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Jorge Israel Klainman: A incrível saga do homem que passou por 5 campos de concentração

Sobrevivente da Segunda Guerra, o polonês sofreu dos 11 aos 17 anos nas mãos dos agentes nazistas

Fabio Previdelli Publicado em 03/01/2021, às 09h00

Jorge Israel Klainman, o judeu que sobreviveu a cinco campos de concentração
Jorge Israel Klainman, o judeu que sobreviveu a cinco campos de concentração - Divulgação/ Arquivo Pessoal

Nascido na cidade polonesa de Kielze, Jorge Israel Klainman era o filho mais novo do comerciante Meloch Klainman e sua esposa Bela, que tiveram outros três filhos: Debora, Ruth e Moyses (Moniek). Jorge tinha apenas 11 anos quando a Alemanha nazista invadiu a Polônia. 

Uma de suas primeiras recordações da guerra foi a de quando alemães bombardearam sua cidade. “Nos refugiamos no porão do prédio em que vivíamos. Quando saímos, tudo estava devastado. Só um prédio ficou em pé: o nosso”, conta em matéria publicada pela Folha no ano passado.  

“Minha família decidiu pedir refúgio ao meu avô, em Działoszyn, a 150 km. Mas, pouco depois, veio uma ordem Berlim para que metade dos membros de todas as famílias judias fizessem trabalhos forçados. Eu e meu irmão fomos trabalhar na construção de uma linha de trem. Era um trabalho duro”, relembra.  

Certo dia, os alemães mandaram todos se reunirem em uma praça, seria feita uma seleção: os mais jovens, aptos para trabalhar, deveriam se direcionar até a fila da direita. Jorge e Moniek foram para a fila da esquerda, onde estavam mulheres, crianças, jovens de até 18 anos, doentes e idosos.  

Moniek, o irmão mais velho de Jorge / Crédito: Wikimedia Commons

 

“De repente, veio um judeu alto e forte carregando um bebê. O oficial nazista disse: ‘Jogue-o no chão’”, conta. “Ele não respondeu. Então, o nazista atirou na cabeça do bebê. O pai jogou o bebê morto no chão e partiu para cima do oficial com um estilete. Foi perfurado a balas”. 

No meio da confusão, os dois irmãos correram para a fila dos mais fortes. Não puderam se despedir de sua mãe e irmã. Na porta do vagão do trem, mais um adeus. Seu pai foi barrado por um agente, sendo encaminhado para a fila dos mais fracos. Naquele momento eles ficaram sozinhos. 

Os dois haviam sido encaminhados para o campo de concentração de Prokocim. Por lá, o garoto era encarregado de lustrar as botas dos ucranianos que tinham como trabalho fuzilar as pessoas. Como acordava cedo, acabava perdendo o café da manhã. No terceiro dia, Jorge já se sentia fraco, e acabou apanhado enquanto tentava conseguir um pouco de comida.  

“Veio o comandante, um letão enorme de dois metros de altura que ainda tinha sentimentos humanos, olhou para mim e sinalizou com a cabeça para eu fugir. Com medo de uma vingança, disse ao meu irmão que ia fugir do campo”. 

De lá, se juntou aos 300 prisioneiros que iam todos os dias trabalhar nos Guetos de Cracóvia. Foi lá que conseguiu ajuda dos guardas que colaboravam com os nazistas.

Como tinham certos privilégios, a maioria deles compartilhava um pouco de sopa ou pedaços de pão com Klainman, que ao menos uma vez por semana levava suprimentos para seu irmão no campo. “Um dia, voltei ao campo mas ele não estava mais lá”. 

Mas em 1943 tudo mudou quando Berlim decidiu acabar com o gueto. A população judia foi convocada a comparecer na praça central, mas Jorge decidiu que tentaria fugir. Improvisando um crachá falso, seguiu pela fila dos trabalhadores. A cada passo, suas pernas tremiam cada vez mais de angústia. 

“Quando cheguei no portão, um oficial nazista me olhou. Pensei que ia me mandar para a morte. Mas, em vez disso, gritou: ‘Fora!’. Passaram-se quase 75 anos, mas até hoje não entendo porque ele salvou a minha vida. Nem todos eram monstros; foi o segundo nazista que me salvou”. 

Com isso, foi colocado em vagões de carga que transportavam 120 pessoas por compartimento. Jorge havia sido mandado para o campo de extermínio de Plaszóvia, o mesmo que é retratado no filme “A Lista de Schindler”. 

“O comandante era um assassino sádico chamado Amon Göth. Todos os dias, ele colocava o uniforme de gala e ia até uma praça central, onde os prisioneiros esperavam recontagem. Ia de fileira a fileira. Contava nove e, com um golpe de chicote, tirava o décimo da fila”. 

Quando reuniam 200, os agentes nazistas enviavam os judeus para um lugar fechado no meio do campo, sob a estrita vigilância dos ucranianos.

Lá, eram mantidos trancados por dez horas e, posteriormente, eram levados até o pé de uma montanha, onde eram obrigados a se despirem e ficarem uns ao lado dos outros na borda de um buraco. “Vi os ucranianos apontando as metralhadoras”. 

“Daí não me lembro de mais nada. Depois de me contaram que eu perdi a consciência quando caí, e os outros cadáveres caíram em mim e me protegeram. Das balas que foram atiradas, só uma atingiu a minha perna, sem tocar no osso. Fui encontrado pelos Sonderkommandos e tratado em segredo por um médico judeu na enfermaria”. 

Recuperado, subiu novamente em um vagão, desta vez fora enviado ao infame campo de Mauthausen. Dos 120 prisioneiros transportados com ele, apenas 40 chegaram com vida ao destino final. Quando chegou, ainda foi obrigado a caminhar por 5 quilômetros. “A SS atirava na cabeça de quem caía”. 

Jorge Klainman, em 1947 / Crédito: Arquivo Pessoal

 

Quando saíram de Plaszóvia, eram, ao todo, 3.2000 presos. Porém, apenas restaram 800. Jorge era identificado com o número 85143. “Mesmo que eu viva 500 anos, jamais esquecerei esse número”. 

Na manhã seguinte, ele foi levado para trabalhar na mina de mármore do campo. Klainman lembra que tinha que carregar pedras que pesavam cerca de 40 quilos, o que era muito para ele, que pesava 26.  

De lá, Jorge ainda seguiu para o campo de Ebenssem na fronteira com a Hungria. “Lá, vi as imagens piores”, conta. “Fora dos barracões, mais de 10 mil cadáveres esqueléticos congelados, amarrados como se fossem troncos de árvores”. 

Sua angústia durou até 5 de maio de 1945, quando os soldados americanos liberaram o campo. “Me mandaram para um hospital militar em Salzburgo, onde me medicaram. Engordei 8 kg. Tinha esperança de encontrar alguém da minha família vivo”. 

Recuperado e um pouco mais sadio, procurou Moniek por dois longos anos. Ouvira boatos que alguém tinha dito que seu irmão sobrevivera. “Infelizmente, cheguei atrasado, porque ele morreu de uma apendicite estúpida logo após o fim da guerra”.  

Atualmente, aos 92 anos, Jorge Klainman vê com importância seus relatos sobre o que passou em cinco campos de concentração nazista. Ele enxerga como essencial que as novas gerações saibam do que o ódio e o racismo humano são capazes.  

“Atualmente, as coisas vão de mal a pior na Europa e novamente os judeus são perseguidos. A população europeia tem o mesmo antissemitismo, ou mais, do tempo de Hitler. Se aparecer um líder louco, podemos ter um Holocausto 2”, diz.  

“Mas, desta vez eles não teriam tanta sorte. Antes, tínhamos apenas paus e facas. Agora, temos um Exército e podemos enfrentar qualquer país”.


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