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Passo Dyatlov: Um horripilante mistério soviético

Em 1959, um grupo de estudantes tinha um letal encontro com algo que os fez fugir sem roupa pelo meio do gelo, enquanto seus companheiros foram mortos com brutalidade. Mas o que fez isso não é nada fácil responder

Letícia Yazbek Publicado em 08/08/2019, às 07h00 - Atualizado às 23h00

O acampamento destruído, abandonado pelo grupo de esquiadores
Crédito: Reprodução

Era 2 de fevereiro de 1959 quando nove estudantes soviéticos — sete homens e duas mulheres — tiveram sua viagem para apreciar a natureza interrompida, na face leste da montanha Kholat Syakhl, ao norte dos montes Urais, a mais de 1300 km de Moscou. 

O acampamento foi encontrado abandonado, com as barracas rasgadas de dentro para fora. Um conjunto de pegadas seguia até um bosque próximo, onde foram encontrados os primeiros dois corpos, descalços e usando apenas roupas de baixo. Mais adiante, próximo a um pinheiro, estavam mais três corpos, em posição que sugeria que os mochileiros estavam tentando voltar para o acampamento. Os últimos quatro corpos só foram encontrados dois meses depois, sob quatro metros de neve, em um barranco próximo ao bosque. Os corpos revelariam indícios de brutal — e inexplicável — violência.

Amantes da natureza

Visitar as paisagens naturais do país era um hábito popular e incentivado na União Soviética. O próprio Lenin era fã de longos retiros em lagos e florestas. 

O grupo era formado por estudantes ou graduados do Instituto Politécnico de Ural — todos tinham experiência em escaladas, excursões de esqui e expedições em montanhas. O objetivo era chegar à montanha Otorten, localizada a cerca de 10 quilômetros ao norte do local do incidente.

Liderados por Igor Alekseyevich Dyatlov, os membros pegaram um trem para a cidade de Ivdel e seguiram de caminhão para Vizhai, o último assentamento habitado ao norte. Em 27 de janeiro, começaram a jornada em direção a Otorten. No dia seguinte, um dos integrantes, Yuri Yudin, abandonou a expedição devido a problemas de saúde — Yudin viveria até os 75 anos de idade.

Parte do grupo liderado por Dyatlov / Crédito: Reprodução

Por meio de câmeras e anotações, foi possível rastrear o restante do caminho percorrido pelo grupo. Em 1º de fevereiro, os mochileiros planejavam atravessar um vale e acampar do outro lado durante a noite. No entanto, as tempestades de neve e as péssimas condições de visibilidade fizeram com que o grupo acabasse se perdendo e seguisse para oeste, ao topo da montanha Kholat Syakhl. Ao perceber que estavam indo na direção errada, decidiram parar e acampar no declive da montanha. E todo mundo morreu.

Achado chocante

Dyatlov deveria enviar uma mensagem telegráfica assim que o grupo retornasse a Vizhai, por volta de 12 de fevereiro. No dia 20, nenhuma mensagem havia chegado. Os familiares dos estudantes exigiram uma operação de resgate, e as primeiras equipes de busca foram enviadas. Helicópteros e aviões do exército e da polícia também se envolveram nas buscas.

Em 26 de fevereiro, militares e a polícia encontraram o acampamento abandonado, na cena que abre esta matéria. Com detalhes brutais: as investigações constataram que pelo menos quatro dos mochileiros receberam ferimentos fatais — dois apresentavam fraturas cranianas e dois tinham extensas fraturas torácicas. Um dos mortos foi encontrado sem a língua. Apesar disso, nenhum deles trazia feridas externas consideráveis, o que derruba a hipótese de que eles foram atacados por animais selvagens.

Também foi levantada a suspeita de que as mortes foram causadas pelo povo indígena Mansi, habitante da região, mas apenas as pegadas foram encontradas e não havia sinais de combate corpo a corpo.

As evidências sugeriam que foram obrigados a deixar o acampamento quando já estavam dormindo e correr no meio da noite, a uma temperatura de -25ºC a -30ºC. Não se sabe, no entanto, qual foi essa ameaça.

Um dos corpos encontrados em Kholat Syakhl / Crédito: Reprodução

Inicialmente, a teoria mais popular foi a de que o grupo foi surpreendido por uma avalanche e fugiu para o bosque. Na escuridão, alguns tentaram retornar ao acampamento e morreram de hipotermia, enquanto outros foram enterrados pela neve. No entanto, a análise do local mostrou que não havia indícios de uma avalanche, que teria varrido completamente o acampamento.

De acordo com os investigadores, uma enorme força foi usada contra os mochileiros, algo que um ser humano não seria capaz de fazer. Além disso, os corpos pareciam ter sido submetidos a uma grande pressão e a altos níveis de radiação.

Túmulo dos mochileiros no cemitério de Mikhajlov, em Ecaterimburgo / Crédito: Wikimedia Commons

Em 1990, o chefe da investigação, Lev Ivanov, declarou que diversas testemunhas, incluindo militares e meteorologistas, relataram ter visto, entre fevereiro e março de 1959, esferas voadoras brilhantes na região. Segundo Ivanov, ele já suspeitava, na época, que havia uma ligação entre os casos.

Em 2013, o produtor de cinema e televisão americano Donnie Eichar divulgou sua teoria, resultado de cinco anos de pesquisa. Para ele, o grupo de Dyatlov simplesmente estava no lugar errado e na hora errada. Eles teriam se deparado com o que Eichar chama de tempestade perfeita — um minitornado extremamente violento, que produz um ruído ensurdecedor. Esse fenômeno pode gerar uma grande quantidade de infrassom, capaz de provocar falta de ar, perda de sono e, principalmente, um pânico incontrolável. Essa sensação de pânico, em meio à situação de frio extremo e escuridão, teria levado os estudantes à loucura e à morte.

Outras teorias surgiram — como a do Ieti, criatura com força sobre-humana que poderia ter causado tais ferimentos —, mas o caso foi arquivado como um incidente provocado por uma força desconhecida. E permanece um mistério.