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A importância da participação brasileira na Segunda Guerra: "Marcou um ponto de virada"

Em entrevista exclusiva ao site do Aventuras na História, o historiador Icles Rodrigues fala sobre as dificuldades, trocas de interesse e a conquista de Monte Castelo pelos pracinhas

Fabio Previdelli Publicado em 22/05/2021, às 10h00

Representação do slogan dos pracinhas
Representação do slogan dos pracinhas - Wikimedia Commons

Durante grande parte da Segunda Guerra Mundial, o Brasil se manteve neutro em relação ao conflito. Porém, tudo mudou em fevereiro de 1942, quando submarinos italianos e alemães lançaram torpedos contra diversas embarcações brasileiras no oceano Atlântico.  

Essa “neutralidade”, no entanto, era bem mais teórica do que qualquer outra coisa, afinal, como explica artigo disponível na Biblioteca Virtual de Direitos Humanos da USP, nosso país acabou aderindo à Carta do Atlântico em 6 de fevereiro de 1943 — formalmente em 9 de abril do mesmo ano. 

O tratado pregava uma colaboração mútua entre os Aliados, que abriram mão de tentar qualquer tipo de ampliação territorial ou intervenção política nos outros países envolvidos, preservando a soberania de cada nação. 

Em entrevista exclusiva ao site Aventuras na História, Icles Rodrigues, mestre em história e apresentador do podcast História FM, detalha as circunstâncias que levaram o Brasil a lutarem do lado dos Aliados no conflito.  

Fotografia de soldados da FEB / Crédito: Domínio Público

 

Além do afundamento das embarcações, Icles cita que a pressão dos americanos também influenciou essa escolha. "[Eles estavam] interessados principalmente no potencial de produção de borracha — uma vez que as principais fontes de borracha do mundo tinham caído nas mãos dos japoneses”, explica.  

Fora isso, relata o historiador, eles precisavam de uma base no Rio Grande do Norte para estabelecer uma ponte aérea com o continente africano, o que facilitaria o transporte de tropas, suprimentos e veículos para o front.  

“Já Vargas queria verba para a criação de uma siderúrgica nacional (no caso, a futura siderúrgica de Volta Redonda). Mas o envio de soldados brasileiros se deu porqueGetúlio entendia que, enviando soldados para o esforço de guerra, o Brasil teria mais possibilidade de fazer parte das mesas de negociações do pós-guerra”, completa.  

A participação do Exército Brasileiro também foi importante para ajudar nossos combatentes a se modernizarem, tanto em termos de material bélico, quanto em termos de doutrinas, pensamento tático, estratégico, entre outros ganhos de caráter mais intelectual do que material, explica Rodrigues.  

Anteriormente, diz Icles, “a doutrina seguida pelo Exército Brasileiro era inspirada na doutrina francesa da Primeira Guerra Mundial, bastante obsoleta para a segunda, uma vez que era adaptada para uma guerra mais estática, de trincheiras, enquanto a Segunda Guerra Mundial foi uma guerra de movimento (vide a própria Blitzkrieg, que foi considerada uma inovação para a época)”. 

Vargas mudou de posicionamento político? 

Quando Vargas chegou ao poder, em 1930, a Ação Integralista Brasileira também começou a prosperar por aqui. Inspirado no fascismo italiano e no integralismo de Portugal, a AIB foi o primeiro partido de massas do país, criada em 1932 pelo escritor e teólogo Plínio Salgado.  

Em sua essência, os integralistas eram caracterizados por sua defesa à moral religiosa, pelo nacionalismo e, principalmente, pela defesa da hierarquização social, tida como a melhor forma de manter a ordem e a paz na sociedade.   

Apesar desse ‘flerte’ com um movimento fascista, Rodrigues não crê que podemos dizer que Getúlio “trocou” sua posição ideológica. “A relação entre Vargas e os integralistas foi muito mais um exercício de pragmatismo do que de adesão ideológica, então não vejo exatamente uma ‘troca’, uma vez que ele mesmo nunca fora um fascista”. 

Sessão de encerramento do Congresso Integralista. Plínio Salgado encontra-se ao centro, sentado / Crédito: CPDOC/Wikimedia Commons

 

“Mas a adoção de um discurso dito pró-democracias ocidentais era necessário para que o Brasil estivesse na mesma página que os demais aliados. Nessa época Getúlio percebeu que precisava se reinventar como um defensor da democracia, e a Força Expedicionária Brasileira (FEB) foi instrumental nesse processo, tanto que hoje a tese de que Vargas dissolveu a FEB por medo de ela ser usada para derrubar sua ditadura é considerada ultrapassada, ainda que muito difundida”, completa. 

O historiador diz que, na realidade, Getúlio queria usar o “prestígio” da FEB para solidificar essa sua "ressignificação" com uma imagem mais pró-democracias. 

Os passos do Brasil na Guerra 

Após estreitar as relações com os norte-americanos para obter material bélico, Rodrigues diz que os soldados brasileiros passaram por uma fase de recrutamento. “O plano original era de recrutar aproximadamente 60 mil soldados, mas por conta dos critérios mínimos que precisavam ser atendidos por parte dos recrutas, muitos eram recusados”.  

Ao fim, menos da metade foram aceitos: 25.334, que estavam divididos entre soldados, médicos, técnicos, entre outros. “No entanto, é importante ressaltar que, justamente por esses soldados terem passado pelos rígidos critérios de recrutamento, eram considerados o que tínhamos de melhor em termos de material humano para uma guerra em termos de aptidão física”, pondera o historiador. 

Icles também aponta que os americanos não tinham muito interesse que os brasileiros integrassem suas filas de combatentes, afinal, os Estados Unidos tinham o interesse muito maior no posicionamento geográfico daqui e de do que tínhamos para oferecer como matéria prima, do que a disponibilidade de combatentes em si. “Mas como Vargas fazia absoluta questão de enviar tropas, elas foram à Itália subordinadas ao 5° Exército dos Estados Unidos”. 

Uma das principais contribuições da FEB no conflito se deu durante a conquista do Monte Castello — já nos últimos momentos da Guerra. Como explica matéria publicada pela equipe do site Aventuras na História, o Alto Comando aliado tinha uma meta muito clara em mente: enquanto soviéticos avançavam pelo leste europeu, eles queriam conquistar a cidade de Bolonha até o Natal daquele ano de 1944. 

Soldados da Força Expedicionária Brasileira em Monte Castello / Crédito: Domínio Público

 

A tomada do território, na visão deles, significaria manter o inimigo sob pressão na península italiana. Assim, a FEB foi escolhida para ajudá-los nessa missão. “Embora não fosse a primeira vez que os brasileiros enfrentassem os alemães na Itália, foi a primeira vez que os brasileiros tiveram tantas baixas em uma batalha tão sangrenta. Logo, tomar o Monte Castelo era questão de honra, e quando finalmente o monte foi conquistado, os soldados lavaram a alma”, explica Icles.    

“Estrategicamente, o Monte Castelo era apenas um da cadeia de montes que precisava ser tomada naquele contexto, e a importância que ele tem na memória da FEB faz parecer que ele era mais estrategicamente valioso do que realmente era, quando você olha a partir de um panorama mais abrangente. Mas para os brasileiros, foi muito difícil, e marcou um ponto de virada entre um certo amadorismo prévio e a transformação da FEB em uma força de combatentes experientes”, completa. 

Rodrigues explica que essa mitificação da conquista brasileira ocorreu pelo fato dela ser muito custosa aos nossos combatentes, afinal, eles fracassaram quatro vezes entre novembro e dezembro daquele ano antes de conseguirem cumprir sua missão — algo que lhes custaram inúmeras vidas.  

Os combatentes e a falta de reconhecimento 

Duas semanas depois da última conquista da FEB no conflito, a guerra na Itália chegou ao fim. Em homenagem aos pracinhas brasileiros, o Museu Militar da Força Expedicionária Brasileira foi construído no interior de um castelo do século 12.

Mesmo assim, com o passar dos tempos, o brasileiro passou a reconhecer cada vez menos as conquistas de nossos antigos combatentes. “Os governos brasileiros, em geral, nunca deram muita atenção para os ex-combatentes da FEB. Um ou outro político podia até instrumentalizar a vitória na Itália e o apoio da FEB, mas milhares de febianos precisaram lutar por anos, às vezes até décadas para receber benefícios”, explica o historiador. 

Icles, porém, pondera que isso também acontece em diversos outros países, inclusive nos Estados Unidos, onde diversos combatentes passam por enormes dificuldades quando retornam de conflitos.   

“Mas temos que levar em conta que países como os Estados Unidos raramente não estão envolvidos com alguma guerra em algum lugar, ou ao menos estão sempre a postos para uma. A característica imperialista dos EUA exige uma cultura de valorização da carreira militar, e isso passa pelos discursos de louvor aos soldados, o famoso ‘thank you for your service’, tão usado para com os ex-combatentes dos EUA no cotidiano”, explica. 

Em contra partida, por aqui, não temos uma cultura de guerra e enfrentamento, muito pelo contrário, nossa fama de hospitalidade e de bom diplomata é muito mais forte do que qualquer outra coisa. “Tanto que, durante muito tempo, se você fosse olhar as propagandas de recrutamento do Exército Brasileiro, elas giravam em torno da ideia de ação, de que se alistar leva o alistado a um mundo atrativo de ação e aventura”, diz o historiador. 

Para Icles Rodrigues, “só nos últimos anos é que a memória da FEB começou a ser timidamente usada pelo Exército Brasileiro como chamariz, e ainda assim não chega nem perto do que é feito nos Estados Unidos”.


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