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Exercício Lionheart: A Invasão inglesa da Alemanha... em 1984

Com 113 mil homens, a grande operação nomeada de Exercício Lionheart. foi a maior mobilização nacional desde a Segunda Guerra

Ricardo Lobato Publicado em 06/06/2021, às 09h00

Tropas britânicas participando do Exercício Lionheart
Tropas britânicas participando do Exercício Lionheart - National Army Museum

No início dos anos 1980, a Guerra Fria voltou a esquentar. A tensão entre Oeste e Leste era latente, e no meio disso estava a Alemanha — ou melhor, as Alemanhas. Dividida pelas potências Aliadas ao final da Segunda Guerra, a fronteira entre a Alemanha Ocidental e a Alemanha Oriental era o ponto onde ambos os lados acreditavam que ocorreria um confronto direto.

Em meio ao contexto extremamente turbulento, a Inglaterra invadiu a Alemanha! Todavia, tudo não passou de uma grande manobra para testar a capacidade de logística e mobilização de suas Forças Armadas. Em um movimento ousado, o Reino Unido mobilizou mais de 113 mil homens e “atacou”.

Numa grande operação nomeada de Exercício Lionheart. Lionheart (Coração de Leão, em tradução livre) foi o maior exercício militar já realizado pelas tropas britânicas, e a maior mobilização nacional desde a Segunda Guerra.

Homens do 7º Batalhão inglês em 1945/ Crédito: No 5 Army Film & Photographic Unit/Wikimedia Commons

 

A operação foi uma grande demonstração de força, que ressignificou o papel do Reino Unido em um momento em que, além do contexto da Guerra Fria, o país atravessava uma situação delicada. Internamente, as mudanças socioeconômicas empreendidas por Margareth Thatcher haviam causado uma reviravolta na sociedade, enquanto que, externamente, apesar de ainda serem um império, seu poderio internacional estava ameaçado.

Mesmo que tivessem saído vitoriosos dois anos antes em uma guerra contra os argentinos no Atlântico Sul, nem mesmo os aliados dos ingleses acreditavam que o país podia mobilizar um grande número de tropas em caso de agressão do Pacto de Varsóvia (a extinta aliança militar do bloco soviético).

A situação foi vista pelos comandantes militares britânicos como um grande teste. Primeiro, deviam mostrar ao mundo que, mesmo não sendo mais a máquina de guerra do auge da era imperial, ainda eram um adversário a altura. Segundo, o próprio Alto Comando Britânico tinha seus questionamentos sobre as reais capacidades operacionais.

Para contornar, foi elaborado um plano ousado, em que o contingente mobilizado e os recursos chamam a atenção. Aos 113 mil homens, somam-se 750 blindados e 1200 aeronaves.

O volume era tanto, que o governo recorreu às companhias de aviação civil para levar os homens à Europa continental (290 voos foram feitos); além de pedir ajuda de embarcações civis para transportar equipamentos pelo Canal da Mancha e pelo Mar do Norte – a maior mobilização desde Dunquerque. Simulando os inimigos estavam os aliados da OTAN, norte-americanos holandeses e alemães.

Comandos do Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial/ Crédito: War Office official photographer/Wikimedia Commons

 

Superando as próprias expectativas, a manobra foi um sucesso. Aquele intenso mês de operações em 1984 rendeu aprendizados que ainda são usados pelo Reino Unido, lembrando que, nesse meio-tempo, o mundo mudou: o confronto com a URSS não veio, a Alemanha se reunificou e a Guerra Fria chegou ao fim.

Hoje, a Inglaterra se adequa à nova realidade pós-Brexit. Com estratégia diferente, a nova doutrina militar do país volta a privilegiar uma Marinha de Guerra potente em
vez de grandes exércitos. Mais de 30 anos depois, a maior herança de Lionheart foi ele ter existido. Mesmo diante de tantas dúvidas e adversidades, os ingleses surpreenderam fazendo valer seu velho ditado: “Keep calm and carry on” (Mantenha a calma e continue).