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Cozinha Venenosa: Münchener Post, o jornal que enfureceu o Führer

Quando os nazistas eram apenas um pequeno grupo comandado por um artista fracassado, o periódico já denunciava sua perigosa ideologia

André Nogueira Publicado em 12/04/2020, às 09h00

Ilustração presente no jornal
Ilustração presente no jornal - Domínio Público

Um significativo veículo de combate a ascensão do nazismo de Adolf Hitler na Alemanha foi o pequeno jornal Münchener Post, que o tirano costumava chamar de Cozinha Venenosa (pois era de venenoso que Hitler chamava tudo o que odiava). Hoje em dia, o esquecido periódico é mais conhecido graças ao trabalho do jornalista Ron Rosenbaum.

“Entre Hitler e os corajosos repórteres e editores do ‘Post’ é um dos grandes dramas nunca relatados da história do jornalismo”, diz Rosenbaum, defendendo que o jornal foi o primeiro a atacar o líder nazista quando foi percebido que era uma ameaça à democracia.

O jornal fazia denúncias, chacotas e análises do jovem Adolf. Ron denuncia que a história do periódico “nunca foi contada de verdade, sequer na Alemanha, ou talvez especialmente na Alemanha, onde é mais consolador para a autoimagem nacional acreditar que ninguém realmente sabia quem era Hitler, até ser tarde demais”, mas “os redatores do Münchener Post sabiam, eles publicaram a verdade para quem estivesse disposto a vê-la”.

Crédito: Domínio Público

 

O Münchener Post foi criado na década de 1880 como um seminário pequeno ligado aos socialistas do Partido Social Democrático, se tornando diário em 1890. Com o tempo, aumentou e criou diversas oficinas com profissionais bem pagos e engajados, até se tornar um dos grandes veículos de imprensa da Baviera, com tiragem de 30 mil cópias.

Na Primeira Guerra, se posicionou contra o conflito até que ele começasse; então, seguindo orientações do partido, passou a apoiar os esforços de vitória da Pátria. Já no entreguerras, em meio à ascensão do nazismo, teve dois de seus jornalistas (Erhard Auer e, Kurt Eisner), que também eram políticos, baleados em atentados (Eisner morreu).

A partir de abril de 1920, o editorial do periódico começou a relatar e denunciar o que foi chamado de Partido da Suástica e seus correligionários, liderados por uma estranha figura de discurso inflamado, um pintor de aquarelas austríaco fracassado, que lutou na Guerra e que comandara um movimento em uma cervejaria, emergindo na política.

No dia do Golpe da Cervejaria, a sede do Post foi brutalmente vandalizada / Crédito: Domínio Público

 

“Na terça-feira à noite, um senhor chamado Hitler falou sobre o programa desse ‘partido’. Ele soltou as mesmas palavras e disparou os mesmos clichês que somos obrigados a ouvir nos eventos de propaganda nacionalista. Caluniou a social-democracia por sua defesa da Internacional e pregou o antissemitismo nos moldes nacionalistas”, segundo o jornal. “[Seu discurso,] lembrando uma cantiga, trazia a cada três frases o refrão ‘a culpa é dos hebreus’. Não há infâmia ou porcaria que não seja atribuída aos judeus”.

Com as notas do Post, Hitler começou a vê-lo como inimigo, citando-o em comícios do Partido e difamando-o pelo Völkischer Beobachter, jornal do partido nazista. Xingamentos não faltavam contra os jornalistas: “sapo judaizante da Altheimer Eck”, “jornal judeu”, “arremessador piolhento de lama”. Até no Mein Kampf o Post foi citado negativamente.

Na disputa discursiva entre Hitler e o Münchener Post, pôs-se a prova uma das maiores características do nazismo: sua capilaridade e sua capacidade de chegar ao povo. O veículo jornalístico sofria com uma questão fundamental, que se resume à incapacidade de muitos de seus jornalistas de escreverem textos acessíveis, caindo numa linguagem analítico-política muito menos compreensível para a população.

Otto Von Kahr proibiu a circulação do Post depois do golpe de 1923 / Crédito: Wikimedia Commons

 

Em diversas vezes, o Post, junto a toda imprensa progressista, foi censurado, fechado ou invadido por forças da extrema-direita. Mas foi com as eleições de 1930 que o jornal passou por momentos críticos de conturbação: iniciou o que a jornalista Silvia Bittencourt chamou de “a campanha mais suja de sua história”, enquanto o Partido Nazista crescia nas intenções de voto.

O Post liberou uma carta intitulada A Vida Sexual no Terceiro Reich, de um consultor jurídico do PSD, Eduard Meyer, dirigida ao líder miliciano Ernst Röhm, acusando e detalhando uma suposta vida homossexual do nazista. O episódio acabou com um processo malsucedido por Röhm, o suicídio de Meyer e a prisão de sua esposa. Hitler continuou crescendo e assumiu em 1933.

No mesmo ano, os nazistas invadiram a sede do jornal e destruíram todo o equipamento, jogaram móveis pelas janelas e queimaram documentos. Os jornalistas se esconderam, pois eram forte alvo do Führer, mas este evento marcou o fim daquele que foi o principal jornal de oposição ao ascendente Adolf Hitler.


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