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O ilustre desconhecido das ruas de São Paulo: a história por trás do Fofão da Augusta

Icônico personagem das vias públicas da capital, Ricardo Corrêa da Silva, só teve sua história revelada meses antes de seu triste fim

Fabio Previdelli Publicado em 07/03/2020, às 09h00

Ricardo Corrêa da Silva, o Fofão da Augusta
Ricardo Corrêa da Silva, o Fofão da Augusta - Divulgação

De cabelos tingidos de loiro, normalmente num corte que não passava da altura dos ombros, uma peculiar figura chamava atenção nos faróis da região da Rua Augusta, no centro de São Paulo, para pedir dinheiro cada vez que a sinaleira brilhava na cor vermelha.

Além das madeixas bem cuidadas, ele também tinha um zelo especial com sua aparência. Tanto é, que chegou a injetar silicone no rosto porque queria parecer com bonecas de louça chinesa.

As bochechas inchadas lhe renderam um cruel apelido. O artista de rua que passou mais de 20 anos entregando folhetos de peças de teatro, virou uma espécie de lenda urbana pelas vias públicas da capital. Todos conheciam — e se assustavam — com o Fofão da Augusta.

Crédito: Divulgação

 

Além da parte proeminente em cada uma das maçãs, com o tempo, parece que todo o conteúdo artificial que foi injetado em seu rosto pereceu para a gravidade, o que lhe fez desenvolver uma notável papada.

As características do formato da face contrastavam com o nariz fino, que aparentava ser a parte mais delicada do conjunto. Já a boca, era sinteticamente preenchida e, geralmente, estava coberta por um intenso batom vermelho.

A maquiagem, aliás, era um artificio recorrente do pedinte, que costuma cobrir sua cara com um pancake branco. Ainda, ele completava a pintura facial com coloridos losangos em cima dos olhos.   

Apesar de ter uma feição conhecida na rotina de muitos paulistanos, poucos sabiam quem era a real figura que dava vida ao personagem. Na verdade, seu nome só foi conhecido há pouco tempo, graças ao implacável trabalho de pesquisa jornalística feita pelo repórter Chico Felitti.

A vida do figurão foi relata com maestria por Felitti em um artigo publicado há 3 anos no BuzzFeed. Além do mais, o sucesso da reportagem, inspirou Chico a ampliar sua pesquisa e publicar o livro-reportagem Ricardo e Vânia, da Editora Todavia.

Mas quem foi o Fofão da Augusta?

Natural de Araraquara, ele era um entre os quatro filhos do casal Edite e Frank. Seu progenitor era uma figura conhecida na urbe interiorana. Lá, ele foi dono da primeira loja de rádios da cidade. Era bem conceituado e convivia com a elite local. Porém, a bebida, somada as más decisões de negócios, fizeram com que ele perdessem praticamente tudo.

Conforme ele foi crescendo, a sexualidade virou um assunto recorrente na família. Um de seus irmãos era bissexual, o outro era gay, assim como ele. Aliás, foi por esse motivo que se viu obrigado a mudar para a capital do Estado.

Crédito: Divulgação/Youtube

 

Em Araraquara, ele já era famoso por ser um exímio cabelereiro. Aqui, segundo Marcelo, seu irmão, ele começou sua carreira no salão Shirley’s  — onde ele aprendeu a fazer uma das melhores escovas da cidade.

Nos anos 1980, ele já tinha uma clientela muito fiel que o visitava constantemente, porém, sua passagem por lá não durou muito tempo e logo foi convidado para trabalhar em outros salões. Um deles foi o Casarão, na Bela Vista. O sofisticado local ficava a poucas quadras da formosa Avenida Paulista, mas, nos anos 2000, o espaço deu lugar para uma agência de publicidade. Hoje, o local está desocupado.

No Casarão, ela maquiou muitas pessoas famosas, como a atriz Gloria Menezes e, segundo ele, a apresentadora Ana Maria Braga. Neste período, entre a metade dos anos 1980 e 1990, ele vivia numa quitinete na Avenida São João, no centro da cidade.

Na época, ele namorava uma figura chamada Wagner, com o qual iniciou a prática de aplicar silicone no rosto. Dos tempos áureos para o fim mais humilde, as informações são mais escassas. Amigos dizem que durante alguns anos ele foi sócio em um salão próximo à estação Vila Mariana. Eles dizem que a outra dona do lugar lhe deu um calote e, assim, ele ficou sem ter onde morar.

A partir daí, na segunda metade dos anos 1990, ele começou a pedir dinheiro pelas ruas. Com esse contato mais popular, ele também  ganhou a alcunha que lhe acompanharia pelo resto da vida.

Fofão trocava o luxo dos salões pela modéstia dos paralelepípedos, e passou a ganhar uns trocados para distribuir folhetos de peças teatrais. Segundo Alessandro Jamas, atualmente professor de gramática na Fundação Casa, a antiga Febem, quando ele tinha 21 anos, passou a se juntar com a “gangue” do personagem que ficava “nas ruas da Paulista pedindo dinheiro para peça de teatro”.

O grupo passou a ter 25 membros e os dois se tornaram grandes amigos. Durante dez anos, eles angariaram dinheiro para a produção de uma apresentação, porém, ela nunca foi montada. “Então, não tinha espetáculo. O show era ali, na hora. As caras pintadas, os figurinos. Eu usei um vestido de noiva da minha mãe, todo de renda Guipir, era um show bonito”. No fim do expediente, eles se reuniam para um de seus programas prediletos: comer em fast foods.

Sem uma residência fixa após a morte da mãe, e com o pai não querendo lhe ver por perto, Alessandro passou a dividir quartos em pensões no centro de São Paulo com seu amigo. O período demorou dois anos até que, por diferenças artísticas, eles se separaram.

O Fofão da Augusta passou por inúmeras internações, a maioria delas ocorreu devidos às inúmeras agressões físicas que ele sofreu nas ruas. Nesse meio tempo, ele também desenvolveu um quadro de problema psiquiátrico. 

Na sua última internação, em 2017, ele ficou nas instalações do Hospital das Clinicas. Lá, estava registrado como uma pessoa de identidade desconhecida. Papel que ele já costumava desempenhar com frequência em sua vida como indigente.

Desorientado e falando coisas desconexas, ele tinha constantes surtos e queria bater em todas as enfermeiras. Internado desde março daquele ano, ele teve que passar por uma intervenção cirúrgica devido a uma infecção em sua mão — que foi causada porque moscas botaram ovos em sua pele, que logo chocaram e, assim, as larvas que nasceram começaram a se alimentar do hospedeiro. Com isso, ele teve que amputar um de seus dedos.

Enfim sua identidade é reconhecida

Felitti conta que recebeu uma mensagem no Facebook contando toda a situação do personagem, o qual ele já havia tentado entrevistar há alguns anos. Assim, ele passou a receber visitas constantes de Chico, que foi uma peça fundamental para a recuperação de identidade do artista. Graças ao trabalho do jornalista, meses depois, o Fofão da Augusta finalmente foi reconhecido por seu nome: Ricardo Corrêa da Silva, que completaria 60 anos no fim de 2017.

Após passar meses internado, no dia 16 de maio daquele ano, Ricardo finalmente recebeu alta médica. Entretanto, seu quadro não era dos mais fáceis. O relatório médico afirmava que o paciente  não tinha "capacidade de autocuidado ou administração de medicação por conta”. Ele não poderia ficar sozinho.

Ele havia sido encaminhado para Centro de Acolhida chamado Esperança, que ficava na Rua Cardeal Arcoverde. Ao chegar lá, o jornalista foi informado que não ninguém havia dado entrada lá com o nome de Ricardo Corrêa da Silva.

Duas horas depois, ele foi informado pela assistente social que Ricardo havia embarcado num carro do Hospital das Clinicas em direção ao abrigo, mas, chegado lá, ele virou de costas e foi embora enquanto funcionários faziam seu registro.

Por não poderem obrigá-lo se internar, os funcionários não puderam fazer nada. Ele havia voltado para sua verdadeira casa que, apesar das diversidades, havia lhe acolhido: a Rua Augusta. Em dezembro daquele ano, a pior notícia chegou ao conhecimento do jornalista. Ricardo Corrêa da Silva havia padecido em decorrência de uma parada cardíaca.


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