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A história por trás de uma das múmias mais curiosas do Egito

Por muito tempo, cientistas pensavam que se tratava de uma “múmia falcão”, mas descobriram uma tragédia familiar de 2 mil anos

Isabela Barreiros Publicado em 28/11/2021, às 12h18

Sarcófago da múmia egípcia anteriormente conhecida como "Hawk Mummy”
Sarcófago da múmia egípcia anteriormente conhecida como "Hawk Mummy” - Divulgação/Museu Maidstone

Um médico britânico fez uma doação inusitada ao Museu Maidstone, em Kent, no Reino Unido, há quase um século. Ele decidiu oferecer à instituição uma múmia egípcia guardada em um sarcófago que pesquisadores acreditaram pertencer a um falcão.

Ao longo de todo esse tempo, essa foi a única hipótese sustentada pelos cientistas. "Acreditava-se que era uma múmia votiva de falcão por causa da cartonagem", explicou Andrew Nelson, bioarqueólogo e professor de antropologia da Universidade de Western Ontario, no Canadá. 

No Egito Antigo, a técnica milenar da cartonagem consistia em aplicar camadas de linho ou papiro cobertas em gesso decorado no que seria embalsamado. Neste caso, a parte superior do indivíduo mumificado tinha similaridade com um falcão.

Sarcófago da múmia analisada pelos cientistas no estudo / Crédito: Divulgação/Museu Maidstone

 

O material foi exposto como tal uma série de vezes pelo museu, sob o nome de "Hawk Mummy”, “Múmia Falcão”, em tradução livre. Até pesquisadores da instituição, liderados por Nelson, decidirem examinar a múmia usando uma micro-tomografia computadorizada.

Somente a partir disso foi possível perceber que não se tratava de um pássaro embalsamado, mas sim de um humano. O estudo revelou que aquele era o corpo mumificado de um menino natimorto que sofria de anencefalia.

Múmia com anencefalia

O procedimento técnico permitiu que os cientistas tivessem uma visão de dentro do sarcófago e até mesmo da múmia, sem que precisassem abrir a cartonagem e danificar o pequeno feto. Eles obtiveram imagens de alta resolução do corpo mumificado.

A partir do material, foi possível perceber que se tratava de um bebê que nasceu morto em uma idade gestacional entre 23 e 28 semanas. Além disso, ele sofria de anencefalia, uma condição rara que faz com que parte do cérebro e crânio não se desenvolvam.

Múmia egípcia com anencefalia / Crédito: Divulgação/Universidade de Western Ontario

 

"Toda a parte superior de seu crânio não está formada", explicou Andrew Nelson, que também é especialista em múmias. “Os arcos das vértebras da coluna não se fecharam. Os ossículos [ossos do ouvido] estão na parte de trás da cabeça”.

Ele completou: “Neste indivíduo, a caixa craniana nunca se formou e provavelmente não havia um cérebro”.

Para o pesquisador, a nova análise da múmia de um bebê com anencefalia de 2.100 anos revelou sua verdadeira identidade e, ainda, uma tragédia familiar que ocorreu no Egito Antigo.

"Teria sido um momento trágico para a família perder seu bebê e dar à luz um feto de aparência muito estranha, não um feto de aparência normal", lamentou. "Portanto, este era um indivíduo muito especial."

A análise mostrou ainda que a criança provavelmente foi mumificada de maneira muito cuidadosa e sua cartonagem apresenta imagens intrigantes de Osíris, o deus egípcio do submundo, as deusas Ísis e Néftis, além do "pássaro ba", que é "um símbolo de proteção e boa saúde", segundo Nelson.

As inscrições da cartonagem intrigaram os cientistas e também os relembraram de uma história que remonta ao período romano e que repercutiu até o período em que o indivíduo foi mumificado.

A micro-tomografia computadorizada feita na múmia / Crédito: Divulgação/Universidade de Western Ontario

 

Na época, a múmia poderia ser considerada como detentora de uma espécie de “poder” por ser um feto.

"A sugestão de que o feto teria agência ou poder vem de uma petição legal datada da época dos romanos, onde um fazendeiro reclama que alguém que estava roubando seus grãos usou um feto para impedi-lo de impedir o roubo", explicou Nelson.

Como conta a lenda, o ladrão então teria jogado um feto no fazendeiro, e "o poder do feto era tal que o fazendeiro e vários anciãos da aldeia ficaram paralisados ​​de inércia", ainda de acordo com o especialista.

No entanto, a repercussão dessa história na múmia não está sendo investigada no momento porque a equipe não tem conhecimento de onde ou como os restos mortais foram enterrados, portanto, não é possível saber se eles foram incomodados para que fosse usado pelos seus supostos “poderes”.

Esta é a segunda múmia com anencefalia confirmada do Egito Antigo. A primeira foi descrita pelo zoólogo francês Etienne Geoffroy Saint Hilaire em 1826; ela foi descoberta "em um depósito de múmias votivas de babuínos", de acordo com o pesquisador.


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