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José Tohá, o ministro torturado e assassinado na Ditadura de Pinochet

Devido as constantes sessões de tortura, sua condição física passou a se deteriorar — ele media 1,92 metros de altura e chegou a pesar 49 quilos

Fabio Previdelli Publicado em 31/10/2019, às 18h17

José Tohá
José Tohá - Historia Política BCN

Augusto Pinochet foi responsável por instaurar o regime militar no Chile durante seu governo entre os anos de 1973 a 1990. Marcado pela repressão e atrocidades, o ex-líder chileno ordenou a execução e tortura de milhares de pessoas.

Dentre seus diversos crimes, um em especial ficou marcado e foi alvo de debate e estudo durante anos: o do jornalista e ex-ministro de Salvador Allende, José Tohá.

Quem foi José Tohá?

Filho de imigrantes catalães, sempre esteve presente na discussão de grupos estudantis. Durante os anos em que cursou direito na Universidade do Chile, onde atuou ativamente como líder estudantil, ocupando a presidência da Federação dos Estudantes do Chile entre os anos de 1950 e 1951.

Anos depois ele se dedicou ao jornalismo, ingressando em 1958 no conselho do jornal Las Noticias de Última Hora. Acabou atuando como diretor do periódico, cargo que manteve sem interrupção por dez anos, até advento da Unidad Popular.

José Tohá / Crédito: Wikimedia Commons

 

Tornou-se membro do Partido Socialista desde 1942, ano em que ingressou na Federação Juvenil Socialista. Como membro do Comitê Central de seu partido, trabalhou nas quatro campanhas presidenciais de Salvador Allende: em 1952, 1958, 1964 e 1970.

Cargo no governo de Allende

No início do governo de Salvador Allende, foi nomeado Ministro do Interior e atuou como vice-presidente da República. Entretanto, foi afastado do cargo após ser acusado, pelo Partido Democrático Cristã, de tolerância contra a existência de grupos armados.

Quando sua acusação foi declarada procedente, Allende o nomeou Ministro da Defesa, o que ultrajou seus oponentes, que viram o ato como uma provocação. Como Ministro da Defesa, ele tomou as ruas do centro de Santiago para interromper uma tentativa de golpe, que ficou conhecida como Tanquetazo.

José Tohá, diz aos trabalhadores que voltem para casa durante o Tanquetazo em junho de 1973 / Crédito: Wikimedia Commons

 

Porém, alguns meses depois, em setembro de 1973, um golpe liderado por Augusto Pinochet mudaria para sempre a história do Chile.

O golpe de Pinochet e sua controversa morte

Na manhã do golpe em novembro de 1973, Tohá foi para o Palácio de La Moneda, quando questionado por que ele estava naquele lugar que seria bombardeado, ele respondeu: “Venho estar com o Presidente. Essa é minha responsabilidade”.

Após a morte de Allende, ele foi preso com outros colaboradores e levado para a Escola Militar em Dawnson Island — onde foi encarcerado e, posteriormente, torturado. Devido as constantes sessões de tortura, sua condição física passou a se deteriorar — ele media 1,92 metros de altura e chegou a pesar 49 quilos — o que acarretou a perda total de sua capacidade visual e a uma extrema dificuldade para andar ou se defender.

José Tohá morreu no dia 15 de março de 1974 no Hospital Militar de Santiago. A versão original dada pelos militares é de que ele havia cometido suicídio — se pendurando no pescoço com o cinto em um armário. Essa versão foi duramente criticada por sua família, que argumentou, entre outras coisas, que Tohá seria incapaz de executar os movimentos necessários para se suicidar.

Nesse mesmo ano, o especialista da Polícia de Investigação Alfonso Chelén, primeira pessoa que examinou o cadáver, indicou que a morte de José foi causada por estrangulamento com participação de terceiros. Este relatório custou sua saída da Polícia Civil.

Expostos e com medo de possíveis represálias, sua esposa Victoria Eugenia Morales Etchevers e seus filhos Carolina Tohá e José Tohá foram isolados no México. Mesmo de longe eles acompanharam os desdobramentos das investigações.

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José Tohá junto a Salvador Allende / Crédito: Wikimedia Commons

Mais de trinta anos depois, em 15 de novembro de 2010, o Tribunal de Apelações de Santiago ordenou a exumação do corpo do jornalista para que continuassem as investigações sobre a causa de sua morte. A perícia foi realizada no Cemitério Geral de Santiago. Além disso, em 24 de novembro de 2011, foi realizada uma reconstituição da cena do crime no Hospital Militar.

Em 12 de outubro de 2012 foi entregue o resultado de um terceiro perito ordenado pela Universidade de Consepción pelo juiz Jorge Zepeda, que argumentou que o ex-secretário de Estado não se suicidou, mas foi morto por estrangulamento.

Seu corpo foi sepultado pela terceira vez em 19 de novembro de 2012. Mais de três anos depois, em 4 de dezembro de 2015, o juiz Jorge Zepeda condeno os coronéis aposentados da Força Aérea, Ramón Cáceres Joquera e Sérgio Contreras Mejías, há três anos de sentença remetida, por serem responsáveis pela tortura de Tohá. A condenação foi confirmada em 18 de janeiro de 2017.


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