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Matérias / Josef Mengele

Mengele no Brasil: A vida do 'Anjo da Morte' nazista em terras tupiniquins

Responsável por experimentos científicos em Auschwitz, Josef Mengele fugiu para a América do Sul e só foi descoberto no Brasil anos após sua morte

Entrevista: Marcus Lopes/ Texto: Fabio Previdelli

por Entrevista: Marcus Lopes/ Texto: Fabio Previdelli

fprevidelli_colab@caras.com.br

Publicado em 09/12/2023, às 09h00 - Atualizado em 02/01/2024, às 18h56

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Josef Mengele, o Anjo da Morte - USHMM
Josef Mengele, o Anjo da Morte - USHMM

Conhecido como Anjo da Morte, Josef Mengele atuou como médico no campo de concentração de Auschwitz durante a Segunda Guerra Mundial. Coube a ele a função de selecionar vítimas que seriam mortas nas câmaras de gás ou que seriam submetidas a experimentos científicos.

Com a derrota iminente da Alemanha, porém, os oficiais nazistas de alto escalão encontraram apenas três alternativas: o suicídio, visto como a saída 'mais fácil'; cumprirem suas penas ao se tornarem prisioneiros; ou se arriscarem em fugir do país. 

Em 17 de janeiro de 1945, dias antes da libertação de Auschwitz, Mengele escolheu a terceira alternativa. Antes de encarar as 'linhas de rato' para a América do Sul, porém, ele trabalhou por quatro anos numa plantação de batatas ao sul da Alemanha, onde adotou o pseudônimo de Fritz Ullmann — apenas uma de suas várias alcunhas.

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Após se arriscar pelas complexas rotas passando pelos portos italianos, Mengele chegou ao hemisfério sul; passando pela Argentina e Paraguai antes de chegar ao Brasil. O Anjo da Morte viveu por décadas em solo tupiniquim antes de ser descoberto pelas autoridades nacionais e internacionais — só depois de morto.

Passaporte italiano de Mengele/ Crédito: Jackdawson1970 via Wikimedia Commons

Embora vivesse de forma pacata em São Paulo, o carrasco nazista montou por aqui sua chamada 'Baviera tropical'. Ao lado de poucos, mas fiéis protetores, Mengele conseguiu manter alguns de seus costumes e ainda falar alemão. 

"Ele foi o médico nazista mais procurado do mundo e viveu quase duas décadas aqui no Brasil, sem nunca ser descoberto. Temos que nos perguntar como isso foi possível", explica a jornalista Betina Anton, autora do recém-lançado 'Baviera Tropical' (Editora Todavia), em entrevista à Marcus Lopes. O bate-papo na íntegra pode ser conferido na edição de dezembro do Aventuras na História. 

O mais impressionante é que, mesmo ele tendo feito o que fez, permaneceu impune em nosso país por quase 20 anos. A punição para um criminoso de guerra é uma obrigação moral nossa como sociedade", defende Betina. 

Nazis na América

Ao chegar em Buenos Aires, Josef Mengele se estabeleceu na Argentina, onde trabalhou como carpinteiro enquanto vivia em uma pensão no subúrbio de Vicente Lopez. Semanas depois, acabou se mudando para uma casa de simpatizantes nazistas em um bairro de Buenos Aires. 

Betina Anton conta que a escolha do país não foi por acaso, visto que a nação vizinha já havia acolhido outros nazistas nos anos anteriores. "O presidente argentino Juan Domingos Perón simpatizava com o fascismo e facilitou a entrada de nazistas no país". 

"Além disso, os criminosos nazistas sabiam que, aqui desse lado do Atlântico, seria mais difícil serem extraditados para os países onde cometeram seus crimes. No caso de Mengele, esse país seria a Polônia, onde ficava o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau", prossegue.

Josef Mengele / Crédito: Domínio Público

A escritora conta que a vida dos fugitivos na capital argentina era extremamente agradável. Por lá, eles costumavam a manter laços, através de encontros ou até mesmo produzindo uma revista de extrema-direita. 

Betina explica que o cenário só mudou a partir dos anos 1960, principalmente quando a Mossad capturou Adolf Eichmann — um dos principais organizadores do Holocausto. "Nessa época, Mengele já estava vivendo no Paraguai, mas ainda voltava à capital portenha para visitar a segunda mulher e o enteado".

O sequestro de Eichmann foi um divisor de águas e, a partir daí, Mengele começou a sentir medo de também ser pego e, portanto, fugiu para o Brasil. Ele tinha motivos para ficar preocupado, pois era o próximo na lista do Mossad", contextualiza. 

Após o sequestro de Eichmann, um tribunal alemão expediu o primeiro mandado de prisão contra Mengele. Sendo um alvo, Anton narra que o Anjo da Morte se mudou para o Brasil em 1960. 

"Mengele se refugiou no Paraguai, onde se considerava seguro porque tirou a cidadania paraguaia com ajuda de dois simpatizantes nazistas. Dessa forma, achou que não poderia ser extraditado. Com o sequestro de Eichmann, essa sensação de segurança acabou e ele decidiu vir a São Paulo", conta. 

O carrasco nazista considerava o Brasil "um país bom", principalmente por conta da natureza e da vegetação tropical. "Além disso, gostava das novelas brasileiras, era extremamente racista e dizia que não gostava", diz Betina

A jornalista, porém, relata que Josef Mengele também tinha suas reclamações sobre nosso país: "[Ele] lamentava a corrupção no governo, segundo depoimento da sua última funcionária".

O fim da linha

Josef Mengele viveu no Brasil até sua morte, aos 67 anos, em 7 de fevereiro de 1979. Embora jamais tenha sido capturado e pago pelos crimes que cometeu, seu fim de vida esteve longe da tranquilidade de quando chegou na América do Sul. 

Com a saúde deteriorada desde 1972, Mengele sofreu um derrame quatro anos depois. Sofrendo de pressão alta, o Anjo da Morte também vivia com uma infecção no ouvido, o que afetava seu equilíbrio. 

À esquerda, Josef Mengele / Crédito: Getty Images

Durante uma visita a amigos em Bertioga, na Baixada Santista, ele sofrera um Acidente Vascular Cerebral (AVC) e se afogou enquanto nadava na praia da Enseada. Josef Mengele foi enterrado no município de Embu das Artes sob o nome de Wolfgang Gerhard — nome que ele tinha 'adotado' desde 1971. Só anos depois que sua verdadeira identidade foi revelada. 

"Por quase 25 anos, as autoridades brasileiras não souberam da presença de Mengele no Brasil. Isso levando em conta os mais de 18 anos em que ele viveu aqui e os seis anos até o mundo descobrir que ele estava enterrado no cemitério do Embu”, aponte Betina

A autora de 'Baviera Tropical' aponta alguns fatores que levaram a isso: "Em primeiro lugar, a meu ver, Mengele era muito cuidadoso, usava nome falso e pouquíssimas pessoas aqui no Brasil conheciam sua verdadeira identidade". 

A jornalista também ressalta que a sua rede de apoio, pequena, mas extremamente fiel, foi o segundo fundamental pilar para seus anos de impunidade. "Também deve-se levar em conta que o mundo inteiro pensava que Mengele estava no Paraguai porque ele tinha cidadania paraguaia. Quem chegou mais perto de descobrir o paradeiro de Mengele durante todo esse tempo foi o Mossad". 

Em 1985, ou seja, quase 15 anos após sua morte, policiais alemães encontraram pistas de que Mengele pudesse estar no Brasil, relata Betina. "A Polícia Federal em São Paulo atuou rapidamente. O inquérito tem depoimentos de muitas testemunhas, pode-se reconstruir parte da vida dele no Brasil".

Passado maldito

Embora tenha se passado quase quatro décadas e meia desde a morte de Josef Mengele, a jornalista Betina Anton acredita que o assunto ainda não é difundido da forma que deveria ser. 

"Existem estudos acadêmicos sobre a influência nazista no país, principalmente no começo do século passado. Isso difere da presença de criminosos nazistas no Brasil, pessoas que tiveram cargos no Terceiro Reich e cometeram crimes de guerra e contra a humanidade, como Josef Mengele, Franz Stangl e Gustav Wagner. Esses dois últimos foram comandantes de campos de extermínio na Polônia e viveram no estado de São Paulo. De forma geral, acho que é um assunto pouco estudado e discutido", aponta.

Sobre sua pesquisa, que resultou no livro, a jornalista conta que enfrentou diversos desafios no processo, como até mesmo receber ameaças de forma velada, principalmente de pessoas que acobertam o Anjo da Morte no Brasil — visto que elas não possuem o interesse de que a história venha à tona. "Portanto, recebi ameaças". 

A primeira delas foi de Liselotte Bossert, minha professora de escola e a pessoa que enterrou Josef Mengele, com nome falso, no cemitério do Embu", revela.
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Capa do livro 'Baviera Tropical' /Crédito: Divulgação

"Repetidamente, ela me disse que era melhor eu pesquisar outro assunto e chegou a me dizer que esse era ‘um caso perigoso’. Inicialmente, eu fiquei paralisada e pensei em desistir. Mas esse sentimento passou e resolvi ir em frente. Descobri muitas coisas sobre a vida dele aqui no Brasil e sobre a rotina com seus protetores".

Por fim, a autora de 'Baviera Tropical' dá seu parecer sobre as lições que podemos tirar ao estuda a história do carrasco nazista. "Mengele perdeu a humanidade e assumiu a postura de um monstro. Como é possível matar e torturar mulheres e crianças? O mais impressionante é que, mesmo ele tendo feito o que fez, permaneceu impune no nosso país por quase duas décadas". 

"A punição para um criminoso de guerra é uma obrigação moral nossa como sociedade. Estudando a história dele percebi também como foi importante a atuação dos próprios gêmeos de Auschwitz para que ele fosse encontrado, mesmo morto. O ativismo foi fundamental para que as vítimas se unissem, apesar de viverem em países diferentes e falarem línguas diferentes. Juntas, elas puderam denunciar os crimes que ele cometeu. Se as vítimas tivessem ficado caladas, talvez até hoje Mengele estivesse enterrado incólume no Embu", finaliza. 

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