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Mistério solucionado: De onde vieram as 'caixas' nazistas encontradas na praia de Salvador?

Objetos foram achados em Stella Maris em agosto deste ano

Fabio Previdelli Publicado em 17/10/2021, às 07h00 - Atualizado em 18/10/2021, às 01h00

Um dos objetos encontrados em praia da Bahia
Um dos objetos encontrados em praia da Bahia - Divulgação/ Limpurb

Nas últimas semanas de julho deste ano, 2021, um mistério tomou conta do litoral nordestino. Afinal, na Praia do Flamengo, em Stella Maris, orla que fica na capital da Bahia, foram localizadas oito ‘caixas misteriosas’.  

Os objetos foram encontrados na faixa de areia e chamaram a atenção por conta de seu peso — sendo que só foram retirados pela Empresa de Limpeza Urbana de Salvador (Limpurb) com o auxílio de um caminhão com guindaste.   

Na época, a Capitania dos Portos da Bahia publicou uma nota, segundo matéria publicada pelo G1, informando que achados do tipo estavam sendo registrados no litoral do Nordeste desde 2018. 

O que tornava tudo ainda mais curioso é que nenhum acidente náutico foi registrado na área, o que poderia explicar a aparição recente.   

'Caixa' sendo retirada da praia/ Crédito: Divulgação/ Limpurb

 

Com isso, a Marinha coletou o material para análise — trabalho que teve a ajuda do Instituto de Geociências da Universidade Federal da Bahia (Ufba). Mas, no fim das contas, qual é a origem das caixas?  

 

As primeiras teorias 

Poucos dias após o achado, em 3 de agosto, as primeiras teorias sobre a aparição começaram a surgir. Segundo informou ao G1 o oceanógrafo Carlos Teixeira, pesquisador no Instituto de Ciência do Mar (Labomar), que faz parte da Universidade Federal do Ceará, o receptáculo, na verdade, não eram caixas, mas sim fardos de borracha que estavam em um navio da Alemanha nazista que afundou há cerca de 80 anos no Oceano Atlântico. O material, de acordo com Teixeira, pertencia ao SS Rio Grande.  

"Era um navio de carga nazista alemão. A ideia dele era ficar transportando cargas entre um lado do Atlântico e o outro. Além dessas caixas de borracha, ele carregava cargas de metais como cobalto, estanho, latão, titânio, vários metais que hoje são até bem valorizados", explicou o pesquisador ao veículo.   

No entanto, os planos dos alemães foi por água abaixo, literalmente, quando uma frota americana afundou a embarcação em 1944 — perto do fim da Segunda Guerra Mundial. Desde então, o SS Rio Grande se encontra numa profundidade de quase seis mil metros.   

Um fato que corroborou com a teoria, segundo o oceanógrafo, foi uma inscrição encontrada em um fardo semelhante que havia sido localizado em uma praia cearense, há cerca de dois anos. 

O objeto continha a seguinte mensagem: “Produzido na Indochina Francesa”, região essa que era comandada pelo Japão, um dos aliados nazistas no conflito.   

Inscrição presente em uma das caixas/ Crédito: Divulgação/TV Bahia/G1

 

Apesar disso, um mistério ainda intriga. “As correntes estão para o norte e os ventos para o norte. Então, não teria como [a correnteza] estar trazendo um caixa de Sergipe ou do norte da Bahia para Salvador e para a Região Metropolitana de Salvador, como [os bairros de] Stella Maris e Flamengo”, relata Teixeira.   

A grande questão, segundo o oceanógrafo contou ao G1, seria saber se as caixas vieram do mar ou se elas estavam enterradas na região sul de Salvador. “Como elas chegaram em Salvador é um novo mistério”. 

Mistério desvendado 

Até então, tudo levava a crer que a teoria que o material pertencia ao SS Rio Grande era a mais plausível. Mas as coisas mudaram um pouco de cenário nos últimos dias, quando pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) anunciaram que descobriram a origem dos fardos.  

Fardos encontrados na orla/ Crédito: Divulgação/ Limpurb

 

Um ponto anterior estava correto: eles realmente pertenceram a um navio nazista afundado na Segunda Guerra, entretanto, essa embarcação não era o SS Rio Grande, mas sim o MV Weserland — que naufragou em janeiro de 1944. 

O que desvendou a origem de tal material foi justamente as inscrições nos fados. Esses mais recentes tinham ideogramas japoneses, enquanto o dos malotes achados no Ceará, como citado acima, eram da Indochina Francesa — ocupada pelo Japão. Portanto, localidades diferentes.  

“Duas coisas chamaram a nossa atenção: primeiro a grande quantidade de fardos neste ano, mais de 200 na Bahia, Sergipe e Alagoas. Era uma quantidade grande demais para ser considerado residual”, explica o professor Luis Ernesto Arruda Bezerra, do Instituto de Ciências do Mar, da UFC, em entrevista ao O Globo. 

“Outro fator foram as fotos enviadas por um colega de Alagoas. Nelas haviam ideogramas em japonês, que depois identificamos como do tipo kanji. Isso não tinha no outro. Então ligou o alerta de que não seriam os mesmos fardos”, completa. 

Além da origem dos fardos, o estudo também revelou como essas cargas chegaram na orla de Salvador. Para isso, o professor Carlos Peres Teixeira, que ajudou Bezerra nas buscas, revirou um banco de dados sobre navios de guerras que naufragaram na região.  

Assim, ele entrou em contato com David Mearns, pesquisador britânico especialista no assunto. Mearns revelou que, com a pandemia, a busca por estanho passou a ser maior. Como o material era transportado pelo navio; no começo do ano, houve uma tentativa de recuperar a carga.  

Mistério sobre os fardos foi desvendado nos últimos dias/ Crédito; Divulgação/ Limpurb

 

Dessa maneira, explica Luis Ernesto, os fardos se soltaram da embarcação e ficaram à deriva. Com essas informações, um modelo matemático que simulava o deslocamento dos objetos foi criado. Baseando-se na ação dos ventos e nas correntes oceânicas, descobriu-se que o local de onde eles vieram corresponde com a localização do naufrágio do MV Weserland.  


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