 882, sob o comando de Oleg, sucessor do rei Rurik, os rus migraram para o sul, em direção ao Rio Dniepre e à cidade de Kiev, expandindo seu território e influência na região. A partir de então, até por volta de 970, realizaram mais uma série de ataques ao Império Romano do Oriente (eles nunca se chamaram de bizantinos), que, diante do poder ofensivo inimigo, acabaram cedendo vantagens comerciais e oferecendo acordos de paz.

A serviço do imperador

No fim do século 10, enquanto muitos rus se aventuravam pelas rotas comerciais, outros optaram por atuar como uma guarda mercenária. Segundo Langer, há evidências de que a presença de vikings em uma elite militar bizantina teve início ainda no século 9, durante o governo do imperador Teófilo (829-842), quando estrangeiros eram contratados para lutar em batalhas específicas.

Autor de The Varangian Guard — 988-1453 (A Guarda Varangiana — 988-1453), o historiador Raffaele D’Amato cita uma operação realizada contra os muçulmanos de Creta, em 902, quando cerca de 700 varangianos estavam a serviço dos bizantinos.

O termo varangiano surgiu no século 9, quando os primeiros rus começaram a servir o Império Bizantino. Foi usado inicialmente pelos bizantinos e depois apropriado pelos rus. Segundo Janin e Carl, a palavra tem origem no termo nórdico antigo vaering, que significa algo como aliado, confiança ou voto de fidelidade.

“Ela se refere a um grupo de guerreiros ou comerciantes que jurou lealdade ao seu líder e fraternidade entre si.” Foi só em 988, após o acordo entre Basílio II e Vladimir I de Kiev, quando a tropa de 6 mil homens foi enviada em auxílio ao imperador, que a aliança política entre norte e sul foi consolidada.

Impressionado com a rapidez, a ferocidade, o empenho e as técnicas de ataque com que ao varangianos derrotaram os homens de Bardas Focas, Basílio II decidiu contratá-los como sua guarda pessoal. A vantagem, para ele, era enorme: além da fama de brutalidade, que fazia com que fossem respeitados por onde passassem, o povo era conhecido por sua lealdade comprovada.

Os estrangeiros logo se mostraram muito mais habilidosos e confiáveis do que os próprios guardas bizantinos. “Sendo mercenários, podiam ser controlados com dinheiro, sempre uma vantagem em vez de recrutar bizantinos — que poderiam se rebelar por questões políticas ou sociais”, conta Langer.

Utilizada principalmente como defesa do palácio e do imperador, a guarda varangiana era a unidade mais bem paga de todas as tropas do Império. Focados no objetivo de enriquecer, os soldados nórdicos se entregavam à tarefa em troca de dinheiro, terras e cidadania.

Diante da lealdade e do terror provocado pelos varangianos, os sucessores de Basílio II continuaram a utilizá-los como guardas pessoais e tropa especial. Ao longo dos séculos que se seguiram, a guarda ganhou importância e se tornou uma das forças mais respeitadas do Império.

Ajuda decisiva 

Inicialmente, a guarda era composta de descendentes de escandinavos. À medida que crescia, passou a incluir diferentes homens, entre eles: anglo-saxões, irlandeses e escoceses. Na época, era uma honra servir aos imperadores bizantinos.

Assim, uma taxa de 7 a 16 libras (328 g, na libra romana) de ouro passou a ser cobrada para que os homens pudessem entrar na guarda. Muitas vezes o próprio imperador emprestava a quantia. Em troca, os soldados pagariam a dívida com o salário que recebiam por suas atuações. A confiança que os imperadores investiram nos guerreiros só foi possível devido aos esforços nos campos de batalha.

Durante a Batalha de Beroia, em 1122, no local que é hoje a Bulgária, a guarda varangiana demonstrou todo o seu poder. Inicialmente, o conflito foi travado entre o exército regular com pechenegues, um povo seminômade da Ásia Central que havia invadido o Império. Essas tropas bizantinas não foram capazes de conter a invasão.

A luz no fim do túnel veio com os varangianos. Com machados dinamarqueses que mediam em torno de 1 metro, e com uma enorme fúria, os vikings fizeram com que os pechenegues fugissem. Os que sobreviveram foram aprisionados e se juntaram às fileiras da guarda varangiana.

Soldado-celebridade

Um nome notório que atuou na guarda foi Harald Hadrada. O futuro rei da Noruega chegou a Constantinopla em 1034. Como membro da guarda, se diferiu dos vikings que protegiam os imperadores. Hadrada e os seus 500 homens participaram de batalhas nas fronteiras do Império.

Inicialmente, ele e os seus homens participaram de campanhas contra piratas árabes no Mediterrâneo. Depois foram para as cidades do interior da Ásia Menor. Por volta de 1035, Harald também prestou serviços no leste do Eufrates.

Harald Hadrada / Crédito: Wikimedia Commons

De acordo com os relatos de Thiodholf Arnorsson, poeta da corte dos reis, ele participou da captura de 80 fortalezas árabes. O prestígio veio quando Harald, e os outros guerreiros varangianos, foram enviados para lutar na Bulgária, em 1041, ao lado do exército liderado por Miguel IV, contra a revolta búlgara.

Após o conflito, Harald recebeu o título de honra bizantino Spatharokandidatos (Espatarocandidato) e o apelido Bolgara brennir (Búlgaro queimador), devido à sua participação intimidadora.

“No serviço da Guarda, Hardrada viu ação extensiva, tendo participado de campanhas na Itália, Sicília, Bulgária e no Oriente, tendo ainda viajado até Jerusalém, possivelmente em escolta de peregrinos de alta importância no Império Bizantino. Sua vida no leste lhe garantiu fama, reputação e uma boa fortuna, que usou para financiar sua reivindicação ao trono da Noruega”, diz Langer.

Harald teria sido preso após a realização de um saque indevido da fortuna do imperador Miguel V. Ele foi libertado quando o imperador perdeu o trono após um reinado curto de quatro meses. Só deixaria a guarda de fato em 1043, quando voltou para a sua terra e iniciou o processo para assumir o trono da Noruega.

Desastre 

O declínio dos vikings bizantinos se relaciona, em grande parte, à queda de Constantinopla, devido às consequências da Quarta Cruzada, de 1204. Foi feito um acordo com a República de Veneza para prover o transporte deles até o Egito, no caminho para a reconquista de Jerusalém. Mas, antes mesmo de saírem, receberam uma proposta do príncipe Alexios Angelos para realizarem um desvio para Constantinopla.

Angelos queria que eles o ajudassem a se instalar no trono de seu pai, Alexios III, deposto por uma revolta. Em troca, receberiam suprimentos e financiamento para o resto da missão. Com a ajuda dos cruzados e seus aliados venezianos, Alexios, o filho, seria feito imperador em 1203.

No ano seguinte, outra revolta o levou do trono para o precipício. Quando os cruzados souberam que Alexios havia sido executado, decidiram tomar Constantinopla — o notório saque seria a forma de receberem o pagamento prometido pelo imperador.

O cerco começou em 8 de abril de 1204, e no dia 12 os cruzados conseguiram atravessar os muros, iniciando um saque que iria até o dia seguinte. E foi nesse momento que os vikings bizantinos entraram em ação. A guarda travou uma sangrenta luta com os venezianos que escalaram as muralhas pelo mar. Mas foi em vão, diante dos números dos cruzados.

Com a capital do Império queimada, saqueada e vandalizada, a guarda varangiana perdera o seu impacto. Passou a desempenhar funções secundárias ou cerimoniais. Alguns dos guerreiros ainda serviram ao Império de Niceia ou ao Principado do Epiro, fragmentos do Império Romano do Oriente.

Outros varangianos lutaram contra os búlgaros em 1265. Em 1351, foram mencionados como guardas do imperador João V. “Diversos elementos da identidade dos vikings bizantinos eram providos pela cultura e religião nórdica pagã, que desapareceram aos poucos com a cristianização dos guerreiros”, afirma Langer.

Constantinopla voltaria às mãos dos bizantinos, pela Dinastia Paleóloga, em 1261 . A essa altura, os nórdicos já estavam totalmente integrados na vida cristã europeia. Não havia mais vikings. A guarda não foi reconstruída.

O novo Império Romano — eles continuaram a se chamar assim, nunca bizantinos ou gregos — não duraria dois séculos, caindo diante dos canhões de 5 metros do Império Otomano em 1453. Provavelmente, a essa altura, uma força viking não teria muito a fazer. Mas nunca vamos saber.